quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Manuel de Freitas, Jukebox 1 & 2




A poesia é o espaço de uma estranha interpenetração entre a esfera do público e a do privado, entre a esfera da experiência subjectiva e a da experiência daquilo que, sem comprometer essa subjectividade, se apresenta como supra-subjectivamente partilhável. Será esse, na contemporaneidade e mais do que em outras linguagens artísticas, o lugar da poesia enquanto arte: espaço de realização do subjectivo através da sua formulação supra-subjectiva como linguagem e representação — qualquer que seja a temática ou a filiação estética e estilística. Existem outras abordagens, mas esta é, acreditamos, a tendência dominante.
Dando por válida a asserção enunciada, resta a questão de saber como conciliar, de facto, a subjectividade do produtor enquanto experiência da intimidade e a publicitação dessa intimidade. O livro Jukebox 1 & 2 1, de Manuel de Freitas pode ser lido à luz deste enunciado. Não nos reportamos ao registo confessional da experiência afectiva ou afectivamente perspectivada, quase ausente destes textos, reportamo-nos à publicitação do eu como condição de produção de uma experiência comunitária. Como publicar (isto é, como tornar públicas) as experiências subjectivas, sem que o valor da experiência proposta ao receptor se esgote na estrita e redutora relação de formulação confessional da subjectividade do produtor? Será a possibilidade da partilha por um número indeterminado de receptores a garantia de validação dessa experiência? Como manter válida a pertinência representacional, estética e experiencial, de um texto, uma vez esgotados os contextos intersubjectivos que o sustentavam?
Não há, nem tem de haver, respostas consensuais a estas questões; não será, sequer, consensual a aceitação da sua pertinência, ou da sua formulação. Admitamos, no entanto, como válida a existência de uma tensão subjectividade-intersubjectividade como característica transversal da poesia contemporânea, aceitemo-la, no mínimo, como instrumento conceptual susceptível de enriquecer a sua leitura. Veja-se, neste livro:
«1998, LOU REED


Foi tão estranho. O barulho
do nada sobrepunha-se
nas mais diversas línguas
àquela frágil tentativa de concerto.


Enquanto nós, trio deveras
implausível, comprávamos
vinho mau e sandes de chouriço.
Não era bem o apogeu de Lisboa;
seria antes o princípio da morte,
indiferente aos fogos de artifício
que haveriam de selar o desencontro.


Preferíamos, sem dúvida,
uns restos de magia,
uma desculpa qualquer para estarmos
efectivamente ali, depois de poluídos
- e só mais tarde rasgados –
os lençóis que nos cobriam.
(That’s the story of my life.)


O Tejo, talvez por vossa causa,
nunca me pareceu tão triste.» 2

Este texto (que mereceria uma revisão crítica — por exemplo, a frase “Foi tão estranho” apouca o texto e é claramente prescindível; a formulação “restos de magia” está no limite do aceitável) mostra como uma experiência que começa por se enunciar na primeira pessoa do plural acaba na primeira pessoa do singular: o trânsito do nós para o eu é feito não pela exclusão do nós, ou pela subtracção do eu, mas pelo efeito cumulativo da experiência partilhada.
A esta questão acrescente-se uma outra, colocada de um modo particularmente pertinente por esta recolha: como falar subjectivamente de uma experiência comum? Como inscrever na subjectividade aquilo que, dirigindo-se a essa subjectividade, é de facto actualizado enquanto coisa comum? Esta é a experiência do concerto ou da música em geral e traduz, precisamente, a tensão entre a identidade do eu e a mais partilhada possibilidade do nós. Manuel de Freitas fá-lo assumindo a estrita parcialidade do olhar que vê, ou do ouvido que ouve — vê e ouve precisamente aquilo que quer e pode ver e ouvir:
«2005, Gustav Leonhardt


Às vezes, por breves instantes,
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em trompe l’oeil
na abóbada da igreja de São Roque.


Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos — «Argumentos» e «Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.


A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).


Aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor. » 3

Repare-se no “nós” formulado como sujeito de enunciação: é o sujeito do discurso e é o sujeito possível de uma experiência inevitavelmente singular: o eu que diz e que se diz é aquele que é ao mesmo tempo condição e obstáculo à formulação do nós. O nós possível será o da morte, o da coincidência entre o ver, ouvir e outra coisa que talvez seja a própria poesia, mesmo e apesar da triste figura.
Este livro reúne dois anteriores do autor (Jukebox 1 e Jukebox 2) acrescidos de um inédito. Na construção de um universo de experiências musicais avulta aquilo que pode fazer desta recolha um curioso o objecto de identificação geracional: lugar de construção reflexa de uma geração que começou por ouvir os Joy Division e acabou a ouvir música antiga. Este que pode constituir um traço definidor geracional é sobretudo a marca do tempo e da opção por distintos mediadores artísticos. A estrutura diacrónica da recolha permite o cruzamento entre a temporalidade dos músicos e a dos espectadores. Aqueles em nome dos quais a vida e a poesia se constrói vão sendo outros, sem que isto afecte o próprio discurso que pretende dizê-los: é o mesmo olhar e a mesma consciência, simultaneamente coincidente e desfasada do sujeito de enunciação, que traduz para palavras a experiência do tempo enquanto música ou a experiência da música enquanto critério do tempo:
«(…)
Nós, vinte anos depois, nem disso fomos capazes.» 4

Apesar do carácter tematicamente circunstancial destes textos (que aqui ou além ganhariam em ser revistos), estamos perante uma poesia que recolhe da sua inscrição num imaginário urbano as condições para se produzir como experiência autónoma. Não é documental (apesar de também o poder ser, o que colocaria a questão de saber qual a linguagem que melhor documenta um acontecimento), mas mostra-se capaz de partir de um dado objectivo para o formular enquanto experiência subjectiva, do espaço partilhado para nele construir a encenação do eu.




1. Manuel de Freitas, Jukebox 1&2, Teatro de Vila Real, 2009, (47 p.)
2. Idem, 27.
3. Idem, 37.
4. “2008, YOUNG MARBEL GIANTS”, Idem, 46.