segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Manuel de Freitas, "FORTINBRAS SAYS"



Uma resposta possível é a de que a literatura se define hoje como experiência das suas próprias margens. Das suas, das da cultura e das da experiência. Seria afirmar que, no interior de uma paisagem cultural marcada pela imagem, a palavra constitui um núcleo de resistência, o plano da consciência reflexa onde a produção da identidade se realiza pelo seu questionamento. Mas esta não é uma característica específica da literatura. Com distintas figurações, é também o que encontramos como princípio fundador de outras práticas artísticas contemporâneas. Este questionamento da identidade das linguagens e do sujeito constitui a matriz da noção de arte e de artista na Modernidade.
Qualquer definição de arte tem tanto de constatação quanto de projecto. Trata-se de, simultaneamente, tentar caracterizar aquilo que um contexto específico nos apresenta como arte (ou qualquer linguagem particular) e de projectar uma perspectiva dessa realidade. Quando o exercício de definição é explicitamente interior à obra de arte, a dimensão projectiva e programática acentua-se.
Encontramos no texto de Manuel de Freitas, “FORTINBRAS SAYS” 1 , um bom objecto para pensarmos esta questão. Este é um poema curioso (provavelmente, a par com o texto de Fernando Guerreiro e o conto de Alexandre Sarrazola, o mais interessante do último número da Telhados de Vidro), fortemente contextual, que nos coloca perante um dispositivo discursivo muito personalizado, e por isso mesmo muito reconhecível:

« FORTINBRAS SAYS
para o F.
Que estão nus, não valem nada
os poetas aclamados pela plebe
—o que é, infelizmente, verdade.

Que já vai sendo hora de bebermos
juntos um Jim Beam Black
— o que é, de outra maneira, verdade.

Que a canalha crítica, académica,
jornaleira ou mediática muito dificilmente
se consegue furtar ao grande peido geral.

E é verdade, também,

que morreram príncipes e princesas,
que já não há palavras
no reino deserto das palavras.

É tudo tão verdade, Fortinbras,
que nos apetece mentir com dignidade,
espancar sem decoro as bestas que progridem.

E esquecer, de vez, que a vida
é um riso inútil,
sem máscara nem chicote.

Morre apenas, a vida,
torna-se verdadeiramente extinta,
insinuando, em cada grito, o silêncio
de que não fomos capazes.»

Este texto, e como é frequente no autor, instala-se na frágil linha de demarcação entre a banalidade e a sua transfiguração; entre o lugar-comum e a sua transposição irónica para o plano do questionamento reflexo, ameaçando a cada momento soçobrar diante desse lugar-comum (veja-se, por exemplo: "que já não há palavras / no reino deserto das palavras."). Mas, para além disso, é notória a impertinência crítica com que questiona própria ideia de poesia.
Note-se a assumida contextualidade do texto. Não apenas ele se coloca diante daquilo que é, ou seria, o hoje da poesia, como implica a remissão para um interlocutor apenas esboçado, o que exige da parte do leitor a cumplicidade com o conjunto de referências. Fortinbras, autor anónimo do Máscara & Chicote, Literatura medida a Whisky, surge como interlocutor de um discurso de tons decadentistas.
Lembremos que o Modernismo emerge de um contexto cultural marcado pelo decadentismo: a afirmação da decadência de um processo ou entidade é o pressuposto que legitima o movimento que pretende subvertê-lo. O neo-decadentismo contemporâneo (que em muitos aspectos não é mais do que sintoma do desconforto perante a transformação acelerada do tecido cultural) produz no mesmo movimento a interrogação relativa à tradição recente e a reificação simbólica dessa mesma tradição. Mas aqui o decadentismo é mais uma atitude de provocação do que uma posição estética ou ideológica. Assumindo a postura derrisória de escarnecer do próprio escárnio, surge como parte do movimento de demarcação do território, demarcação de uma ideia de poesia.
A prática recorrente de encadear dedicatórias mútuas e cruzadas indicia a cumplicidade, mas também os comprometimentos estéticos. Define uma espécie de quem é quem do meio poético, identificando pertenças e exclusões. Um modo efectivo de definir o território é apontar os seus outros: "a canalha crítica, académica, jornaleira ou mediática" — um outro curiosamente interior, dado que Manuel de Freitas também é crítico, e que faz supor uma vitalidade do meio literário (crítico, académico, jornalístico, etc.) que, de facto, não existe.
Sabe-se como a definição reactiva de uma prática artística exige o reconhecimento implícito da centralidade e da força simbólica daquilo que se questiona: ora, até a centralidade simbólica do objecto de questionamento é duvidosa. Aquilo que hoje mais ameaça a poesia não é o academismo ou qualquer outra forma de institucionalização, mas a anulação desse espaço de formalização, num movimento correlativo à perda de peso simbólico da literatura na contemporaneidade.
Nada disto é negativo. Importa apenas que seja explicitado. Enquanto modelo criativo, esta postura crítica e céptica é tão válida quanto o seu inverso. O valor do resultado não é aferível pela atitude, mas por alguma coisa de mais subtil que se decide no uso da linguagem. Alguma coisa que programas ou manifestos não sabem, de facto, explicitar ou predefinir.





1. Manuel de Freitas, “FORTINBRAS SAYS”, in Telhados de Vidro, nº 13, Novembro, 2009, Averno, 31-32.