domingo, 13 de dezembro de 2009

João Miguel Fernandes Jorge, Mãe-do-Fogo





O que é envelhecer? João Miguel Fernandes Jorge tem hoje mais de sessenta anos, quase setenta. Caberão em quatro décadas de poesia os anos inteiros de uma vida? Talvez só o próprio possa responder. Caberemos nós, leitores? Caberemos nós, gente que na língua, na história e na paisagem partilha um espaço a que chamamos país? Caberemos nós na língua? Caberá a língua no nós com que nos designamos?
Façamos nossas as suas questões, projectemos nas suas as nossas interrogações. João Miguel Fernandes Jorge é talvez o poeta que ao longo das últimas décadas melhor soube interrogar o país enquanto cultura, história e identidade. Fê-lo em textos como “Os portugueses, os de cabelo castanho”, datado já de 72, fá-lo agora no livro Mãe-do-Fogo 1, o seu mais recente.
É um livro curto, com 25 textos, aos quais se acrescentam 25 desenhos de João Cruz Rosa. Não nos debruçaremos sobre estes, ou sobre a sua articulação com os textos no interior de uma mesma obra. Note-se, apenas, que invocando-se o fogo no título do livro, as imagens nos apresentam paisagens ripícolas: a humidade de um lugar que não arde confronta-nos com o paradoxo assumido de quem diz por palavras aquilo que não cabe nas imagens, ou, aceitando a inversão da asserção, com o paradoxo de quem diz por imagens aquilo que não cabe nas palavras. Num e noutro caso estamos diante dos limites das linguagens.

Em João Miguel Fernandes Jorge, a interrogação da sua identidade como sujeito constrói-se na interrogação da sua identidade enquanto comunidade: nós, corpo; nós, afectos; nós, história; nós, língua; nós, povo. Interrogar o indivíduo é interrogar a comunidade, e interrogar a comunidade é parte de uma estratégia de resposta às questões colocadas pelo indivíduo, ambos implicados enquanto identidades, sejam estas concebidas como limites ou como possibilidades. Veja-se:


«XI

O que desaparece? E o que sobra?
Cada gesto modifica a alma de quem
age. Não sei de outro sentido para a
palavra povo. Entre o espaço de uma
a outra interrogação vai a unidade
da língua, a experiência íntima de
dizermos nós. (…)» 2

Aquilo que aqui se constrói é a imagem de um mundo que tarda em coincidir com a sua representação, que tarda ou que já não coincide, abalada que está uma relação de proximidade entre a experiência e as coisas. Poesia nostálgica? O que é a nostalgia senão a simultânea afirmação da fé e da descrença. Afirmação de fé no corpo, na língua e na comunidade. E é onde cresce a fé que se enraíza a descrença.
Há na linguagem, no tom e no imaginário destes textos um inevitável classicismo. Se o desfasamento entre a língua e o mundo não parece sequer permitir fazer dela lugar de superação das suas próprias aporias, o classicismo nasce não de uma ideal identidade entre a forma e o conteúdo, mas da consciência da língua como lugar de produção do próprio mundo. Poeta clássico, João Miguel Fernandes Jorge? E, a sê-lo, de que época o será? Quais são os clássicos que cada época reconhece como seus? Quais são os autores nos quais uma época ou um país se revê? Qual é o país no qual o autor se revê? Qual é o mundo?

«XIII

Tenho para mim neste derrotado começo de século
neste farrapo de país em que a própria língua virá em
breve a ser idioma secreto
e a quem ninguém chamará pátria nem tão-pouco
nação, apesar da vigilância sobre a nossa existência
ser matéria autocrática e clerical,

tenho para mim que nesta geografia
a casa rural é a expressão mais pura que sobrevive,
qualquer coisa ao alcance
entre o castelo e a igreja, entre a cruz e o adro,
ornamento que sustenta o carácter da arte e da paisagem.
Expressão do movimento, de uma cor.

Ao fim do pátio, onde a alma da casa termina, está
uma taça de granito. Bebedouro de pássaros nos meses
quentes, cobre-se de medronhos
pelos cálidos dias outonais do verão de São Martinho.
Em oferta, do áspero amarelo ao quente laranja,
no contraste da pedra o meio dia intensifica de brilho

cambiantes vermelhos — rosa vivíssimo e sangue
esmagado — o calor abre em ouro o corpo do fruto,
insectos despertam de um íntimo, longínquo mundo de
treva, como se subissem da mais antiga morte, da mais profunda vida.» 3

Pode um poeta envelhecer? Pode um país? A resposta é, em ambos os casos, afirmativa. Pode uma língua desaparecer? Pode um país?






1. João Miguel Fernandes Jorge, João Cruz Rosa, Mãe-do-Fogo, Relógio D’Água, 2009 (39 + 34 p.).
2. Idem, 21.
3. Idem, 24.