segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Manuel de Freitas, INTERMEZZI, OP. 25




Apesar do uso normalmente elementar da língua, os poetas populares conservam uma noção de poesia como lugar de inscrição narrativa do acontecimento que a generalidade da poesia já perdeu ou tende a esquecer. A poesia “culta” (e há nesta formulação um paradoxo incontornável, dado que nela cabem todos os desvios, mesmo o uso mais conscientemente degradado das palavras) tende a assumir uma auto-reflexividade que faz de si mesma o seu objecto. Naquilo que corresponde a um uso mais exigente e complexo da língua (mesmo quando voluntariamente mais elementar), a poesia enquanto literatura tende a subordinar o acontecimento ou o dado objectivo aos estritos propósitos expressivos ou constitutivos do texto. Esquece com isso a sua relação com o mundo. A poesia de Manuel de Freitas pode considerar-se um bom exemplo do modo como é possível, hoje, e sem ceder no rigor da exigência crítica, articular o dizer e o dito, fazer da poesia lugar de inscrição do sujeito e do mundo, ao mesmo tempo que apresenta a linguagem como possibilidade do seu questionamento:
«(…)
O poema mais interessante, porém,
seria aquele que escreve agora
quem me vê escrever nesta janela
um poema sobre Paris que não existe
[i]
A remissão da escrita para o mundo não se faz, neste livro INTERMEZZI, OP. 25[ii], como em outros do autor, à custa do apagamento da própria escrita (numa subordinação a uma hipotética dimensão comunicativa), mas através do assumir do ruído do discurso como condição de enunciação, do assumir a sujidade da escrita como condição da literatura. Esta sujidade não traduz apenas a remissão para um imaginário exterior à prática poética mais convencional, mas, sobretudo, o reconhecimento da pobreza das palavras como parte integrante do discurso:

«CAFÉ SCHILLER

Foi tudo em vão, novamente.
Estava a muitos quilómetros de Amesterdão,
se é que me percebes, embora gostasse
das riscas negras dos sofás, do metal
antigo dos candeeiros, do andar
tão firme de quem servia as bebidas.

Esta mulher vai entrar hoje
no meu passado. Não sei como se chama,
nem me interessa sabê-lo. Sorriu-me,
ou julguei que me sorriu, enquanto eu pagava
dois descafeinados, uma água com gás
e um Jameson que sabia mal, a desamor.
Vou pedir-lhe de troco o esquecimento,
a curta memória da blusa que lhe comprimia
o peito e dava às costas
um jeito irrepetível de prelúdio.

Eu, que vou morrer, desejei-te.
»
[iii]

Não estamos, neste texto, apenas perante a identificação do objecto de desejo (fortíssima a formulação «a curta memória da blusa que lhe comprimia / o peito»), mas sobretudo diante da enumeração da pobreza daquilo que pode constituir termo de mediação entre o olhar e o próprio desejo: «dois descafeinados, uma água com gás / e um Jameson que sabia mal» . A ideia da morte associada à de desejo é uma temática central nos textos de Manuel de Freitas que nos absteremos aqui de analisar: ela é, de algum modo, precisamente aquilo que não cabe na análise, aquilo em que o uso literário da língua claramente ultrapassa o seu uso crítico.
O trabalho da escrita é sempre um trabalho sobre a linguagem, dentro dela, apesar dela ou contra ela. Não é, pois, legítimo invocar a pretensa subordinação da escrita a um qualquer conteúdo, do qual ela se fizesse instrumento de inscrição: a redução da escrita enquanto literatura à imediata dimensão instrumental (admitindo como válida a poesia que se coloque enquanto estrito meio de transmissão de uma mensagem) significaria recusar aquilo que nela é constituinte: o ruído que se instala na comunicação, a sombra que produz na mesma proporção da luz. Para que as palavras articuladas como literatura sejam capazes de produzir enquanto experiência potencial mais do que a estrita soma dos seus correlatos imediatos, é exigível à escrita a dimensão de auto-reflexividade capaz de questionar no mesmo movimento o autor, as palavras e aquilo que com elas se pretende dizer. Esta dimensão reflexiva é constituinte: consciente ou não conscientemente, implícita ou explicitamente, é ela que permite que a literatura se aproxime do uso potencialmente mais rico da língua a que chamamos literatura. E nesta auto-reflexividade cabem tanto os desvios como as subordinações à norma: uns e outras correspondem à apropriação pessoal (do autor e dos leitores) daquilo que é proposto como experiência da língua e do mundo. Surpreende, por isso, que um autor com a consciência crítica de Manuel de Freitas admita versos como estes :

« Desta vez foi o teu corpo
— não o sabias tão sensato —
quem fez tudo para impedir o poema,
versos a doer nos músculos.
(
…)»
[iv]
Pensar a poesia enquanto o mundo não é reduzi-lo aos seus próprios termos, é alargar os termos da escrita. A poesia de Manuel de Freitas resulta melhor no assumir da crueza do mundo do que quando se pretende lírica. Na tradução do quotidiano ou da experiência mais imediata do mundo a escrita expõe-se, arriscando reinventar-se e potenciando aquilo que é dito. Diversamente, ao nível da experiência íntima (aquilo que de um modo abrangente poderíamos designar como lírico), deparamo-nos por vezes com um afrouxamento da inventividade e o recurso à segurança de um vocabulário e de uma postura convencionalmente líricos:

«Ouve, pelo começo de Setembro,
o clamor e a melancolia
deste mar atravessando a tua vida,
as páginas de um livro por abrir.
(…)»
[v]
É pobre a poesia que se produz para se enunciar como escrita e que não assume que é, como todas as artes, ao mesmo tempo termo de mediação para o mundo e lugar de produção do próprio mundo. É grande, como em alguns dos textos deste livro, quando se assume como parte do movimento de dizer o mundo, de produzir o mundo.



[i] HOTEL LONDON, QUARTO 502, INTERMEZZI, OP. 25, 42.
[ii] Manuel de Freitas, INTERMEZZI, OP. 25, Opera Omnia, 2009.
[iii] idem, 30.
[iv]RUE DU MARCHÉ AUX HERBES, idem, 27.
[v] SEPTEMBER SONG, idem, 11.