sábado, 19 de setembro de 2009

Bénédicte Houart, Aluimentos

Não há na poesia portuguesa contemporânea muitas vozes cuja singularidade permita o seu reconhecimento a partir de alguns versos ou mesmo de alguns poemas. Muitos dos textos publicados por diferentes autores revelam-se intermutáveis em termos de autoria. Tal não traduz a pertença consciente a movimentos cuja partilha de um vocabulário estético, estilístico e temático pudesse suportar essas afinidades. A intermutabilidade ocorre mesmo entre autores de gerações muito diferenciadas e é, sobretudo, consequência da ausência (se exceptuarmos um ou outro nome já canónico) de uma identidade linguística forte na maioria dos textos. Esta é talvez uma característica comum a todas as épocas e a todas as formas de arte: não é fácil construir um discurso que, partindo dos dados do contexto artístico e cultural em que se desenvolve, seja capaz de se autonomizar dos constrangimentos imediatos ditados por esse contexto. Também por isso, é muito relevante a descoberta e a afirmação de uma escrita com uma marca autoral fortemente perceptível.
Aluimentos é o terceiro livro publicado por Bénédicte Houart ao longo dos últimos quatro anos.
[i] Encontramos neste livro as marcas de uma identidade que prolonga as obras anteriores: a auto-ironia, desconstrução da linearidade semântica e sintáctica, lirismo poetizado que se esconde sob uma aparência de realismo cru. É um mundo desencantado que emerge destes trabalhos, onde o registo quase analítico da linguagem se cruza com um vocabulário voluntariamente pobre.
Há nos textos de Bénédicte Houart uma relação com a linguagem que oscila entre a inventividade da construção frásica e a apropriação crítica de lugares-comuns da oralidade. Estes, subvertidos pela inscrição numa estrutura discursiva de matriz irónica, apresentam-se como âncora de cumplicidade para como o leitor. Tal cumplicidade é também a da aproximação mimética (ou para-identitária) entre o sujeito do discurso e o seu objecto:

tinha um parafuso a menos
tive um acidente
puseram-me vários
estou deveras preocupada
um a menos? vários a mais?
não é que faça diferença
saber ou não, quero dizer
agora ando tilintando por tudo e por nada

(…).[ii]

A tendência confessional da escrita tem na postura irónica uma salvaguarda que a impede de cair na auto-complacência. A ironia surge menos como uma atitude vivencial do que como uma estratégia criativa. Permite ficcionar um distanciamento que, de facto, não existe. Permite, igualmente, não ultrapassar a linha frágil que separa a auto-comiseração da transfiguração da experiencia interior pela palavra. Avulta aqui a capacidade de subversão da linearidade gramatical e semântica. A desconstrução da linearidade do discurso é propiciada, entre outras, pela quase ausência de sinais de pontuação e pela utilização da quebra dos versos como instrumentos de reconfiguração da linearidade semântica. E é na desconstrução e na ironia que a escrita tenta igualmente proteger-se da aproximação a um lirismo simples e aqui ou além pouco elaborado:

cada qual sabe como
o coração é frágil
tal cristal, mas
se quebrado
da vida ainda
emite vibrações.
[iii]

A utilização de vocábulos imediatamente remissíveis para um imaginário de natureza poética (o coração, o cristal, o poema, o poeta, as palavras, etc.) fragiliza a postura criativa, deixando entrever um movimento fechamento da escrita sobre si mesma, num estrito processo de duplicação da sua identidade: o território do poético surge como garantia da pertença a um dado uso da língua, ao mesmo tempo aquele que se pretende subverter e o único no interior do qual a própria escrita adquire pertinência. Esta contradição é congénita a esta postura criativa e atravessa toda a arte da Modernidade: de algum modo, marca o limite da herança das vanguardas. Aquilo que se pretende desconstruir é precisamente aquilo no interior do qual o gesto de desconstrução se inscreve como significante.
Mas, aqui como em todas as posturas mais imediatamente provocadoras, a enunciação do óbvio como tentativa de subversão pode resultar apenas na contemporização para com o óbvio:

um poema não se
mede aos palmos
.[iv]

A medida de um texto não pode ser dada segundo os seus princípios internos: determina-se na relação que estabelece quer com o mundo no interior do qual ele se produz, quer com o conjunto de representações face às quais é dotado de identidade semântica. O mundo que emerge destes textos é definido pela ideia de margem e de subversão (a prostituta, o poeta, os velhos, igualados numa mesma marginalidade). Nenhuma postura criativa pode viver apenas da definição das suas próprias margens. Em Bénédicte Houart, é de esperar que, enunciadas as margens, haja a ambição de construir um centro. Mesmo que este se situe na margem.


[i] - Reconhecimento, Cotovia/Angelus Novus, 2005.
-Vida: Variações, Cotovia, 2008.
- Aluimentos, Cotovia, 2009.
[ii] Vida: Variações, 47.
[iii] Aluimentos, 18.
[iv] Aluimentos, 79.