domingo, 7 de fevereiro de 2010

Jorge de Sena, “SE EM PORTUGAL UM ESCRITOR”


É duvidosa a centralidade simbólica da crítica no contexto artístico português. Se ao nível das artes plásticas, e apesar da escassez de protagonistas, a crítica tem a capacidade de produzir valor económico ao atribuir ou identificar valor artístico, ao nível da literatura nem essa dimensão de instrumento do mercado lhe é reconhecível. Há naturalmente fenómenos de sucesso mediático e de mercado que são suportados pelo sucesso crítico (normalmente importado), mas há também numerosos casos de sucesso mediático e de mercado que se produzem apesar ou contra a crítica. E há, evidentemente, casos de sucesso de crítica sem repercussões ao nível do mercado. Nada disto é, em si mesmo, positivo ou negativo: diferentes contextos culturais e epocais desenvolvem e revêem-se em distintos mecanismos de produção e reconhecimento do valor. Uma visão optimista da história identifica no tempo e na transformação cultural as condições de reconfiguração crítica das heranças: a crítica seria uma tarefa comunitária e a comunidade seria em si mesma auto-correctora — as boas interpretações ou as boas avaliações tenderiam a prevalecer sobre as más ou as incorrectas 1.
No imediato da recepção artística, o produtor é, no entanto, confrontado com a recepção crítica privada da suposta acuidade que a distância e o tempo poderiam proporcionar. Do ponto de vista do autor, que avalia a sua obra à luz dos mesmos critérios inerentes ao trabalho de produção, o olhar do crítico pode apresentar-se como desfasado e incapaz de percepcionar aquilo que obra teria de mais importante. Neste sentido, uma recepção crítica negativa poderia relevar da incapacidade do crítico para compreender e avaliar a obra (e é nesta postura que frequentemente o autores se refugiam, até para salvaguardar a confiança mínima que permita ultrapassar criativamente uma recepção crítica menos positiva), ou poderia simplesmente resultar do preconceito ou da má vontade explícita. Por isso, a tentação de definir reactivamente uma identidade criativa face à incompetência da crítica. Este movimento é identificável mesmo em autores claramente maiores como Jorge de Sena, ele mesmo um crítico de literatura:

« SE EM PORTUGAL UM ESCRITOR

Se em Portugal um escritor é largamente proclamado
com coros de louvores; e se é inteligente —
deve por certo começar a ter terríveis dúvidas
de ser alguma coisa de em verdade grande.
Porque a chamada crítica ou que se arroga tal
atira ciosamente lama e vómitos
a quem seja, senão grande, pelo menos digno
— numa ânsia de que o público imagine que a honradez
é um vício, e ser canalha uma virtude.

Jan. 7, 72 » 2

Esta atitude reactiva de Jorge de Sena, comum a outros textos do autor, traduz ao mesmo tempo a lucidez de quem não se revê num dado contexto institucional (a crítica de literatura), e o ressentimento de quem, apesar de tudo, lhe reconhece uma centralidade simbólica. Note-se neste texto a mistura voluntária entre categorias de ordem ética (honradez, vício, virtude, etc.) e as implícitas categorias de ordem estética. A dignidade surge ao mesmo tempo como uma categoria ética e uma categoria estética, gradativamente apenas inferior à grandeza artística. Esta sobreposição de planos justifica-se aqui não pela confusão de registos (não sobrarão dúvidas quanto à não coincidência entre o valor literário de um texto e sua possível inaceitabilidade ética), mas pela perspectivação da crítica a partir do olhar do produtor: pôr em causa o valor do trabalho do escritor não é apenas questionar algo que lhe seja exterior (o texto), é pôr em causa a sua identidade mais íntima.
Esta é uma posição de difícil gestão. O enorme investimento intelectual e afectivo do produtor confronta-se com o olhar de um outro que será tanto mais eficaz quanto menor for a sua complacência. Mas esse outro será tanto mais potencialmente agressivo quanto maior for a sua exigência. Ora, a manutenção de um mínimo de auto-complacência (a intuição e a aceitação de um limite para além do qual é difícil avançar enquanto criador) é condição de todo o trabalho de produção artística.

 
1. Veja-se, por exemplo, Terry Barret, Criticizing Art: Understanding the Contemporary, McGraw-Hill, Boston, 2000.
2. Jorge de Sena, “SE EM PORTUGAL UM ESCRITOR”, in Visão Perpétua, Moraes Editores – Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982, 154.