segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Carlos Couto Sequeira Costa, AESTH/ETHICA


A escrita, enquanto organização de representações predominantemente lógico-verbais, é um trabalho de desconstrução que age no interior da linguagem em que se produz. É um processo de subtracção ao texto das suas condições de significação. Esta subtracção não produz a não significação — impede que o texto se reduza à condição de estrito termo de mediação para um sentido. O sentido (se esta dimensão é aqui operativa) produz-se no movimento de se questionar. Note-se que esta é uma característica invariante de todos os textos e de todas as representações: todas, sem excepção, se produzem no processo de se desconstruir. Podem, no entando, existir propostas de escrita que assumem explicitar e utilizar enquanto elemento construtivo a própria consciência da desconstrução. É caso da escrita de Carlos Couto Sequeira Costa.
Colocando-se no plano da interpenetração entre diferentes dimensões (o literário e o filosófico, o estético e o ético, etc.), o livro AESTH/ETHICA — ESTÉTICA_ÉTICA DA FILOSOFIA 1 constitui-se como um objecto problema. Apesar da explícita indeterminação do subtítulo (ESTÉTICA_ÉTICA DA FILOSOFIA), este não é um livro de filosofia. E não o é por uma questão de linguagem: potencialmente, algumas das questões aqui pensadas poderão ser entendidas como questões de cariz filosófico, mas tal não é suficiente para fazer deste livro um texto de filosofia. A filosofia não se define a partir do seu objecto, mas da linguagem em que os problemas são produzidos enquanto proposta de representação. Só um excesso de semantização da literatura poderia autorizar a pretensão da sua redutibilidade: a literatura pode comportar (e comporta) problemas de matriz filosófica, mas não é redutível à filosofia. Do mesmo modo, os enunciados filosóficos podem comportar (e comportam) dimensões objectivamente literárias, mas o seu uso está em princípio subordinado a uma relação funcional.
Não pretendemos de afirmar o discurso da filosofia como um espaço exterior à escrita. O texto filosófico é, antes do mais, um texto. A distinção (se necessária) entre filosofia e literatura não poderá ser feita segundo critérios semânticos — não é o sentido dos enunciados que poderá permitir tal distinção. Esta estabelece-se na relação de ambas com a noção de verdade: qualquer que seja o seu estatuto, o texto filosófico deve ser argumentável. O texto literário pode suspender a sua relação com a noção de verdade, o texto filosófico não o pode fazer.
O que está aqui em causa não é a exigência de uma questionável fundamentação dos enunciados por parte do texto filosófico, mas a exigência de que, neste, seja possível identificar as condições segundo as quais um enunciado é susceptível de ser refutado. É essa a especificidade do texto filosófico face a outros usos da linguagem que lhe são co-extensivos, como a literatura. Ao contrário, nada obriga à argumentabilidade do texto literário, tal como nada obriga à argumentabilidade de qualquer representação artística (apesar da recente deriva conceptual).
Assumamos, então, a constitutiva interpenetração das duas dimensões, sem que disso decorra a sua redutibilidade. Esta interpenetração é parte do movimento em que o literário desconstrói o filosófico e este desconstrói o literário, segundo um processo de questionamento mútuo que é mais vasto — implica, por exemplo, a dimensão gráfica dos textos, a interpenetração entre a subjectividade do produtor e dos receptores, etc. Este livro constitui a materialização da consciência desta ambiguidade da escrita. Veja-se:

«12. (aesth/ethica



só terás paz, berkeley,
observando ao certo
o teu enxame de chuvas,
e examinando de perto a peste,
o caos, a lei,
a tua velocidade alada,

