Há sempre alguma coisa de penoso no palhaço triste que, sem graça, tenta rir de si mesmo. A escrita patológica de Adília Lopes1 coloca-se frequentemente na posição de quem tenta inventar motivos para se desculpabilizar, identificar os seus limites para, sublinhando-os, definir uma identidade. Apesar da aparência de ruptura que os seus textos apresentam (ruptura com uma imagem de poesia e de mulher), este é um projecto que ameaça esgotar-se na sua enunciação; melhor, ameaça esgotar-se na definição da autora enquanto personagem. Quando um projecto artístico vive da desconstrução de uma convenção, ele instala-se, por isso, num plano estranhamente convencional: vivendo da ou contra a convenção, perde parte importante do seu significado simbólico e artístico com o enfraquecimento da própria convenção. Definindo-se contra uma suposta convenção romântica de escrita e de feminino, o projecto poético de Adília Lopes fica paradoxalmente preso à manutenção desta convenção. Ora, talvez já não exista nem a noção de mulher, nem a ideia de poesia que subjazem como negativo a estes textos. Acresce a isto que a frequente focalização da escrita na figura da própria autora é em si mesma uma marca indelével da convenção romântica que supostamente pretende recusar.
Não questionamos a especificidade da escrita; as marcas de autoria estão presentes em cada texto: linguagem coloquial, enunciação do óbvio e do lugar-comum (que só uma postura ingénua pode pretender que produz a sua denúncia), o trocadilho fácil e grosseiro, a auto complacência que se esconde por detrás da pretensa ironia, o imaginário sexualizado, o obsessivo reenvio à personagem do sujeito de enunciação. Veja-se, quase ao acaso:
«A Selva
1
Adília
chora
como
uma Madalena
2
Adília
lê
treslê
a Bíblia
3
Adília
a idiota
da família
afoga-se
em chá de tília
(…)» 2
Este é um movimento recorrente na escrita de Adília Lopes: em vez dos textos, instala-se a personagem, num repetido trabalho de auto-enunciação. Sendo esta auto-enunciação comum a muita literatura, aquilo que diferencia a poesia de Adília Lopes é assunção do burlesco como máscara identitária: burlesca, ridícula, grotesca, a imagem de sujeito que daqui emerge nunca é verdadeiramente jocosa, mas antes patológica, envolta numa postura de auto-comiseração que lhe restringe o alcance.
Pouca poesia portuguesa é tão sexual quanto a de Adília Lopes. E, no entanto, não há nela nada ou quase nada de sensual ou de erótico. Não sendo lugar de manifestação do corpo enquanto corpo, a sexualidade surge antes como uma tentativa de fuga à pobreza de um corpo entendido como prisão (veja-se, por exemplo, o texto Body Art 3 ). Não há aqui, mesmo quando parece, nenhuma celebração da sexualidade. Se o corpo se faz obstáculo, só nele e no sexo se poderia encontrar uma saída, mas essa está vedada pelo próprio corpo: não há escapatória, nem mesmo enunciar os seus limites enquanto escrita.
Os textos mais conseguidos desta extensa recolha são aqueles (como o conjunto A Continuação do fim do mundo 4 ) em que a autora consegue olhar para fora de si, sair do seu personagem para produzir experiências capazes de serem significantes mesmo na sua ausência como sujeito da enunciação. Quando o faz, o resultado é frequentemente de excepção. Ao contrário, na maior parte dos textos e num repetido processo de remissão ao mesmo, a suposição da personagem acaba por produzir um empobrecimento da escrita e do imaginário.
Eventualmente o melhor poema deste livro, e também um dos primeiros, o texto A Elisabeth foi-se embora mostra-se capaz de, num raro registo, conciliar a inventividade de alguns dos seus melhores textos e uma postura construtiva, alheia à complacência pseudo-irónica que caracteriza grande parte da escrita subsequente da autora.
