sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Federico García Lorca, "Romance do Intimado"





Pedra seca é a designação dada à técnica de construção que consiste em sobrepor as pedras sem que seja usado qualquer ligante. A ausência de argamassa exige dos construtores uma particular atenção à articulação entre as pedras que se sobrepõem, dado que a solidez da construção depende directamente da relação estabelecida entre cada um dos elementos. O resultado final, tanto ao nível da solidez construtiva como ao nível formal, é frequentemente excepcional.
É esta secura da articulação entre as palavras que podemos reconhecer no interior do texto poético. O ritmo ou a musicalidade das frases (ou seja, a experiência das palavras enquanto som) depende da articulação entre cada um dos elementos linguísticos: a congruência ou incongruência rítmica de um texto joga-se quase exclusivamente no estrito plano do encadeamento material e sonoro. Se a dimensão sentido é aquela que está mais próxima de poder ser pensada com material ligante, a subordinação da produção e da recepção a uma exigência de congruência semântica é também aquilo que, muitas vezes, se faz obstáculo à apreensão dos textos como estruturas sonoras.
A constituinte secura do texto poético torna-se evidente quando nos confrontamos com uma versão musicada e cantada dessas mesmas palavras. Um bom exemplo pode ser dado pelo texto de Federico García Lorca, "Romance del Emplazado", incluído no livro Romancero Gitano, de 1928. Veja-se um excerto, na versão de Eugénio de Andrade:



«(…)
A vinte e cinco de Junho
vêm prevenir Amargo.
Já podes cortar, se queres,
as adelfas do teu pátio.
Pinta na porta uma cruz,
põe o teu nome por baixo,
porque urtigas e cicuta
nascerão nos teus costados,
e agulhas de cal molhada
hão-de morder-te os sapatos.
(…)» 1



Leiamos agora o original castelhano:


« (…)
El veinticinco de junio
le dijeron a el Amargo:
Ya puedes cortar si gustas
las adelfas de tu patio.
Pinta una cruz en la puerta
y pon tu nombre debajo,
porque cicutas y ortigas
nacerán en tu costado,
y agujas de cal mojada
te morderán los zapatos.
(…) » 2



Uma abordagem possível seria focar a atenção nas alterações de percepção do texto no movimento de transposição do português para o castelhano, ou o inverso: uma vez que a proximidade da língua de partida e de chegada permite uma grande afinidade nas estruturas semânticas do texto, aquilo que de um modo mais relevante varia é a experiência da língua enquanto som. De facto, não é a mesma experiência em cada uma das leituras, e nisto não age apenas o confronto entre uma leitura na língua materna e outra numa língua que, mesmo com um hipotético bom domínio, é uma língua estrangeira. Trata-se, mais do que isso, de uma alteração na percepção sensorial do texto.
Não é nossa questão voltar ao topos da intraduzibilidade da poesia. A questão aqui tem estritamente a ver com a experiência do texto poético enquanto som. Mas a nossa questão é ainda menos ambiciosa: trata-se apenas de chamar a atenção para o confronto da experiência de leitura de qualquer uma das versões com aquela que nos é proporcionada pela interpretação modelar de Camarón de la Isla na canção Romance del Amargo, incluída no disco La Leyenda del Tiempo, de 1979.
É recorrente a apropriação de textos de Lorca pelo Flamenco, dado que partilham de um modo íntimo um mesmo universo cultural. Dificilmente alguma dessas apropriações supera as de Camarón. No caso da canção Romance del Amargo não estamos sequer diante de um dos seus momentos mais conseguidos, mas o resultado é, mesmo assim, excepcional. Depois de ouvir a interpretação de Camarón, é virtualmente impossível ler o texto de Lorca (sobretudo no original castelhano) sem sentir nas palavras a substância ligante constituída pelo eco da voz de Camarón e da música de Ricardo Pachón.
Depois da voz de Camarón, a ausência da voz no texto de Lorca resulta numa leitura estranhamente seca. As palavras sucedem-se umas às outras, privadas de suporte exterior, devolvidas a si mesmas, com a pobreza própria de uma construção sem argamassa. E é nesta secura e nesta pobreza que se inscreve a riqueza do uso literário da língua: na secura do som onde se produz uma paradoxal riqueza potencial. Pedra seca, precisamente.






1. Federico García Lorca, «Romance do Intimado», in Eugénio de Andrade, Poemas de García Lorca, Limiar Editora, 1979, 56-58.
2. Federico García Lorca, «Romance del Emplazado», in Antologia Poética, Selecção e tradução de José Bento, Relógio d’Água1993, 108-111.


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