segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jorge de Sena, “SER UM GRANDE POETA”


 
Segundo a narrativa oficial, a subjectividade foi descoberta pela modernidade. É um dado questionável; quando muito, a modernidade reelabora discursivamente uma experiência que lhe é constitutivamente anterior. Por exemplo, não é concebível a poesia lírica sem a experiência subjectiva do autor — e a poesia lírica não é, evidentemente, uma descoberta da modernidade. Menos questionável será, talvez, a afirmação de que é recente a noção de arte como estrito produto da subjectividade autónoma do artista. A afirmação da autonomia da arte e do artista é um dos dados fundadores da modernidade estética. Quer fosse entendida como um fim em si mesma (a arte pela arte), quer fosse entendida como fundamento da intervenção política ou outra, a autonomia da arte assumia a ficção da completa emancipação do artista face às dependências institucionais.
Ora, em distintos graus de formalização (mais ou menos restritivos, mais ou menos abertos ao seu próprio questionamento, etc.), todas as formas de criação artística dependem de enquadramentos contextuais de cariz institucional. Dependem hoje, como dependeram no passado. Não há nisto nada de positivo ou de negativo. A complexidade das linguagens artísticas exige a partilha pelo produtor e pelo receptor (em graus diferenciados) de um conjunto de saberes que lhes permitam reconhecer como significantes os enunciados propostos como experiências artísticas. Por isso, qualquer que seja o modelo de formalização institucional, as artes dependem sempre desta contextualização. Implicam uma tradição capaz de produzir a complexificação das linguagens ao dispor dos produtores e dos receptores, implicam a definição implícita ou explícita de critérios de avaliação da validade ou do sucesso das experiências propostas. Grande parte da história da arte (das artes: literatura, música, artes plásticas, etc.) desenvolve-se sem questionar este enquadramento institucional. A modernidade produz a narrativa salvífica da emancipação dos artistas criador, simulando com isso a sua completa independência.
Hoje, herdeiros da modernidade, continuamos a pedir ao artista que se situe à margem da instituição. A simular que o faz, pelo menos. Veja-se como Jorge de Sena, numa construção irónica e desiludida da identidade do poeta, marca as margens desta dependência institucional:

«SER UM GRANDE POETA

Ser um grande poeta
morto e nacional
é atrair as moscas
como idiotas e
os idiotas como
moscas.

Ser um poeta medíocre
vivo e universal
é atrair os catedráticos
da literatura como
idiotas e moscas.

Ser um poeta apenas
nem vivo nem morto
ou nacional ou universal
é atrair apenas os poetas
como moscas idiotas.

Moralidade: não há saída.

5 / 70 » 1

Com este ou com outro nome, neste ou noutro país, neste ou noutro contexto cultural, com estas ou com outras personagens, o diagnóstico poderia ser subscrito de um modo quase indiferenciado por todos os poetas modernos. Jorge de Sena, como a modernidade, pede aqui aquilo que o mundo não lhe pode dar. O fazer de conta que é possível produzir e ser significante num exterior ao mundo da literatura é talvez condição da própria escrita. Mas tal não significa acreditar verdadeiramente nessa ficção. Pretender que é possível produzir literatura fora do enquadramento contextual, falar para o mundo e esperar que este seja capaz de reconhecer a voz do poeta, é, no limite, deixar o poeta a falar sozinho, se aí ainda houver voz.
Ao contrário, e deixando de lado a questão da legitimação social e semântica, aquilo a que assistimos é que, quer enquanto suportes materiais de produção, quer enquanto suportes de recepção, os contextos institucionais são imprescindíveis ao aprofundamento e à complexificação das linguagens. Nestes contextos institucionais cabem tanto os formais (os mecanismos de edição, de distribuição, de crítica, de formalização académica, etc.), como os mais informais (por exemplo, os grupos de produtores ou de receptores, reunidos segundo as suas afinidades estéticas), traduzindo a extrema contextualidade da produção e recepção artísticas. E isto acontece independentemente da maior ou menor vitalidade, da maior ou menor qualidade desses contextos. Da sua menor qualidade, como sabemos — faz parte da narrativa de emancipação do artista moderno afirmar a decadência das instituições, mesmo ou sobretudo quando ele se situa no seu interior.


1. Jorge de Sena, “SER UM GRANDE POETA”, in Visão Perpétua, Moraes Editores – Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982, 113.