segunda-feira, 2 de novembro de 2009

W. G. Sebald, O Caminhante Solitário

Dar a ler, dar a ver, dar a ouvir, dar a saber. Sob a forma de texto, a recepção crítica corresponde ao paradoxo da distância que produz proximidade: a interposição do outro pode constituir não motivo de distanciamento, mas veículo de aproximação. Este dar a ler funciona enquanto duplicação argumentativa da experiência intelectual e sensível subjectiva. O lugar da crítica situa-se, assim, no espaço problemático da racionalização da experiência subjectiva, da transposição para a ordem do argumento daquilo que preferencialmente se define ao nível de uma experiência subjectiva não argumentativa. Dar a ler significa, aqui, dar a pensar. Objectivar os argumentos o suficiente para que eles sejam passíveis de contra-argumentação.
A intensidade da experiência subjectiva não é susceptível de servir de critério de qualidade. Qualquer experiência pode ser subjectivamente apreendida como extremamente intensa, dependendo apenas da percepção subjectiva da sua importância, e do modo como responde aos critérios implícitos em cada relação individual com o mundo ou os artefactos culturais (incluindo aquilo a que chamamos literatura, e mais latamente arte). Neste sentido, a relação da crítica com os textos não se pode colocar no plano da formulação argumentativa da experiência subjectiva do crítico, dado que esta é uma condição de recepção, e não o resultado de uma operação intelectual racionalmente partilhável. Partilham-se argumentos, dificilmente se partilham experiências subjectivas: a literatura é o lugar possível dessa partilha, a crítica que se pretende literatura confunde planos da experiência, produzindo normalmente má crítica e má literatura.

Enquanto princípio de definição da identidade da crítica, o acima enunciado parece garantir, ao mesmo tempo, o rigor da análise e a honestidade intelectual capaz de suportar uma postura judicativa que se fundamenta, precisamente, na possibilidade de contraditório. Dito isto, assumamos a possibilidade destes princípios serem contraditados: os textos de Sebald reunidos no volume O Caminhante Solitário 1 são, em larga medida, a negação do acima enunciado. São textos de crítica, mas definem-se enquanto expressão argumentativa de uma experiência interior, a tradução para o espaço partilhável da argumentação da percepção subjectiva de uma experiência de vida e de mundo que as obras dos autores analisados (Johann Peter Hebel, Jean-Jacques Rousseau, Eduard Mörike, Gottfried Keller, Robert Walser, e o pintor Jan Peter Tripp) ajudaram a construir. Estes são, como todos os textos de Sebald (mesmo quando assumidos como construção ficcional da experiência subjectiva), lugares a partir dos quais olhar o real. A lucidez da escrita de Sebald faz destes textos expressão de uma percepção interior capaz de amplificar a experiência potencial daquilo que nos é apresentado como proposta de mundo. Cada um dos autores analisados surge-nos, sob o olhar de Sebald, como um estado parcelar de um processo de constituição do real como coisa problema. Neste sentido, não estamos diante de textos técnicos, onde a escrita estivesse subordinada a imperativos de funcionalidade ou rigor argumentativo, mas diante de textos intrinsecamente literários, onde a espessura da escrita se faz em si mesma mundo. O paradoxo (e deixemo-lo em aberto) é que o rigor da análise se constrói aqui, precisamente, pela espessura literária da escrita,pela consciência dos limites da própria escrita: «A escrita é claramente uma actividade de que não nos libertamos com facilidade, mesmo quando se nos torna detestável ou impossível. Do ponto de vista do indivíduo que escreve, quase nada há que possa alegar em defesa dela, de tal modo é pouco gratificante.» 2


1. W. G. Sebald, O Caminhante Solitário, trad. Telma Costa, Editorial Teorema, 2009.
2. idem, 6.