quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Edmond Jabès, “ED, OU A PRIMEIRA NUVEM”



O saber de cor, o decorar, é parte de uma estratégia de interiorização da relação com os textos. Perdendo a mediação da palavra escrita, o texto, tornado não oral, mas matéria de pensamento, transforma-se num espaço interior. Esta valência da poesia constitui uma especificidade não partilhada com nenhuma outra área da literatura ou forma de arte. Em nenhuma outra arte (música, cinema, artes plásticas, dança, etc.) é possível que a transposição da experiência objectiva exterior para o plano da estrita experiência subjectiva se efectue sem perdas. A capacidade de recordar mentalmente uma música ou uma imagem não permite uma actualização senão de uma parte muito restrita da obra em causa, correspondendo inevitavelmente a uma deturpação da experiência potencial da obra. É possível memorizar partituras completas, mas esse exercício não corresponde, do ponto de vista da actualização efectiva da música, à experiência proporcionada pela materialização em som daquilo que está inscrito na partitura.
Ao nível mais específico da literatura, é naturalmente possível a memorização de excertos de textos, ou mesmo de obras mais vastas. É humanamente possível a memorização de um romance de várias centenas de páginas, mas este seria um trabalho que implicaria um estreitamento assinalável da experiência do sujeito (dado o seu carácter quase exclusivo), e seria, sobretudo, um trabalho ao qual não corresponderiam ganhos relevantes ao nível da experiência interior.
Decorar, ou saber com o coração, traduz uma apreensão interior que não apenas permite o acesso a uma versão não deturpada da obra (não a memória de um som, de uma forma, mas a própria obra), como constitui um aprofundamento da experiência do texto. Em trabalhos poéticos de maior investimento visual (poesia concreta, etc.) poderá identificar-se alguma perda na passagem do domínio da relação com o texto pela mediação da leitura e a transposição para o plano do estrito pensamento, mas os ganhos são por regra muito superiores.
Implicará o elogio do poema como matéria de experiência mental uma desvalorização do livro enquanto objecto privilegiado de inscrição material do texto? Leia-se, não como exemplo, nem como estratégia de argumentação, mas como lugar de constatação da natureza problemática desta questão, o excerto de Edmond Jabès[i]:

«Qualquer livro não passaria de turva semelhança com o livro perdido.
“Em cada um de nós, dizia ele, há um livro que nos transforma em vocábulos, como o sangue se reforma no sangue.
“A cada Palavra, a cada vocábulo corresponde um baque de coração.
“O preço do livro é o preço de uma aliança.”

(…)»
[ii]

O livro como espaço de inscrição do texto é ao mesmo tempo condição da palavra e negação da natureza da própria palavra. Ao mesmo tempo lugar de representação e negação de qualquer possibilidade de representação. A transposição da relação para o plano do pensamento transforma o texto decorado num movimento de remissão para o livro ausente, para o texto perdido. Mas este é, de facto, apenas um aprofundar do movimento mais vasto de remissão do texto para o seu autor, de fundamentação da interpretação em algo irremediavelmente não apropriável:
«(…)
Deus é a ausência do livro, e o livro a lenta decifração da sua ausência.
Não existe Livro, fora de Deus.»
[iii]
A possibilidade da representação mental é inversamente correlativa à inscrição da palavra enquanto realidade materializada e apreensível pelo olhar. Mesmo a sua oralização já colide com a natureza mental. A questão que fica em aberto é a de saber se enquanto ritmo, a palavra do poema não é já corpo, e como tal matéria.



[i] Edmond Jabès, “ED, OU A PRIMEIRA NUVEM”, in A Obscura Palavra do Deserto, Cotovia, trad. Pedro Tamen.
[ii] “ED, OU A PRIMEIRA NUVEM”, 47.
[iii] “ED, OU A PRIMEIRA NUVEM”, 55.