sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Tiago Araújo, LIVRE ARBÍTRIO



No interior do texto literário, é ambígua a relação que se estabelece entre a representação e o mundo. Por um lado, a escrita está constitutivamente desfasada do seu referente: a palavra nunca diz a coisa, nunca refaz o que aconteceu, nunca faz ter acontecido aquilo que o real vedou. Por outro, a palavra diz precisamente aquilo que pretende dizer: no texto, a coisa, o acontecido ou o a acontecer têm o tamanho exacto do discurso em que se produzem como palavra e como escrita. A literatura é sempre tanto mais rica e intensa quanto este paradoxo se aprofunda.
O livro LIVRE ARBÍTRIO
[i], de Tiago Araújo, surge-nos como experiência de corporização deste paradoxo: aquilo que se mostra enquanto palavra vive da impossibilidade de aí caber. Estamos diante de um trabalho notável. Rigoroso, focado, com uma ambição que não se esconde por detrás da aparente simplicidade das construções verbais.
Dividido em duas partes, o livro assume na primeira a forma de verso, e, na segunda, a de mancha de texto justificado. Nas aproximadamente quarenta páginas desta obra, encontramos textos de uma estrutura gráfica despojada, com uma escrita toda em minúsculas. Sem pretender sobrevalorizar esta opção, é de notar que ela é inteiramente consistente com o registo de linguagem que aqui predomina: cada palavra é devolvida ao seu próprio tamanho. Não há a pretensão da existência de palavras semanticamente, ontológica ou graficamente sobrederminadas. Esta devolução das palavras a si mesmas, do discurso da consciência ao registo possível da própria consciência, garante à escrita uma pouco usual nitidez: cada palavra tem o tamanho que tem, e o mundo cabe aí, pelo menos tanto quanto o mundo pode caber numa palavra.
A nitidez dos textos produz uma profundidade de escrita que a pretensa complexidade do imagismo poético de outros autores nem sequer aflora:

o lugar do morto

ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso
.
[ii]

Lugares perigosos, o silêncio e as palavras. Conduzir ou ser conduzido, dizer ou ser dito (não dizer, não ser dito), assumem aqui ambivalência própria de um discurso que se constrói no limite da auto-enunciação desses mesmos limites. O discreto jogo de aliterações (“o vento levanta // o pó do parque “, etc.) introduz aqui a marca de um ritmo de escrita que conduz o texto desde a primeira linha: o ritmo, colado ao texto, mas desconstruindo em parte a linearidade semântica do enunciado, permite que a disposição das palavras no interior dos versos actue simultaneamente como intensificador e como ruído que questiona o próprio discurso.
Encontramos nestes textos, com alguma frequência e enquanto estratégia de escrita, a assunção do nós como voz da enunciação. Este nós é simultaneamente sujeito do acontecimento evocado e implícito destinatário do texto. Mas, ao colocar a primeira pessoa do plural como sujeito de enunciação, aquilo que se produz é um alargamento do próprio sujeito: no “nós” inscreve-se a identidade do leitor, transformado em participante e confidente de uma narrativa que, verdadeiramente, não é a sua.
Eventualmente próximo de alguma poesia espanhola contemporânea, o texto conduz-nos por vezes a formulações que estão à beira do limite da banalidade poética; mas este é o limite do pathos que o autor manifesta saber controlar. O saber ser patético é suportado pela objectividade do contexto discursivo: por exemplo, a formulação “ a tarde // a morrer-nos nos braços.
[iii] sustenta-se no interior de um texto cuja crueza quase desmente a sugestão de lirismo com que finaliza. Aqui ou além surge, no entanto, algum vocabulário mais supostamente poético que, sem comprometer o resultado do todo, constitui uma perturbação na nitidez discursiva. Seria de evitar o recurso a formulações como, por exemplo, “pelos antípodas da noite[iv], ou “a face minguante do corpo[v]. São os padrões de exigência definidos pela restante escrita que tornam questionáveis estas opções.
Uma prova de como estamos diante de uma identidade de escrita forte e autónoma é o modo como um texto como o número 14. (saturnismo, intoxicação por chumbo)
[vi], se revela aqui deslocado: mesmo que voluntariamente, e apesar da exigência da escrita, surgem neste texto, no vocabulário e no imaginário, demasiados ecos de Herberto Helder. A voz que este livro define é outra coisa: a da nitidez, a da recusa de uma noção de poesia como objecto hermenêutico e hermético. Por isso mesmo, na proporção directa da sua nitidez, estamos diante de um trabalho ambicioso: é porque acredita nas palavras (pelo menos tanto quanto é possível acreditar nas palavras, ou seja, com todas as dúvidas) que nestes textos se afirma uma voz.


[i] Tiago Araújo, LIVRE ARBÍTRIO, Averno, 2009.
[ii] o lugar do morto, 15.
[iii] SJ-05, 11.
[iv] tempo comum, 10.
[v] 12., 30.
[vi] 14. (saturnismo, intoxicação por chumbo), 32.