segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Renata Correia Botelho, Um Circo no Nevoeiro




A percepção do mundo nunca é neutra ou objectiva. As nossas relações com a realidade e com os constructos culturais são sempre contextuais. Experienciamos os outros e as coisas contextualizadas num tempo, num espaço, numa situação axiológica, cultural, afectiva, etc. Este contexto fornece ao mesmo tempo as condições de significação de uma dada experiência e impede que essa experiência se apresente por si mesma tal como poderia ser se despida dos constrangimentos dessa contextualidade. Ao nível de realidades culturais tão artificiais como as obras de arte, o contexto cénico da sua apresentação é um elemento determinante da construção da sua identidade semântica e estética.
Nesta acepção, boa parte da qualidade de um projecto editorial pode medir-se pela sua capacidade de produzir o contexto de recepção apropriado a uma dada obra: desde o enquadramento institucional mais vasto (onde pesam a qualidade e a consistência das sucessivas opções editoriais), até à construção gráfica das obras, a forma como os textos são apresentados aos públicos é determinante na sua identidade.
A poesia (como toda a literatura, mas nela mais do que em outros géneros literários) não é um estrito espaço mental que poderia receber indiferentemente um qualquer suporte físico. A poesia é palavra inscrita em suporte (sonoro, visual, táctil, mental). Um projecto editorial como o da Averno (claramente, e à sua escala, um dos mais conseguidos do actual panorama editorial português) mostra como o adequado enquadramento contextual dos textos permite potenciar a sua identidade estética e semântica.
Um bom exemplo disto é o livro Um Circo no Nevoeiro 1, de Renata Correia Botelho. À poesia delicada e discretamente feminina da autora corresponde a editora com um volume cuidado, inventivamente acompanhado por desenhos de Luís Manuel Gaspar. Por norma, as tentativas de cruzar poesia e imagem num mesmo volume produzem resultados muito questionáveis. A este nível, este livro é uma excepção.

Reportemo-nos ao texto. Renata Correia Botelho apresenta-nos uma escrita cuidada, que denota o trabalho de redução quantitativa do vocabulário. Isto corresponde à percepção de que, em poesia, a quantidade (o acumular de palavras) não traduz necessariamente um acréscimo semântico ou estético. Esta é uma linha de desenvolvimento com fortes e firmes ancoras em alguma poesia portuguesa da segunda metade do século XX. À redução vocabular tende a corresponder um sobre-investimento estético e semântico: tal significa pretender que as palavras que ficam sejam capazes de, de um modo essencial, traduzir uma experiência de profundidade que seria a poesia:

«digo o teu corpo
poema, fruto silvestre

rascunho branco.» 2

A atracção do silêncio é aqui reveladora de uma estética contida no gesto e que pretende produzir, na contenção, a espessura que outros buscam na torrencialididade da escrita. Um projecto estético desta natureza contorna, normalmente, os erros de construção e as debilidades de linguagem inerentes a modelos poéticos de matriz mais expressionista. É o caso destes textos: é aqui patente o cuidado da escrita, o gosto quase objectual pelas palavras:

 

«contigo rima o grito
do vendaval nas searas

verso bravo, sibilado
o curvo eco da terra.» 3

Estamos diante daquilo que se poderia designar como a “qualidade da escrita”. Mas esta “qualidade”, resultado do cuidado, da contenção e da sensibilidade, surge aqui ao preço de um fechamento da poesia sobre si mesma. É disto indício, por exemplo, a recorrência do vocábulo poema, ou de vocábulos da mesma família semântica. Esta recorrência é também sintoma de um problema mais grave: a tentação de se proteger num imaginário e num campo vocabular reconhecidamente poético. Por exemplo:

 

«guardas a chuva
na concha da mão,

colo de águas
daninhas

onde bebo
a nostalgia das marés.» 4

Encontramos nestes textos uma versão mais exigente da vulgata poética de raiz feminina da contemporaneidade. O resultado é uma poesia estranhamente previsível, ameaçando a cada momento soçobrar no lugar-comum. Precisamente porque é reconhecível, esta escrita potencia uma empatia quase imediata: é um lugar, um espaço representacional, onde é agradável ficar, mas é um lugar que parece fechar-se sobre si mesmo, temendo o risco da exposição. Será de pedir que ao cuidado colocado na escrita possa corresponder um sentido de risco que não existe neste livro.




1. Renata Correia Botelho, Um Circo no Nevoeiro, capa e ilustrações de Luís Manuel Gaspar, Averno, 2009, (53 p.).
2. Idem, 45.
3. Idem, 16.
4. Idem, 22.