quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

M. S. Lourenço, "THE SEEFAHRER"— I



Os limites da língua são os limites da consciência. E são também os limites das experiências que de um modo directo dependem dessa língua. Como em todas as relações de definição de uma identidade, definir os limites (identificar o para além do qual se marca a impossibilidade) é também definir o possível.
Como pensar, então, no interior dos limites de uma dada língua (o português, por exemplo, com toda a sua carga histórica de uso e transformação semântica e sintáctica) a experiência do mundo enquanto coisa humana? Qual a relação entre o mundo e o modo como ele se produz enquanto experiência da língua, seja através do seu uso estritamente comunicacional, científico, ou outro, seja através do seu uso literário?
É a pertença a um mesmo território da língua (a uma mesma tradição, a um mesmo condicionamento prévio da escrita e da leitura) que legitima a apreensão de um texto no interior de uma dada narrativa — a da literatura portuguesa do século XX, por exemplo. E isto ainda que esse texto possa privilegiar outras tradições literárias como referentes. Como pensar, então, um texto que se escreve em diferentes línguas, que convoca em simultâneo os condicionamentos e as possibilidades de distintas tradições literárias e de distintas culturas? É este o caso do poema em nove partes The Seefahrer 1 , de M. S. Lourenço. Vejamos os dois primeiros momentos:

« THE SEEFAHRER

I

Em Avilla de los Caballeros,
ciudad q˜ arde sin entibiar el ambiente,
el 28 de Marzo de 1515
nació nuestra Teresa
CON LOS OJOS ABIERTOS


II

 


   1700 — the spread of concertos
   1715 — corelli’s edition of op. 6
   1715 — Vivaldi’s edition of op. 3

L’Estro Armonico

Há um grito no palácio de Ottoboni

    Santa Theresa of Avila

        Peri údatos

…la outra propriedad del agua es q˜ harta
y quita la sed; porque sed me parece a mi
quiere decir deseo de una cosa q˜ nos hace gran
falta q˜ si del todo nos falta, nos mata ...»

No Ofertório a água estín pánton tõn anthropón

Mas há a água dos Jónicos
e a arkê de Empédocles » 2

Até aqui, e excluindo o título, encontrámos cinco línguas: castelhano, inglês, italiano, português, grego, para além da numeração árabe, legível de um modo distinto em cada língua. Até ao final do ciclo de nove textos encontraremos ainda francês, latim, alemão. As oito línguas surgem misturadas numa amálgama de escrita que cola o uso de cada uma delas (por vezes apenas uma palavra ou uma expressão num período onde predomina qualquer uma das outras) a uma experiência particular. Estamos diante da radicalização da assunção da intraduzibilidade da poesia (ou de toda a língua, aproximando-nos de Derrida): cada experiência só pode ser verdadeiramente dita na língua em que se produziu o seu uso original. A complexidade desta questão impede o seu desenvolvimento neste espaço. Igualmente não problematizaremos os evidentes reflexos da formação filosófica do autor na construção de todo o texto (exigindo como movimento correlativo por parte do leitor uma análoga formação?). Pensemos, antes, no modo como o recurso a diferentes línguas e registos pode significar uma tentativa de ultrapassar aquilo que acima enunciámos como os limites da língua. Tratar-se-á de tentar dizer aquilo que a língua materna (no caso, o português) não sabe ou não pode dizer? Vejamos o texto que encerra o ciclo:


« IX

The only language about myself
Even in Mr Ryle’s sense
é o q˜ eu faço poien.
Also: comer este fruto,
beijar esta mulher,
estar ausente, cair à água e ser salvo.
Gut. Nichts mehr? Há mais mas aguarda
a sua linguagem.
— En upomonê
Und Plotinus Lehere tou oantós?
Q˜ espécie de linguagem?
A dos Inexprimíveis. Como em Procolo (Com. on
Plato’s Parmenides). » 3

