terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Luís Vaz de Camões, "Alegres Campos, Verdes Arvoredos"



      Ao contrário do mito romântico, dificilmente a natureza é artisticamente inspiradora. Independentemente da validade do conceito de inspiração, permanece como válida a percepção de que há algumas experiências privilegiadas enquanto ponto de partida para o trabalho de criação artística. O romantismo, como consequência de um movimento de sacralização da arte e da própria natureza, identifica na natureza o topos por excelência de uma relação privilegiada. Ora, o mundo natural não é, ou só muito escassamente o é, inspirador. Não se confunda tomar a natureza como tema e tê-la como fonte de “inspiração”. A produção de representações é suscitada por outras representações.
      Quaisquer que sejam as suas linguagens e os seus instrumentos, as artes são construções representacionais; são representações que encadeiam sobre outras representações: as palavras suscitam palavras, tal como as imagens suscitam imagens e os sons suscitam sons. A natureza, no seu silêncio e na sua espessura, e mesmo quando resultado de uma intensa acção antrópica, é uma parede opaca que mal devolve o eco das representações do passeante.
Porque é disso que se trata: aquilo que a natureza possa ter de artisticamente inspirador decorre da projecção de uma experiência representacional que permite ao artista percepcionar a natureza como coisa construída. Um bom exemplo desta percepção da natureza como construção humana é-nos dado, no plano da experiência afectiva (mas facilmente transponível para o plano da experiência da produção artística, como posteriormente o fará o Romantismo), pelo soneto Alegres Campos, Verdes Arvoredos 1, de Camões:

 
«Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural
discorrendo da altura dos rochedos;

silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem

      A animização da natureza é parte do processo de construção de um interlocutor e corresponde a uma tradição que remonta no mínimo à poesia trovadoresca. Mas esta animização é aqui antecedida pela percepção da paisagem como resultado de um movimento de produção representacional. Lembremos que o Renascimento efectua uma consciente e fundadora recuperação da categoria platónica de mimesis. Aquilo a que assistimos neste texto é à curiosa (e estranhamente moderna) inversão da relação mimética: já não é a arte que imita a natureza, mas esta que se constrói segundo as categorias e valores da arte.
      Atente-se no enunciado: “claras e frescas águas de cristal, / que em vós os debuxais ao natural / discorrendo da altura dos rochedos”. Está aqui indiciado o movimento através do qual as águas debuxam a paisagem. Qualquer que seja a origem do termo debuxar, ele comporta a noção de produção de uma representação visual, da modelação da experiência visual através da produção de uma organização das formas. O ideal mimético é invertido: não é o artista que copia a natureza, é esta que se desenha segundo o plano da arte.
      A mesma ideia de construção surge nos versos seguintes: “silvestres montes, ásperos penedos, / compostos em concerto desigual”. Montes e rochas articulam-se segundo uma noção de composição que é claramente coextensiva com a prática artística. A natureza organiza-se segundo regras de composição que o Renascimento delineou para as artes. Este processo de reconstrução simbólica do espaço natural sinaliza aquela que é uma condição de percepção da natureza enquanto topos da arte: ela é, quando muito, espaço de confronto do artista consigo mesmo, lugar de projecção das construções representacionais que um dado contexto histórico e cultural lhe fornece. Por isso, materializa uma visão de mundo que é de ordem representacional.
      Apesar de manter uma relação de criação artística dependente da ideia de inspiração (o génio é aquele a quem a natureza dita as suas regras, o porta-voz da própria natureza), Kant formulará, no final do século XVIII e em plena emergência do Romantismo, as condições de resposta a este problema: a propósito da noção de juízo de gosto, dirá Kant que não são as coisas que são belas ou sublimes, mas os sentimentos dos sujeitos perante essas coisas. Ou seja, ao nível da perspectivação artística do mundo, estamos no estrito plano da experiência enquanto representação.
      Hoje, a quase ausência da natureza na produção artística contemporânea traduz a sua ausência enquanto objecto de experiência imediata, mas traduz sobretudo a ausência de um imaginário capaz de a cobrir. Como é que se diz a natureza (ou o campo, ou a agricultura, ou a selva) em literatura, quando escasseiam representações capazes de proceder a uma pré-configuração representacional dessa mesma experiência?





1. Luís Vaz de Camões, “Alegres Campos, Verdes Arvoredos”, in Lírica Completa – II, Ed. Maria de Lourdes Saraiva, 2ª ed., Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994, 208.