terça-feira, 22 de setembro de 2009

António Patrício, “O Camarada”

Fruto das transformações introduzidas pelos Modernismos, a relação entre os receptores e a poesia alterou-se de forma sensível ao longo do século XX. À medida que o século avançava, era possível apontar um estreitamento do público da poesia (cada vez mais especializado, e por isso mais restrito, mesmo que eventualmente mais amplo do estrito ponto de vista quantitativo), e, sobretudo, uma transformação do tipo de relação estabelecido entre os receptores e os textos. A funcionalidade vivencial que, fruto de uma matriz romântica da ideia de poesia, ainda perdurava no início do século vai-se perdendo ao longo das décadas. Num processo comum a outras formas de arte (mas ao qual em parte a ficção escapou), assistiu-se a uma esteticização do trabalho poético. A poesia vai perdendo valências sociais e afectivas, para se tornar apenas literatura.
Este devir literatura da poesia (ou melhor, este devir apenas literatura) implica a perda dos vínculos com os contextos social, cultural, político, etc. Não que, enquanto parte integrante destes contextos, os autores por si não possam investir em textos mais ou menos implicados nos domínios sociopolítico, religioso ou outros. Qualquer que seja o seu valor, existem vários exemplos de autores política ou socialmente comprometidos. A questão que se coloca é a da efectiva penetração social e experiencial dos textos. Ou seja, para que é que hoje a poesia serve? Melhor, qual a relação que o receptor estabelece com os textos? Numa formulação particularmente eficaz pela sua simplicidade, António Patrício enuncia, no poema O Camarada
[i], um traço significativo da relação estabelecida entre os leitores e os textos poéticos até ao princípio do século XX:
Foram-se os filhos, foi-se a mulher; ó camarada, quem mais me quer?... E o camarada, sem responder, afia a foice: oiço-a ranger. Foi-se o meu génio, voltou pra Deus; versos, palavras, quem sabe os meus? (…)
Se o registo romântico e decadentista questiona o valor da produção poética, não questiona o critério que poderia medir tal valor: o da penetração vivencial das palavras no seu público potencial. O saber ou não saber dos receptores afirma-se como medida da efectivação do texto. De facto, até ao início do século XX, sabiam-se os poemas. Este saber traduzia a apreensão por memória dos textos tidos por relevantes. A memorização, fruto de um trabalho específico de formação, ou consequência de uma relação frequente com os textos, permitia uma relação íntima com os mesmos, a sua convocação enquanto paisagem representacional subjectiva. Não que hoje um leitor especializado não possa possuir memorizados um maior ou menor número de textos: o que já não é possível é invocar tal apreensão por memória como critério da relevância de um autor. Grande parte da relação que se estabelece com os poemas esgota-se no acto de leitura, num registo intelectualizado mesmo quando se situa no interior de abordagens de natureza não conceptual. A valência que poderíamos designar como da ordem da mnemónica do esquecimento, que era a do poema até à Modernidade, parece perdida.
[i] In António Patrício, Poesia Completa, Assírio e Alvim, 124, 125.