terça-feira, 12 de janeiro de 2010

M. S. Lourenço, “O BALCÃO DE BERLIOZ”




É quase nada. Apenas a percepção de um limite que não é interior nem exterior. A constatação da humildade das palavras, lugar de dissociação entre o projecto e o poder fazer. Em arte, a antecipação do futuro é já a sua realização, mas esta significa uma modelação da realidade das representações que se define no estreito limite entre as potencialidades de uma dada linguagem, a formação individual do produtor, a sua sensibilidade, e alguma coisa que é da ordem do acaso, ao mesmo tempo o contexto e uma espécie de justiça do mundo. Ter ou não ter, um pouco para além daquilo que é susceptível de ser transformado pelo desejo, pela vontade ou pelo trabalho:

«Em alguns raros momentos de silêncio interior e profundo, alguns artistas são levados a comparar a exiguidade do resultado do seu trabalho com a amplitude inicial das suas ambições; as fronteiras do seu talento tornam-se impiedosamente claras e a impossibilidade de alguma vez as ultrapassar é cruelmente nítida.» 1

O modelo bíblico da capacidade de acção como sendo da ordem da Graça ou do Dom (uma dimensão largamente explorada no século XX pelos pensadores de matriz judaica, como Levinas ou Derrida), remete para a possibilidade de um doador exterior. O artista seria o depositário de alguma coisa radicalmente exterior a si mesmo: o dom, o talento, a capacidade, corresponderiam à acção no interior do eu de uma voz (- o espírito que possui o xamã, - o daimon, na tradição socrática, – a natureza, na formulação kantiana, etc.) radicalmente outra, fazendo do artista o estrito instrumento de mediação.
Reconheçamos a dificuldade de explicar a criação artística, mas recorrer a modelos de raiz religiosa ou metafísica (os quais exigem que alguém pré-escreva aquilo que eu escrevo) significa continuar no âmbito metafísico da lei, da prescrição e da culpa. O sentimento de impotência de que fala M. S. Lourenço é outra coisa: não é o reconhecer da culpa diante de um legislador exterior, mas o confronto do eu consigo mesmo, a percepção de um limite que não é imposto do lado de fora, mas produzido interiormente. Trata-se, talvez, do simples e cruel confronto entre as representações e as representações. É quase nada, apenas a percepção do tamanho do mundo.


1. M. S. Lourenço, «O Balcão de Berlioz», in O Caminho dos Pisões, Assírio e Alvim, 2009, 604.