segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ricardo Adolfo, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas




A literatura não é um espelho da realidade, é um processo de construção do real. Tal como o são, aliás, todas as formas de arte e todas as ciências. Uns e outros são instrumentos repesentacionais de constituição da experiência, de construção do mundo como coisa humana. A modernidade na arte construiu-se em larga medida pela rejeição do imperativo mimético de raiz clássica e renascentista. Paradoxalmente, a tentativa de aproximar a experiência linguística daquela que é, de um modo mais imediato, a linguagem de experiência quotidiana do próprio mundo resulta, no âmbito da arte (e isto é visível, por exemplo,ao nível da Pop Arte), no aumento da distância simbólica entre a arte o mundo. A pretensão fazer da literatura lugar de tradução literal de uma experiência pode funcionar como projecto artístico, sem que só por si isso garanta uma efectiva proximidade entre o ponto de partida e o ponto de chegada. De facto, o mundo e a literatura (ou outra linguagem que o pretenda dizer), o ponto de partida e o ponto de chegada, nunca coincidem, e este desfasamento é condição da própria literatura.

O ponto de partida do livro Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas 1, de Ricardo Adolfo, é estimulante: uma família de emigrantes recentes vê-se num domingo à noite perdida pelas ruas da grande cidade que habitam, em busca do caminho de regresso a casa, arrastando consigo um filho e uma enorme mala vazia. O completo (para além do verosímil) não domínio da língua, assim como a estranheza diante das convenções culturais, condu-los a uma noite de deriva e de confronto com os outros e com eles mesmos. No entanto, aquilo que poderia desenvolver-se como uma experiência da perda e da desorientação acaba por se revelar uma experiência da idiotia: não estamos diante de emigrantes que agem e pensam como tal, mas (fruto da sua construção forçada até ao caricatural) diante de personagens que olham o mundo a partir de uma inultrapassável estupidez.
Se o recurso à frase feita pode pretender constituir a transcrição literal de uma experiência de mundo (e, de facto, vivemos sempre o mundo a partir das linguagens com as quais o construímos), o resultado é aqui o de uma colagem à própria frase feita: o assumir a narrativa como perspectivada a partir do nível de linguagem do protagonista cola a escrita aos constrangimentos e às limitações do seu discurso verosímil. Como sabemos, a linguagem da banalidade não é necessariamente aquela que melhor produz como artisticamente relevante a própria banalidade.

É a tentativa de humor que acaba por comprometer o texto: a opção pelo registo caricatural transforma todas as situações num pretexto para tentar ter graça. E se é legítimo o riso diante da desgraça própria ou alheia, torna-se questionável quando o texto não é capaz de produzir essa mesma desgraça. Não estamos, sequer, diante da transposição naturalista de um fio de consciência verosímil que se defina pelo confronto com o inapropriável, mas da sua estrita formulação caricatural:
«Disse à Carla que devíamos ir ao gabinete de perdidos e achados e darmo-nos como perdidos. Ela achou que dificilmente alguém apareceria para nos reclamar e resolveu voltar ao guiché para insistir numa explicação, mas pela cara que trazia de volta via-se que não fora boa ideia. Na ajuda os ilhéus falhavam muito. Não percebiam nada do que uma pessoa lhes dizia e quando respondiam faziam-no de forma muito própria. De propósito ou não, deixavam-nos sempre com a garrafa na mão, que tanto podia ser água sem gás ou aguardente. Mais do que uma vez cheguei a comprar manteiga que era queijo e sal de mesa que só dava para a máquina de lavar loiça que não tínhamos.» 2
A superficialidade da abordagem conduz a escrita a tentar produzir humor onde só se detecta o absurdo do desprezo pela diferença e a mais forçada xenofobia :
«Os trolhas doutores eram cada vez mais requisitados e, para ajudar à festa, ainda mandavam vir as mulheres, os filhos e os primos. Juntos e muitos, conseguiam mais trabalho, mais dinheiro e sobrelotavam as escolas com criancinhas louras de sorrisos perfeitos. As criancinhas, como eram descendentes de trolhas tão espertos, conseguiam sem grande esforço as melhores notas e humilhavam de uma penada os filhos da terra. (…)
Se cada um tivesse ficado no seu lugar, em vez de ir roubar para o quintal do vizinho, não haveria problemas, nem ninguém teria necessidade de se desgraçar só para garantir aquilo que era seu.»
3
Não há aqui nem a formulação da posse, nem da perda, nem de uma identidade, nem de uma diferença: quando tudo é indiferenciadamente risível, é a própria possibilidade do riso que está comprometida por falta de termo exterior.
Atravessa a leitura a sensação deste ser um objecto onde nada é verdadeiramente novo. Ao nível da linguagem, a construção do texto a partir de lugares-comuns e das frases feitas parece apelar constantemente ao reconhecimento do leitor, ou seja, dar-lhe aquilo que ele mais facilmente pode absorver: o que ele já sabe. Ao nível do imaginário, o livro reproduz um conjunto de situações de ruptura de índole literária e cinematográfica (por exemplo, a mala que é arrastada ao longo da noite, ao mesmo tempo como penhor de uma identidade e constrangimento físico e simbólico, surge num registo estranhamente próximo no livro Cartas de Veneza de Robert Dessaix.) que se torna num obstáculo ao desenvolvimento do próprio texto.
Este é um livro que poderia ser incómodo e questionante (enquanto lugar de confronto entre um mundo e outro, ilegível à luz das categorias do primeiro), mas que assim se apresenta apenas como desagradável, diante da idiotia de quem tenta fazer de si mesmo objecto de riso. Está talvez, por isso, condenado ao sucesso. É pena esta opção, porque o livro tem méritos: um ritmo forte, um domínio da escrita, uma boa construção, inclusive na opção por uma narrativa tendencialmente linear. Faltou que o autor tivesse a coragem de se levar um pouco mais a sério.
Na contracapa do livro, Valter Hugo Mãe diz-nos que “a nova literatura portuguesa passa obrigatoriamente por aqui”. A ser assim, esperemos que passe para ir para outro lugar.




1. Ricardo Adolfo, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas, Alfaguara, Editora Objectiva, 2009.
2. Idem, 33.
3. Idem, 112-113.