sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Rosa Maria Martelo, A Porta de Duchamp


A crítica age sempre de um modo interior à produção da escrita enquanto literatura. Escrever (tal como pintar, fotografar, ou qualquer outra prática criativa) implica um movimento simultâneo de apreciação do valor do produzido: a cada momento, mede-se a adequação da palavra, a sua integração no contexto da frase, a integração da frase no contexto do parágrafo, etc., numa escala gradativa que desemboca na perspectivação daquilo que se escreve à luz das potencialidades e exigências abertas e definidas por outros textos e pelo conjunto de possibilidades e condicionamentos implícitos na própria língua. Neste sentido, a produção artística supõe e exige a experiência da recepção; a riqueza desta (na medida em que ela seja, de facto, interiorizada) potencia as possibilidades criativas do produtor, ao mesmo tempo que optimiza os critérios de exigência na produção.
Mas, apesar disto, a escrita e a crítica envolvem competências particulares. A um bom crítico ou teórico da literatura não corresponde necessariamente um bom escritor. Na escrita enquanto literatura exige-se um manuseamento criativo da linguagem e do mundo que a coloca num plano distinto da abordagem crítica. São distintos os registos de linguagem, são distintas as operações mentais associadas. Entre a abordagem crítica e a produção literária joga-se a distinção entre a capacidade de avaliar a qualidade de um gesto e a capacidade de o produzir. Quando se trata de uma recepção crítica especializada não existe, naturalmente, distinção em termos de formação (que até poderá ser superior, por parte da crítica); existe, no entanto, uma distinção básica entre uma relação de recepção crítica e uma relação de produção. É possível pensar que esta distinção radica no uso tendencialmente instrumental da língua por parte da racionalidade argumentativa, e numa presença preponderante da assunção da opacidade da língua e das representações por parte da literatura.
Por tudo isto, nunca é evidente a passagem da crítica ou da teoria para a escrita. Os textos reunidos no livro A Porta de Duchamp 1, de Rosa Maria Martelo, surgem como um exemplo feliz de como é possível realizar a transição. São 17 textos, curtos e numa prosa justificada, que traduzem uma abordagem rigorosa e exigente da escrita. É neste rigor que se instala ao mesmo tempo a sensibilidade e a inteligência. Independentemente da sua catalogação quanto ao género, estamos diante de uma apropriação eficaz do melhor de duas abordagens da língua. Se a sensibilidade como indutor da língua e do olhar é talvez um dos poucos critérios distintivos da poesia, a inteligência marca alguma coisa que mais imediatamente se escreve na prosa, ou num uso argumentativo da racionalidade. É na sua assumida indefinição que estes textos potenciam estas duas dimensões do discurso. Nem prosa nem poesia, e ao mesmo tempo ambas, cumprindo o paradoxo de realizar o melhor de dois mundos. É esta estratégia da simultânea inclusão e exclusão que encontramos como questão transversal ao livro. Desde logo com a remissão, fundadora no plano estético e conceptual, para Marcel Duchamp:

«A PORTA DE DUCHAMP
Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rue Larrey, n.ºII, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar nem aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo. Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta, como alguém disse acontecer com os livros) e que descolava da sua função de porta, como a palavra porta descola de qualquer porta se a dissermos duas vezes: uma porta-porta. A dele rodando entre dois umbrais e, por isso, incapaz de preencher um vazio sem abrir outro vazio. Duchamp tinha-a colocado ali para não esquecer que há em tudo uma parte de nada, um vão impossível de preencher sem que logo se abra outro mesmo ao lado (…)» 2

O dispositivo de Marcel Duchamp (um clássico com quase um século) materializa a consciência da impossibilidade de superação das dicotomias: nem aberta nem fechada, ao mesmo tempo aberta e fechada, a porta surge como a enunciação plástica da descoberta (a várias vozes e prolongada ao longo de todo o século XX) da radical inscrição da diferença na identidade. Tal como Adorno mostra com a noção de dialéctica negativa, ou Derrida com o conceito de différance, aquilo que está em causa é a impossibilidade de totalizar no discurso ou no mundo qualquer movimento da história ou do conhecimento: a relação com a língua e com o mundo é constitutivamente da ordem do desfasamento. É esta consciência do desfasamento como matriz da língua que encontramos em Rosa Maria Martelo. Não há na língua promessa de revelação, antes a consciência da penetração do dentro pelo fora, e do fora pelo dentro. Do mundo pela língua e da língua pelo mundo. Este é um movimento de reenvio e de subtracção da língua a si mesma, da razão à sensibilidade e da sensibilidade à razão. Esta relação de tensão percorre todo o livro. Veja-se o texto que o encerra:

«DISTÂNCIAS
A Criança deixou os sapatos no meio da sala e foi dormir. Nesse pouco de desordem vê-se agora como encenar dentro de casa um tempo quase a florir: aqui levanto uma bandeira, aqui ponho duas pedras, um dia hei-de voltar. Tudo é o espaço, o tempo, o vazio ou a letra», mas o ar a descer para os pulmões não preenche pelo lado de dentro as finas redes do vazio. Letras repetem infinitamente o que falha, folhas e folhas amarfanhadas, o espaço contra o tempo nas gavetas. Por que havemos de bater a uma porta que não há? Por não haver razão, precisamente, e para não haver diferença entre bater a uma porta e ser a porta onde bater. A estreitíssima porta (a que bater tão fundo) entre o lado onde se bate e o outro lado do mundo.» 3

A imagem da porta não é aqui nenhuma figura da verdade, do segredo ou da revelação: é a figura do limite que só delimita abrindo (e fechando) aquilo que delimita, que só se escreve naquilo e apesar daquilo que se escreve, naquilo e apesar daquilo que não se escreve. Não é um segredo, não é um sentido, é o tactear o mundo.
Uma revelação, passe o paradoxo.


1. Rosa Maria Martelo, A Porta de Duchamp, Averno, 2009, (30 p.).
2. Idem, 7.
3. Idem, 30.