domingo, 27 de setembro de 2009

Herberto Helder, “ANTROPOFAGIAS, TEXTO 4”






O que é que um poema diz? Qual é a relação que se estabelece entre a escrita enquanto produção de um encadeado de palavras e a leitura desse texto? No texto poético, será a palavra capaz de funcionar com instrumento de remissão do sujeito para o seu referente, na produção de uma experiência capaz de fornecer ao leitor, enquanto experiência, o correlato daquilo que é enunciado enquanto texto?
Uma resposta afirmativa a estas questões exigiria que a estrita enunciação da palavra (sujeito, predicado, substantivo, adjectivo, etc.) no interior de uma organização semanticamente sobredeterminada (o poema) fosse capaz de transportar para a experiência do leitor os seus correlatos não representacionais. Esta pretensão suporia a identificação entre a palavra e o seu referente. Dizer “corpo” seria transportar o corpo para o interior do texto. Dizer “áspera” seria transportar e transmitir para o receptor a intensidade táctil da sensação enunciada. Esta seria, no entanto, uma estratégia de escrita com tanto de ingénuo como de ineficaz. Tratar-se-ia de pensar o texto como se ao enunciado verbal pudesse corresponder num leitor atento a experiência somática e psicológica correspondente. Tal nunca acontece.
Ao nível da poesia, só lateralmente aquilo que o leitor apreende com a palavra o remete, de facto, para a realidade material ou mesmo subjectiva que corresponde ao referente imediato do termo. Aquilo que é lido e experienciado é a palavra “corpo”; na sua materialidade táctil ou visual, o corpo, tal como a aspereza, a dor ou a alegria, não cabe no interior do texto. O nível de apreensão é em larga medida da ordem de um encadeado textual que não é exterior a essa estrita dimensão textual. Seria virtualmente impossível fazer corresponder ao enunciado de um texto como “ANTROPOFAGIAS, TEXTO 4” [i], de Herberto Helder, uma experiência subjectiva de cariz imagético-sensorial (cinematográfica, digamos, para nos situarmos apenas na dimensão visual e auditiva):



«Eu podia abrir um mapa: “o corpo” com relevos crepitantes
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre “táctil”
furibunda maneira
esse era então um espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
(…)
»
[ii]


Temos aqui explicitado o regime da relação entre o leitor e o texto enquanto representação: “Ler” corresponde precisamente a esse “lugar interno”. Um espaço interior à dimensão textual que, embora não se esgote nela, tem aí a sua maior força experiencial. A escrita corresponde, então, à formulação de uma proposta de experiência da palavra. Uma experiência que de algum modo é auto-suficiente no plano da textualidade: embora implicando remissões para referentes que lhe são exteriores, não exige a transposição mental desse referente para a experiência do leitor. Tal como a audição, por exemplo, de uma sonata se desenvolve em larga medida no plano de uma experiência interior da dimensão sonora, a leitura do poema desenvolve-se no plano da experiência da palavra enquanto coisa escrita. Não há nisto nada de redutor.
Naturalmente que se o termo de comparação acima enunciado fosse não uma sonata, mas um madrigal ou um lied, estaríamos perante uma experiência que, para além da estrita dimensão sonora, implicaria de um modo constituinte a dimensão verbal. Mas a esta dimensão verbal não tem de corresponder, no interior de uma canção, um movimento de descodificação do sentido do texto: a experiência da canção enquanto palavra funciona mesmo na completa impossibilidade de reconhecer o idioma em que se produz. Este é o plano em que experiência do texto poético deve ser colocado: tal como no interior de uma canção a palavra funciona como um suplemento de uma experiência que é sobretudo da ordem do som enquanto ritmo ou melodia, também a palavra (não enquanto símbolo, mas enquanto elemento material de um texto) tem nos seus referentes um suplemento de experiência cuja convocação nem sempre é determinante.
Implicará isto um fechamento da experiência do texto sobre si mesma, um fechamento da palavra sobre si mesma? Sim e não.
Sim, porque estes são os limites de todas as formas de representação: a representação não fornece instrumentos de apreensão e domínio do real, mas modos de produção de experiência que têm no real o seu inapropriável referente.
Não, porque, se o mundo só se dá como representação, esta também só existe diante da evidência da sua incapacidade para dizer alguma coisa que lhe é radicalmente exterior. A escrita vive dessa incapacidade. Exige alguma coisa que lhe está vedado à partida. Na poesia como em toda a literatura, os textos mais conseguidos são precisamente aqueles que reflectem interiormente os limites do próprio discurso que diz o mundo, aqueles em que “ler” é ter a percepção de um “buraco” interior ao próprio texto. Aqueles que produzem a consciência de que um poema é, precisamente, um encadeado de palavras.









[i] Herberto Helder, “Antropofagias”, in Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1990; 327, 328.
[ii] “Antropofagias”,327.