quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Gabriel d’Annunzio, O Fogo - I


«— Stelio, não sentes bater de medo o coração pela primeira vez? —perguntou Foscarina, sorrindo ligeiramente e tocando a mão do amigo que, taciturno, se sentava ao lado. — Estás palido, pensativo. Que explendida noite de triumpho para um grande poeta!
E n’um relance, divinamente, seus olhos vivos absorveram toda a belleza evolada d’esse derradeiro crepusculo de Setembro, á hora em que no ceu escuro grandes pontos de luz, projectados na agua pelo remo, coroavam os altos anjos d’ouro que resplandeciam ao longe sobre os campanarios de San-Marco e San-Giorgio-Magiore.» 1

O início do romance O Fogo, de Gabriel d’Annunzio, texto de 1900, coloca-nos diante da possibilidade do medo. O herói, poeta altivo e reservado, recolhido na alta torre do seu génio, dirige-se ao palácio do Doges para receber a consagração pública desse mesmo génio. Mas esta possibilidade de perigo traz consigo uma correlativa afirmação de poder: o poder que é próprio dos consagrados à poesia. Os estímulos sensoriais, o arrebatamento da paixão e da solidão, o êxtase diante da beleza materializada no corpo ou na palavra, constituem a imagem de uma noção de arte que se confunde com a própria vida. Não estamos diante da perspectiva moderna que faria da arte modelo da vida. A referência é aqui hiper-romântica e decadentista: enuncia-se um mundo no movimento de constatar a sua irreparável perda.
Este é um romance de uma estranha e desfasada actualidade. Interessa-nos, aqui, as noções de poeta e de poesia que se constroem ao longo do livro. A poesia surge como um espaço de produção de profundidade sensorial e emocional, espaço de representação de alguma coisa que só na língua se materializa. A isto acresce a identificação física e simbólica entre a manifestação da verdade ou da beleza no texto e a sua encarnação na figura do poeta.
Gabriel d’Annunzio é um autor estética e ideologicamente datado, ou mesmo, se olhado a partir dos critérios do modernismo triunfante, um autor estética e ideologicamente reaccionário. Mas é também um autor extraordinariamente capaz de, mesmo no interior de modelos literários visivelmente limitativos (novamente à luz do modernismo, perspectivando a história a partir das categorias dos vencedores), produzir a imagem de um mundo em desagregação: um mundo que se ficciona no mesmo movimento em que se desfaz.
Antes da decadência, enuncia-se a possibilidade da redenção pela arte e pela poesia. Investido do fogo sagrado e do poder simbólico reservado aos escolhidos, o poeta faz-se agente da promessa da alegria. A noção prometeica de artista realiza-se na acção criativa, na possibilidade de transposição para o plano do real daquilo que se havia enunciado como experiência subjectiva:

«”Gloria ao Milagre!” Um sentimento sobrehumano de poder e liberdade encheu o coração do mancebo, no momento em que a brisa enfunou a véla, para elle transformada. Na purpura da véla viu-se como no explendor do seu proprio sangue. Pareceu-lhe que todo o mysterio d’esta belleza exigia de si o acto triumphal. Julgou-se capaz de o realizar. “Crear com alegria!”
E o mundo foi d’elle.» 2

Avulta a hiperbolizada herança romântica: o poeta é o depositário de alguma coisa que o ultrapassa; ao mesmo tempo agente e servo da poesia, da alegria e da dor, do horror e da beleza confundidos numa mesma explosão sensorial e afectiva. A poesia revela-se como o lugar de manifestação da intensidade da vida interior do próprio poeta — é ele que se dá, exprimindo-se através das palavras:

«— Exprimir! eis o que é necessario. A mais alta visão não terá nenhum valor, se não fôr manifestada e condensada em formas vivas. E eu tenho que crear tudo. Não lanço a minha substancia nos moldes recebidos em herança. A minha obra é toda invenção minha; não devo, nem quero obedecer senão ao meu instincto e ao genio da minha raça. E, comtudo, como Dardi, que viu em casa de Caterino Zeno o famoso orgão, tenho também, diante do meu espirito, uma outra obra executada por um creador formidável, uma obra gigantesca, erguida além, no meio dos homens.
A Imagem do creador barbaro reappareceu-lhe: os olhos azues brilharam na fonte larga, os lábios cerraram-se sob o vento forte, cheios de sensualidade, d’orgulho e desprezo.» 3

A natureza heróica do poeta faz dele depositário de uma experiência que o ultrapassa: a acção de produzir o novo e o incondicionado é consentânea com a pretensão platónica de que a enunciação do belo ou da verdade correspondem à transposição para o plano do representacional de uma realidade que é da ordem do imperecível. Estamos perante uma noção de poesia que faz dela instrumento de apropriação do mundo, ao mesmo tempo lugar de reconhecimento e de produção da verdade e da beleza. Estamos também diante da afirmação do primado simbólico da experiência afectiva e sensorial: o corpo do poeta seria lugar de manifestação da verdade, no mesmo plano em que a palavra o seria.
A palavra possuiria apenas o privilégio da imortalidade.



1. Gabriel d’Annunzio, O Fogo, Volume I, trad. de Amadeu Silva D’Albuquerque, Companhia Nacional Editora, Lisboa, 1901, p. 9.
2. Idem, 143.
3. Gabriel d’Annunzio, O Fogo, Volume II, trad. de Amadeu Silva D’Albuquerque, Companhia Nacional Editora, Lisboa, 1901, p. 209.