Trata-se aqui não de afirmar os limites de uma língua, mas os limites da experiência enquanto língua. É clara a consciência de que o espaço de produção da poesia é o do seu confronto com aquilo que lhe escapa; o espaço da sua aproximação a alguma coisa que só se diz numa relação de desfasamento: —a não coincidência entre a palavra e o seu referente é condição da palavra; —a impossibilidade de captar o mundo em representações é condição das próprias representações e da própria experiência de mundo como coisa humana.
Esta concepção de literatura em M. S. Lourenço surge explicitamente formulada no ensaio «Um Templo no Ouvido», da obra Os Degraus do Parnaso, incluída nesta antologia:

«Assim, a Literatura, entendida agora como incluindo a poesia e a prosa, tem a tarefa de nos levar até à fronteira do inexprimível. O problema subjacente consiste em que a linguagem, e que a Literatura é a Arte (no sentido em que a Música é a arte do som), funciona dentro de limites que não podem ser ultrapassados. Isto leva a que a linguagem não seja capaz de representar completamente todo o âmbito da experiência, de tal modo que existe assim uma parte da experiência que não é representável linguisticamente, e logo literariamente. Chamo inexprimível precisamente a este domínio da experiência linguisticamente inacessível (…)» 4

Estamos novamente diante de um problema que aqui só poderá receber uma abordagem superficial. Mas vale a pena aprofundar um pouco, dado que a posição de M. S. Lourenço tem aqui tanto de pertinente quanto de potencialmente questionável. A questão que colocamos está em saber se os limites da literatura (e com ela os das outras artes) são dados pelos seus limites internos face ao mundo ou pela indizibilidade do mundo. Ou noutra formulação: a literatura só diz por aproximação (com maior ou menor grau de aproximação, segundo a eficácia da escrita) alguma coisa que lhe pré-existe e lhe é exterior (isso, o inexprimido, porque inexprimível), ou produ-lo na língua?
A primeira possibilidade implicaria a existência de alguma coisa de extra-línguístico que constituiria fundamento ou finalidade da língua (numa concepção estranhamente dependente de um modelo metafísico), a segunda implica a concepção de que a língua (as línguas, as linguagens) realiza o mundo no acto de o dizer. Esta última possibilidade parece-nos ser aquela que melhor pensa a natureza da literatura enquanto arte.
Lembremos que a experiência do mundo se produz no interior de muitas linguagens, e que aquilo a que chamamos língua corresponde apenas a uma das linguagens através das quais organizamos o mundo como coisa humana. O privilégio da linguagem verbal (a língua, o logos grego — palavra, discurso, razão) não pode fazer-se pelo menosprezo de outras linguagens; aquelas que correspondem a outros domínios da experiência (som, imagem, tacto, etc.).
Importa sobretudo não esquecer que a experiência de mundo enquanto coisa humana é complexa e se produz simultaneamente no interior de várias linguagens. Sublinhe-se a afirmação anterior: no interior de várias linguagens. Dificilmente o ser humano enquanto consciência reflexa tem acesso a experiências extra-linguísticas. Pedir à poesia ou à arte que diga esse exterior da língua é pedir-lhe que diga aquilo que nega a sua própria natureza. Ao contrário, pedir à poesia que diga o dizível é já encostá-la aos limites da sua identidade. E é aí que ela se realiza.

Dizer o mundo enquanto literatura não é traduzir para o plano da língua um dado que lhe é prévio (ou seja, exprimi-lo), mas produzi-lo enquanto experiência. A literatura, como toda a arte, é parte de um movimento de realização do real.




1. M. S. Lourenço, «THE SEEFAHRER», in O Caminho dos Pisões, Assírio e Alvim, 2009, 149-154.
2. Idem, 149.
3. Idem, 154.
4. M. S. Lourenço, «Um Templo no Ouvido», in O Caminho dos Pisões, Assírio e Alvim, 2009, 560.