porque, compreendê-la,
é saber-se
veloz albatroz muito lento,

quer dizer,
reconhe
cer-se lento,

dentro da rajada.» 2

Esta interpelação directa ao filósofo faz-se a partir e no interior de um território que é o da poesia. Apesar da interpenetração clara do domínio da filosofia e do da poesia, a relação intersubjectiva entre o autor e o interlocutor simbólico age aqui como um elemento constituinte: o plano experiência subjectiva do filósofo (a paz) poderá encontrar resposta no plano discursivo da filosofia (a lei), mas esta resposta deriva rapidamente para o plano de uma compreensão que não é verdadeiramente verbalizável enquanto consciência (o reconhe / cer-se lento, // dentro da rajada). Note-se aqui a presença de um conjunto de operadores estilísticos de raiz literária: a aliteração (enxame de chuvas; ou de perto a peste), a rima interna (veloz albatroz), etc. Os mesmos operadores poderiam estar presentes no mais linear texto filosófico, mas aí não adquiririam o carácter constituinte que aqui possuem. No texto filosófico desempenhariam, quando muito, uma função subordinada e lateral; neste poema efectuam a transposição do plano da linearidade do discurso e da consciência para o plano daquilo que se escreve nos limites da própria consciência. Estamos diante de alguma coisa que no mesmo movimento constrói e desconstrói o discurso como experiência e como encadeado semântico.
A questão que se coloca é, então, a de tentar saber como é que o texto se produz enquanto experiência potencial capaz de dar ao leitor a simultânea percepção da construção textual e semântica e da sua correlativa desconstrução — e o inverso. Trata-se, sempre, de um processo de produção textual. Os textos presentes neste livro são um bom exemplo do uso consciente dos processos de desconstrução sintáctica e semântica como instrumentos de construção literária:

«33. vii (carta de praga,

 

natura sive natura:
dormir é ensaiar a morte, a imagem tem o o
dor do cadá
ver_ _ _ c’est un cad
eau de l’au-delà,

transcendência do sangue » 3

O sono, enquanto irrupção de uma experiência representacional que se define fora dos limites da consciência, surge aqui na sua dupla dimensão de reiteração da corporeidade e de subtracção da consciência ao próprio corpo. É uma subtracção que se faz à custa da sua negação: o para além do corpo (a morte) é também o para além da consciência; mas é também a afirmação de uma inultrapassável corporeidade: o cadáver continua corpo. Isto significa, em simultâneo, a redutibilidade e a irredutibilidade da consciência ao corpo e do corpo à consciência.
Neste texto, o uso de três idiomas e de um dispositivo gráfico que subverte a linearidade discursiva permitem corporizar este enunciado enquanto escrita e enquanto experiência não totalmente consciente: não estamos diante da enunciação de um encadeado discursivo que se coloque no plano da argumentação (como fazemos nesta análise: em princípio todas estas afirmações podem ser questionadas e contra-argumentadas), mas no plano da formulação de uma experiência do texto enquanto entidade múltipla: semântica, sintáctica, gráfica, etc. Como em todas as situações análogas, a subversão sintáctica e semântica supõe a norma como condição de significação; a afirmação da visualidade do texto supõe a interpenetração potencial da dimensão gráfica e da semântica, ao mesmo tempo que assume a sua mútua desconstrução.
Em diferentes registos, este dispositivo de escrita atravessa todo o livro, traduzindo a ponderada e consciente opção por uma escrita experimental. A complexidade formal e semântica de muitos dos textos cruza a conceptualização da escrita com um forte condicionamento afectivo do discurso. O mundo não nos é dado como coisa pensável, mas como coisa experienciável segundo múltiplas dimensões. Nota-se, no entanto, com alguma frequência a opção pelo aparentemente óbvio (os trocadilhos, a fragmentação silábica das palavras, o paradoxo elementar), numa postura de escrita que, embora deliberada, fragiliza alguns textos. Sobretudo, há frequentemente alguma dificuldade em produzir enquanto experiência estética aquilo que se define no plano conceptual. Talvez alguns dos textos fossem prescindíveis (ou talvez todos os textos sejam sempre prescindíveis, a começar por este).
Uma última questão: será o estético o campo de realização do ético?, será o ético o campo que questionamento do estético?, serão ambos o campo de questionamento do espaço entre a experiência e a consciência — o campo de realização do real?


1. Carlos Couto Sequeira Costa, AESTH/ETHICA, ESTÉTICA_ÉTICA DA FILOSOFIA, Fenda, 2009, (111 p.).
2. Idem, 27.
3. Idem, 59.