quinta-feira, 22 de outubro de 2009

José Tolentino Mendonça, O Viajante Sem Sono



Dizer a graça, dizer a beleza ou dizer a dor, não é, ao nível da literatura, apontá-las com o dedo, é produzi-las enquanto palavras. É pobre ou ingénua a pretensão de que a estrita enunciação do nome ou do sentimento pode convocar para os textos as experiências que lhes estão associadas.
Tem-se prolongado na literatura recente a ligação da ideia de pureza à noção de poesia. Esta seria lugar de uma experiência mais profunda, segundo a visão romântica de uma metafísica dessacralizada, ou de uma banalidade ressacralizada. Tudo isto em nome de alguma coisa que na poesia radicaria na ideia de arte, ambas com letras maiúsculas. É duvidoso que quer a poesia quer a arte possam colocar-se neste plano. É um equívoco pretender que as palavras possam ser capazes de constituir termos de mediação de uma relação proto-mística ou proto-religiosa (mesmo que apenas face a uma religião que se chamaria arte), só porque subordinadas ao conjunto de convenções que num dado contexto cultural cobrem o campo do que designamos por poesia.
É a esta luz que pode ser pensada a proliferação do substantivo poema no interior da poesia portuguesa recente. Este é talvez (juntamente com o substantivo corpo) o termo mais recorrente e mais transversalmente presente em autores de distintas ou antagónicas opções estilísticas. Vejamos o texto, manifestamente mau, que encerra o livro O Viajante Sem Sono
[i], de José Tolentino Mendonça:
«Poema

O mundo do poema é um mundo mineral:
com o jaspe e o nácar, o coral e o osso
os poemas criam por séculos e séculos formas incomparáveis

As suas partículas habitam a podridão indistinta
que sobra ao camponês do trabalho dos campos
e aos limpadores da floresta

São transparentes e negríssimos nos seus contrastes
pois convivem longamente como gelo
e atravessam como larvas
infindas galerias

Nessa paciência quase animal
a luz revela-se não em prismas
mas numa vastidão única
onde o olhar se perde
»
[ii]

Para além do tom solene de ressonâncias bíblicas que atravessa a generalidade dos textos deste livro, este poema é revelador de uma complacência perante a linguagem que torna o que é dito inferior àquilo que é pretensamente enunciado. A tentativa acumular imagens de âmbito superlativo (tanto do que se pretende luminoso como no que relevaria do humilde) não consegue mais do que tornar-nos conscientes dos limites deste discurso para produzir a experiência que parece propor-se.
Acumula-se neste livro o vocabulário de cariz superlativo que, querendo dizer aquilo que não cabe na linguagem, se mostra incapaz sequer de o aludir; veja-se por exemplo, e não sendo exaustivos: inumerável, intransponível, infinito, indiscernível, inimaginável, incomparável. O carácter negativo deste vocabulário não pretende, de facto, produzir o limite que enuncia, mas indicar a possibilidade da sua superação. É aqui que os textos falham: indicar a luz ou a escuridão enquanto experiência literária não é enunciá-las como se o seu referente pudesse caber nas palavras, é produzi-las enquanto experiência nas e apesar das palavras. Isto exige um trabalho sobre a linguagem que não existe nestes textos.
Correlativa à complacência com a linguagem, surge também a pretensão de fazer da poesia lugar de revelação. Conceitos como beleza, verdade, sublime, entre outros, surgem neste textos querendo definir ao mesmo tempo o critério de reconhecimento do seu referente (o belo, o verdadeiro, o sublime, etc.) e o âmbito da experiência proposta nos próprios textos. Num caso como no outro, a tentativa é falhada: tal como a estrita enunciação do limite não é suficiente para o ultrapassar, também a estrita enunciação do ilimitado só superficialmente nos remete para ele.
À margem deste programa, surgem neste livro alguns títulos que, precisamente porque corporizam os limites da língua e da literatura, se mostram capazes de nos dar com mais profundidade a experiência subjectiva do mundo ou e da vida. Mesmo na sobrecarga de um uso “poético” (de facto, tão ou tão pouco poético quanto qualquer outra forma de produzir poesia) da língua, textos como Trieste, I Know Where the Summer Goes, ou O corredor na penumbra, mostram que é possível fazer melhor. Que é necessário fazer melhor.



[i] José Tolentino Mendonça, O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim, 2009 (56 páginas).
[ii] Idem, 50, 51.