quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vítor Nogueira, Mar Largo



Escrevemos sempre com a língua dos outros. Usamos as palavras que já atravessaram outros lábios do mesmo modo que, num compartimento fechado, acabamos por respirar o ar já expelido por outros pulmões. A inventividade da escrita enquanto literatura está em inscrever no espaço partilhado um uso diferenciado, pelo que diz ou pelo modo como diz. Da mesma maneira, inscrevemo-nos sempre no espaço dos outros. O espaço que a cada momento ocupamos foi ocupado por outros no momento anterior e será, após nós, outra vez ocupado. Inscrevemo-nos na língua e atravessamos espaços construídos por outros e através dos outros. Atravessamo-los no nosso movimento.
É possível pensar que o livro Mar Largo 1, o mais recente de Vítor Nogueira, nos fala a partir deste espaço simbólico e físico que é ao mesmo tempo o da língua e o da cidade, o espaço que é o nosso e onde não somos senão ocupantes provisórios. Mar Largo é, como os livros anteriores do autor, um livro temático. No caso, partindo do Rossio como espaço central da cidade, o livro coloca-nos no interior da sua percepção enquanto experiência por diferentes olhares, diferentes vidas e diferentes línguas. Sem ser exaustivo, coloca-nos diante da questão de saber quantos mundos cabem numa mesma praça, numa mesma cidade. Cabem muitos, diversos no tempo, na subjectividade, e no uso da língua:
«SINTAXE
Anda a gente um dia inteiro atrás de um verso.
Os delírios soltos, claro, não adiantam
grande coisa. É como curar maleitas
com fumos e cataplasmas. Enfim,
deve ser o nosso táxi. Na rádio (bossa nova,
cha cha cha, easy listening) o futebolista
fala a língua de todos os homens:
“sempre foi um treinador que no qual
adorei jogar ao lado dele”. Seja como for,
nunca o venceremos com palavras.
No campo, escusado dizer, pior ainda2


A postura distanciada e quase neutra do autor potencia uma invulgar força expressiva. E é neste distanciamento e quase objectividade da linguagem que se instala o humor subtil do absurdo e do inesperado. É igualmente nesta aparente neutralidade da língua que a própria língua se faz instrumento de constituição do mundo: este tem o tamanho do modo como é construído, do modo como é dito; existe enquanto é produzido como imagem ou como língua:
«(…)
Olha bem o teu reflexo. É o último recurso
De quem não tem outra escolha.
Isto são só pensamentos. Ninguém ouve
O que não dizes.» 3
Note-se que a concisão vocabular e o rigor na escrita não constitui aqui o obstáculo criativo que com frequência faz desembocar alguma poesia numa espécie de silêncio interior: primeiro rarefazem-se as palavras e depois o mundo. Não é o caso, estamos diante de um trabalho sobre a linguagem que se abre sobre a experiência do mundo, alargando a sua percepção. Transportar o real para as palavras é, ao mesmo tempo, dizê-lo e construí-lo, produzir duplicados representacionais e construir nesse movimento o próprio espaço do humano, preencher repetidamente um mesmo vazio:
«VAZIOS


O servente é quem começa: alisa o chão e faz a caixa.
A partir do centro, o calceteiro ajusta o molde, fixa
nos extremos um cordel. Enche os vazios,
retira o molde. Assenta pedra a contrastar.
O batedor de maço acaba a obra.


E depois o servente alisa o chão e faz a caixa.
A partir do centro, o calceteiro ajusta o molde, fixa
nos extremos um cordel. Enche os vazios,
retira o molde. Assenta pedra a contrastar.
O batedor de maço acaba a obra.


E depois o servente alisa o chão e faz a caixa.» 4


Produzir o mundo, como produzir a escrita, é, pois, um trabalho de repetição. É um trabalho de reconhecimento de uma diferença que se inscreve no vazio produzido pelo movimento anterior. Isto significa assumir as heranças como um lugar de afirmação da singularidade. Repare-se que a poesia do autor não parece forçar rupturas, antes apropriar-se do espaço partilhado da modernidade para nele operar um lento mas consistente processo de diferenciação. Em parte por isso, a metáfora que dá título ao livro, e que ressurge em vários dos seus textos, surge deslocada no contexto de um uso modernista da língua. A não ser que, e esta é outra possibilidade de leitura, a experiência da deslocação seja precisamente aquilo que justifica o registo metafórico. O reconhecimento de que a partilha do espaço implica a partilha das dívidas, a assunção dos limites que lhe definem a identidade.
Estamos diante de mais um bom livro de um muito bom autor. Talvez não seja ainda a afirmação definitiva que se aguardava.





1. Vítor Nogueira, Mar Largo, & etc, 2009.
2. Idem, 47.
3. Reflexo, idem, 24.
4. Idem, 14.