« A Elisabeth foi-se embora
(com algumas coisas de Anne Sexton)
Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida» 5
Note-se a força de um imaginário ao mesmo tempo cru e lírico, a afirmação paradoxal de uma vida que se define na recusa da sua própria identidade (“eu não quero voltar à minha vida”); note-se a inscrição de um vocabulário do quotidiano num registo de escrita que não cede diante do próprio quotidiano; note-se, por fim, a força rítmica do texto (a repetição do eu, do Elisabeth, o assumir da aliteração: “eu não posso passar sem a Elisabeth”, etc.). Mas este não é um texto da personagem Adília Lopes. É-lhe anterior e em larga medida exterior. E é talvez uma amostra daquilo que a poesia da autora poderia ter sido se alheia ao lento processo de redução da escrita à sua própria personagem.
Não questionamos a especificidade da escrita; as marcas de autoria estão presentes em cada texto: linguagem coloquial, enunciação do óbvio e do lugar-comum (que só uma postura ingénua pode pretender que produz a sua denúncia), o trocadilho fácil e grosseiro, a auto complacência que se esconde por detrás da pretensa ironia, o imaginário sexualizado, o obsessivo reenvio à personagem do sujeito de enunciação. Veja-se, quase ao acaso:
«A Selva
1
Adília
chora
como
uma Madalena
2
Adília
lê
treslê
a Bíblia
3
Adília
a idiota
da família
afoga-se
em chá de tília
(…)» 2
Este é um movimento recorrente na escrita de Adília Lopes: em vez dos textos, instala-se a personagem, num repetido trabalho de auto-enunciação. Sendo esta auto-enunciação comum a muita literatura, aquilo que diferencia a poesia de Adília Lopes é assunção do burlesco como máscara identitária: burlesca, ridícula, grotesca, a imagem de sujeito que daqui emerge nunca é verdadeiramente jocosa, mas antes patológica, envolta numa postura de auto-comiseração que lhe restringe o alcance.
Pouca poesia portuguesa é tão sexual quanto a de Adília Lopes. E, no entanto, não há nela nada ou quase nada de sensual ou de erótico. Não sendo lugar de manifestação do corpo enquanto corpo, a sexualidade surge antes como uma tentativa de fuga à pobreza de um corpo entendido como prisão (veja-se, por exemplo, o texto Body Art 3 ). Não há aqui, mesmo quando parece, nenhuma celebração da sexualidade. Se o corpo se faz obstáculo, só nele e no sexo se poderia encontrar uma saída, mas essa está vedada pelo próprio corpo: não há escapatória, nem mesmo enunciar os seus limites enquanto escrita.
Os textos mais conseguidos desta extensa recolha são aqueles (como o conjunto A Continuação do fim do mundo 4 ) em que a autora consegue olhar para fora de si, sair do seu personagem para produzir experiências capazes de serem significantes mesmo na sua ausência como sujeito da enunciação. Quando o faz, o resultado é frequentemente de excepção. Ao contrário, na maior parte dos textos e num repetido processo de remissão ao mesmo, a suposição da personagem acaba por produzir um empobrecimento da escrita e do imaginário.
Eventualmente o melhor poema deste livro, e também um dos primeiros, o texto A Elisabeth foi-se embora mostra-se capaz de, num raro registo, conciliar a inventividade de alguns dos seus melhores textos e uma postura construtiva, alheia à complacência pseudo-irónica que caracteriza grande parte da escrita subsequente da autora.
« A Elisabeth foi-se embora
(com algumas coisas de Anne Sexton)
Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida» 5
Note-se a força de um imaginário ao mesmo tempo cru e lírico, a afirmação paradoxal de uma vida que se define na recusa da sua própria identidade (“eu não quero voltar à minha vida”); note-se a inscrição de um vocabulário do quotidiano num registo de escrita que não cede diante do próprio quotidiano; note-se, por fim, a força rítmica do texto (a repetição do eu, do Elisabeth, o assumir da aliteração: “eu não posso passar sem a Elisabeth”, etc.). Mas este não é um texto da personagem Adília Lopes. É-lhe anterior e em larga medida exterior. E é talvez uma amostra daquilo que a poesia da autora poderia ter sido se alheia ao lento processo de redução da escrita à sua própria personagem.
1.Adília Lopes, Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007, Assírio e Alvim, 2009 (680 páginas).
2.Idem, 638.
3.Idem, 340.
4.Idem, 211-277.
5.Idem, 120.
