segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

M. S. Lourenço, “THE SEEFAHRER” — II



O mito de Babel marca a passagem de uma noção de língua entendida como um instrumento para a noção de língua entendida como mundo. A passagem da unidade para a proliferação linguística significa não apenas o estilhaçar da unidade, mas também o comprometer do seu carácter instrumental: a língua já não é um instrumento de apreensão representacional do real, mas lugar de produção autónoma de um mundo que perdeu a noção de totalidade como referente.
A proliferação linguística marca também a afirmação da diferença cultural e o aparecimento da necessidade de tradução como espaço de mediação. A língua adquire um carácter múltiplo e multiplicador pelo preço da sua inutilidade instrumental: a construção do mundo, paralela à dispersão geográfica e cultural, realiza-se na impossibilidade de se totalizar. Nenhum projecto, seja ele político, científico ou estético, pode aspirar a totalizar-se. Paradoxalmente, a afirmação deste mito inscreve-se no interior de um texto que se apresenta como a fixação simbólica da própria totalidade — lugar de inscrição da palavra de Deus, seria também a garantia da possibilidade da palavra verdadeira. Vemos aqui como a noção de discurso verdadeiro colide com a da proliferação da diferença, seja esta linguística, cultural ou outra.
Por isso se torna problemática a relação entre o uso literário da língua (um uso assumidamente não instrumental) e a noção de verdade. De um modo mais amplo, abre-se a questão da relação entre arte e verdade. Os discursos de raiz religiosa e metafísica afirmam a implícita possibilidade de que a língua diga o mundo de um modo verdadeiro, variando apenas a identidade da língua, ou do seu registo. Com sacralização profana da arte na Modernidade, assistimos à transposição para o plano da arte das exigências de verdade inerentes aos discursos religiosos e científicos. Vale a pena que nos interroguemos acerca da legitimidade esta relação.

Um poema como “The Seefahrer”, de M. S. Lourenço, coloca a questão da multiplicidade linguística como problema acessório num texto que tem como referente central a questão da dizibilidade do mundo: multiplicar as línguas corresponde aqui a um reconhecimento da impossibilidade de totalizar o mundo numa só língua. É, pois, um texto que se situa no plano oposto ao mito de Babel: não se trata de recorrer à unicidade de uma língua (ou à afirmação de uma língua e registo privilegiados enquanto a língua da verdade), como garante do saber e da verdade, mas de tentar superar as fragilidades da representação pela multiplicação de representações:

«VIII

Métier de lànimal writing prose:
imitar Tito Livio.
Plusquam Stendal. Mais áspero
contido e distante.

Quellenforschung.
Qualité de style désirable nach Cicero:
eloquentia und oratorium opus.
Schelle encontra os ascendentes de Titus
nos historiadores post-aristotélicos: Clitarius,
Douri de Samos.
Há em Tito Lívio mímesis kaí ékplexis
mas não tó agennes kaí gonaikôdes
do desdém de plolíbio.
Não dramatiza em excesso
nem pretende o extraordinário
Epitragôdein kai teratéuesthai
Tó kálon nach aristtoteles Poet. VII, 4,
            ordem, grandeza, conjunto inteligível.
Desenvolvimentos d’allure analístico-pontifical,
estilo senatorial, (best sense) with certa forma
de helenismo.

Não há geografias,
no habla de amor ni consuela
No thaumásia post-aristotélicos
e nunca a sintaxe tem q˜ ver com sentimentos
i.e., trufê, kolakeia usw
E os discursos?

    Titus — 12 %
    Tucídedes — 24 %
    Salústio — 25%

Nach Kohl e Ullman

E os modos de utilização do falado
dependem da sua distribuição
sobrietas mesmo no patético
voici le stendhalien métier de l’animal.» 1

Seria virtualmente tão inútil quanto sugestiva a tarefa de traduzir este texto para português, ou seja, transpor aquilo que nele se escreve em outras línguas para uma significação na língua portuguesa. Mas supomos que não está aqui em causa nenhuma tentativa de formulação de um saber que só seria apreensível pela sua tradução para o estrito plano da consciência. Só um leitor muito especializado poderá efectuar uma leitura do texto que como se a ele correspondesse um sentido acessível pela redução de cada termo ou conceito a um referente imediato. Enquanto poesia, o texto coloca-se em outro plano: aquele que o próprio texto problematiza como “os modos de utilização do falado”; ou seja, daquilo que pode designar por estilo. Este conceito de estilo não cobre apenas a dimensão formal da organização de uma representação, mas corresponde àquilo que se pode designar como o modo; ou seja, a forma como na representação (língua, imagem, som, etc.), o mundo se faz corpo com a experiência simbólica. Isto significa que, no interior de um texto, o modo como o mundo se produz enquanto coisa humana (e quaisquer que sejam os critérios ou regimes de estruturação de cada código linguístico ou representacional) não é redutível à noção de verdade como critério de fundamentação do seu sentido ou do seu valor. Trata-se, antes, de multiplicar o mundo, multiplicando as linguagens e as experiências.
Voltamos, por isso, à questão da relação entre arte e verdade. Aquilo que no poema “The Seefahrer” se produz é uma experiência do texto que contorna a noção de verdade ou de sentido. O sentido do texto passa aqui necessariamente pela resistência semântica dos próprios conceitos. Passa também pela afirmação de uma experiência de recepção que assume a natureza sintáctica e semanticamente paradoxal do próprio texto. Isto significa que, embora ele admita uma leitura hermeneuticamente esclarecida, não a exige. O seu valor enquanto experiência literária e representacional joga-se fora da exigência estrita de qualquer interpretação “verdadeira“ dos enunciados. Causa, assim, estranheza ver como M. S. Lourenço nos propõe uma noção de arte como experiência de verdade:

«O artista verdadeiro é aquele que alcançou o conhecimento verdadeiro, o qual consiste na percepção da realidade sensível e na intuição da realidade inexprimível. a aura que rodeia o artista verdadeiro é um efeito do sopro divino, da Graça que confere à actividade criador uma certeza dogmática e infalível: o artista obedece a uma lei interior, a qual se pode denominar de muitas maneiras diferentes, mas para a qual não existe uma fórmula reveladora.» 2

Há nesta noção de artista reflexos da ideia romântica do criador como génio (não muito distante da ideia de criação como experiência xamânica). Deixemos de lado os evidentes contornos kantianos deste texto. O propósito de M. S. Lourenço é aqui o de proceder à redução da noção de verdade aos seus modos de inscrição na língua. A verdade da poesia residiria na sua capacidade de escrever aquilo que a ultrapassa, permanecendo, no entanto, no plano estritamente literário.
Mas mesmo num processo de redução da verdade aos modelos literários e linguísticos que a formulam (ou não), estamos ainda no plano da afirmação da verdade como critério de validade da arte. Ora, isto é confundir os planos. Babel e a proliferação das linguagens trazem consigo a proliferação de mundos e de experiências. Estaríamos ainda numa concepção instrumental de língua. Permanecer na exigência da verdade como critério de validação desses mundos e dessas experiências é talvez prosseguir com a exigência de recondução da unidade ao todo, prosseguir com a negação da própria ideia de diferença. No limite, permanecer na negação potencial da própria ideia de língua.



1. M. S. Lourenço, «THE SEEFAHRER», in O Caminho dos Pisões, Assírio e Alvim, 2009, 153-154.
2. Idem, «A Linguagem universal»», 596.