domingo, 28 de fevereiro de 2010

Jacques Derrida, Che cos’è la poesia?


 
Não uma pergunta, não uma resposta. Com Derrida, contra Derrida, talvez seja possível dizer que a poesia é uma forma de felicidade; uma forma de enunciação da felicidade, da sua produção, mesmo na afirmação dos seus negativos; a produção de um espaço onde a linguagem se assume como tal, como representação produtora de alguma coisa que se inscreve, desfasada, entre consciência e o mundo. Nos limites da consciência e nos limites do mundo — e em qualquer dos casos segundo uma relação de não coincidência consigo mesma e com o próprio mundo. Um exercício de risco:

«Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também. Chamarás poema a uma encantação silenciosa, à ferida áfona que de ti desejo aprender de cor.» 1

Aquilo que Derrida propõe com este pequeno texto passa pela assumida recusa em responder à pergunta, devolvendo-a a si mesma sob a forma de desvio, num registo que voluntariamente se situa a meio caminho (potenciando o risco) entre a abordagem literária e a abordagem técnica. Central neste texto é a ideia da poesia como experiência do outro, como descoberta e apreensão interior do outro pela memória. O aprender de cor significa também aqui aprender pelo coração, segundo a coincidência entre a dimensão afectiva e a linguagem enquanto lugar de representação constitutivamente desfasada. O aprender de cor sinaliza a tentativa, conscientemente vã, de transpor para a memória aquilo que se escapa no simples movimento de o enunciar, de fazer consciente alguma coisa que se produz no processo de constar a perda. Constar e produzir a perda, constar a dor e produzir a felicidade — e o inverso:

«Assim desperta em ti o sonho de aprender de cor. De deixares que o coração te seja atravessado pelo ditado. De uma só vez, e isso é o impossível, isso é a experiência poemática. Não conhecias ainda o coração, assim o aprendes. Por esta experiência e por esta expressão. Chamo poema àquilo que ensina o coração, que inventa o coração, enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua mal distingo da palavra coração.» 2

O que é enunciado como poema, tal como o que é enunciado como coração, só em parte coincide com qualquer referente material que o poderia elucidar. É, antes, o correlato representacional de uma representação, num processo de remissão das palavras para si mesmas, de duplicação da interioridade pela interioridade, segundo um movimento de construção e descoberta do outro: o outro das palavras e o outro da interioridade. Em ambos os casos, outra vez outras palavras e outra interioridade, produzindo um espaço propriamente sem exterior, ou pelo menos sem um exterior cuja exterioridade não se defina precisamente como o negativo de uma experiência — potenciador embora da própria experiência.
Mas é paradoxalmente neste negativo que a interioridade e as palavras se realizam; não como voz da consciência ou do eu, não como voz do poder e do saber, mas como contaminação de uma exterioridade que nunca se faz corpo com as palavras.
Mais do que uma profissão de fé na poesia (ou na literatura, diríamos, alargando o campo semântico do conceito de poesia), aquilo que está em causa neste texto de Derrida é afirmação de que a experiência do mundo se realiza na arrogante humildade da linguagem: no mundo e apesar do mundo; na interioridade e contra a interioridade; nas palavras, pelas palavras e apesar das palavras.


1. Jacques Derrida, Che cos’è la poesia?, trad. Osvaldo Manuel Silvestre, Angelus Novus, 2003, 9.
2. Idem, 8.