quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Tomás de Oliveira Marques, PPL: Para a Próxima Legislatura e Outros Manifestos



O devir-arte da arte na modernidade (ou seja, a subordinação das artes a imperativos de ordem preferencialmente estética) deixou em aberto a questão de saber como potenciar a sua interacção com outras áreas da experiência cultural, nomeadamente com a esfera da intervenção política. A aporia é conhecida: como garantir a autonomia da arte e simultaneamente salvaguardar a possibilidade do compromisso e do empenhamento políticos? Como ultrapassar o fosso cavado entre as elites criativas e as massas? Estas e outras questões, congénitas da arte moderna, estão longe de estar resolvidas. Isto apesar das tentativas de resposta formuladas, e da transformação das práticas e dos pressupostos conceptuais da produção artística ao longo das últimas décadas do século XX. Como questão prévia, permanece quase insuperável o problema do desfasamento, um verdadeiro fosso, entre o nível de domínio das linguagens artísticas por parte dos produtores e especialistas e o do público em geral (curiosamente um problema com o qual outras áreas de produção criativa igualmente se confrontam, mas para o qual vão desenvolvendo estratégias capazes de conciliar inventividade e legibilidade — pense-se na arquitectura ou no design).

Precisamente por isto, um livro como este PPL: Para a Próxima Legislatura e Outros Manifestos 1, de Tomás de Oliveira Marques, surge como um objecto problema. O autor, um livre-pensador com tanto de anarca quanto de reaccionário (se aferido pelos critérios da modernidade política), apresenta aqui textos de tom tendencialmente burlesco e satírico, mas formulados num nível de linguagem de apreensão quase imediata. Assumindo-se como manifesto (ou seja, afirmação pública e política de ideias, princípios ou reivindicações), inscreve-se numa noção de literatura que pensa a poesia como instrumento de contestação pública. Estamos diante de poemas de circunstância, fortemente contextuais, e com um claro propósito de intervenção imediata.
Poesia de intervenção? A natureza panfletária da postura, com uma estratégia de escrita que passa pelo culto do óbvio, retém da “poesia” a pretensão implícita de que formular um enunciado segundo as suas estruturas formais constitui uma mais-valia semântica, potenciando a força daquilo que é afirmado. Não se refugia, no entanto, numa noção de poesia entendida como experiência pseudo-sacralizada pela pertença ao espaço da arte. É uma poesia profana e profanadora, profanadora inclusive da própria noção de poesia.
Estes textos rejeitam a herança formal das vanguardas (apesar da postura de contornos dadaístas), para se fazerem instrumentos quase utilitários de expressão de opinião política e de crítica de costumes. O surpreendente nesta obra é que, apesar das limitações criativas das opções tomadas, o resultado é estranhamente subversivo: não cabe nos parâmetros da poesia poesia, não cabe nas derivas pós-modernas da vanguardas modernistas, mas apesar disso constitui-se como experiência efectivamente interpelante. Veja-se:

«Evolução 2

Gramática e cultura…

Eu tomei
Tu tomates
Ele tomou

Com muitos valores
e nenhuma dor…

Nós tomámos
Vós tomates
Eles tomaram…

Ignorância
e TLEBS a rodos.


NOTA: Os nossos agradecimentos ao Ministério da Educação pelo seu empolgante trabalho, ao longo das últimas décadas, em prol da arte da conjugação.» 2

Este texto, nota incluída, é, apesar de óbvio, de uma eficácia surpreendente. É eficaz em termos rítmicos; é eficaz em termos expressivos; é eficaz pelo tom satírico com que subverte quer a norma linguística quer a norma literária. A mesma força expressiva podemos encontrar em outros textos, onde o imediato da construção se alia à linearidade do enunciado:


«SG
(SEJAMOS GRANDES)
SEJAMOS GRANDES
PELA IMOLAÇÃO
FILTRADOS
NA VENTILAÇÃO
A SABER A NADA.

SEJAMOS GRANDES
SEJA LÁ ISSO O QUE FOR
NO MUNDO A BEATITUDE
A FAZER FESTAS À DOR
AO SERVIÇO DO DEVIDO
SENTIDO DE ESTADO
POR S. MACÁRIO BENZIDO
O NOSSO TRISTE FADO. » 3

Apesar da disposição gráfica do texto (mimetizando o design de um maço de tabaco, o SG Ventil), a aproximação ao experimentalismo da poesia visual é aqui mais instrumental do que deliberada. A provocação surge como elemento constituinte desta escrita, naquilo que é tanto um processo de subversão dos valores políticos ou dos costumes, quanto da própria noção de poesia “culta”, vanguardas incluídas.
Mas significa isto que estamos diante de um bom livro? É duvidoso. Apesar do investimento crítico ao nível temático, há um claro défice de trabalho ao nível da construção dos textos. Os modelos poéticos, razoavelmente primários, comprometem as potencialidades da postura derrisória e crítica. A crítica política ou de costumes não é acompanhada pela produção da crítica reflexa à linguagem que os produz. Ora, em arte, a contestação não se faz através da enunciação negativa do objecto de contestação, mas pela produção das condições linguísticas e representacionais da própria contestação. Não se trata aqui de nenhuma exigência de purismo estético, trata-se de afirmar que a consistência do uso linguístico potencia a consistência conceptual e crítica do produzido. E, acreditamos, a sua eficácia.




1. Tomás de Oliveira Marques, PPL: Para a Próxima Legislatura e Outros Manifestos, ilustrações de Ana Azenha, Argusnauta, 2009 (108 p.).
2. Idem, p. 65.
3. Idem, p. 67.