sexta-feira, 12 de março de 2010

Joaquim Manuel Magalhães, Um Toldo Vermelho, I



«Nota
Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior.» 1


É possível que um gesto actual se repercuta não apenas no futuro, segundo uma relação causal de carácter prospectivo, mas também no passado, por um movimento de retroacção. É possível que um acto ou um facto presente transforme retrospectivamente um acto ou um facto passado. O pressuposto da imutabilidade do passado (e da sua antinomia face ao futuro: o passado seria aquilo que poderíamos conhecer, mas não transformar, o futuro seria aquilo que poderíamos transformar, mas não conhecer) assenta na recusa implícita da dimensão processual do tempo e da história. Se assumidos como processo, o todo e as partes do tempo e da história estão permanentemente implicados pela sua contínua transformação. Presente, passado e futuro redefinem-se e transformam-se continuamente, senão no plano estritamente factual, pelo menos no plano simbólico e semântico. Esta transformação adquire um impacto acrescido ao nível das obras de arte, realidades cuja identidade se define enquanto sentido. Ora, mesmo que um gesto não seja retroactivamente transformável, é-o enquanto entidade semântica.
Joaquim Manuel Magalhães propõe-nos, com o livro Um Toldo Vermelho, um exercício radical de transformação prospectiva e retroactiva do seu trabalho poético. É um gesto violento. O processo de rescrita e depuração dos textos tem larga tradição, mas surge aqui contrariando a tendência normal desta atitude: o que tradição consagra é que o movimento de depuração seja conduzido para valorizar aquela que é, ou seria, a essência desses textos, sublinhando opções e modelos estéticos. A estranheza do gesto de Joaquim Manuel Magalhães consiste em que o movimento de depuração produz a aparente recusa das opções estéticas definidas pelos textos que são objecto de revisão. Mais do que de revisão estamos diante de um trabalho de reescrita que se orienta por coordenadas estilísticas claramente divergentes das do ponto de partida. Esta reescrita significa não a correcção do gesto, não o restauro do edifício, mas o voluntário refazer da estrutura, a sua quase profanação iconoclasta.
O gesto é simbolicamente tanto mais forte quanto o autor se afirmou como figura de referência de uma corrente estilística que ao longo das últimas décadas se tornou central na poesia portuguesa: o prosaísmo e uma narratividade assente na atenção ao quotidiano. Aquilo que Joaquim Manuel Magalhães nos propõe com este livro parece redefinir de forma radical quer o seu percurso poético, quer os modelos teóricos que ajudou a construir. É agressiva a postura, e é agressivo o exercício do confronto entre os textos agora propostos e aqueles que lhe serviram de ponto de partida: tal pode permitir a medir a distância entre as duas versões, mas poderá também induzir no erro de pensar que aquilo que o autor agora nos propõe constitui a degradação de um original, e que só a sua mítica pureza nos devolveria o sentido das palavras.
Uma outra possibilidade é admitir que o gesto proposto neste livro se encontra inscrito em potência nos textos anteriores; admitir, pelo menos, a possibilidade de um movimento retroactivo que permita ler nesses textos alguma coisa que estava lá, mas que talvez nem o próprio autor soubesse ver; admitir que é possível ler o percurso do autor como o de um profundo exercício de crença niilista nas palavras: de consciência dos seus limites e do necessário trabalho de contaminação viral inerente a toda a escrita. Veja-se um texto de 1978:

«Devemos ir pelos versos muitas vezes, fixá-los fora dos modos usuais aos actores cobertos de adereços, representar nas palavras as fugidias imagens, os vazios dos sons adormecem nas fogueiras (…) » 2

Note-se a consciência do desvio como processo operativo de escrita e de leitura; note-se a afirmação da centralidade simbólica dos “vazios dos sons” (e não do silêncio) — é precisamente um exercício de esvaziamento que o livro Um Toldo Vermelho nos propõe. O mesmo texto, mais adiante, assume a natureza agressiva do trabalho de escrita:
«Transforma este texto numa víbora para te morder.» 3

É esta consciência latente do risco que as palavras constituem para si mesmas que ameaça fazer mergulhar no nada o corpus poético que suporta o próprio movimento de reescrita. Se não é inteiramente possível reescrever o passado, é possível redefinir-lhe o sentido. Sabendo que as presentes versões são o resultado de várias reformulações que aqui, na quase atracção pelo abismo, se radicalizam, talvez seja legítimo pensar que a deriva niilista que Joaquim Manuel Magalhães nos propõe assenta na sedimentação da consciência da artificialidade de todo o discurso; na consciência da necessidade de fazer voltar os textos contra si mesmos como condição de enunciação. Leia-se um excerto de dois momentos, o primeiro na versão publicada em A Poeira Levada Pelo Vento, de 1993, o segundo em Um Toldo Vermelho:
«SLOTEN
Às vezes acordamos felizes. A casa
está sossegada, o quarto
dá para um ancoradouro com cantarias caídas
e árvores rentes e muretes de socalco.
O burel da cortina antepara o céu
opaco sobre prédios urbanos.
O universo, submisso, parece disposto
para proteger; acolhe na manhã
as fachadas com os andares de três janelas,
de duas, de uma apenas; terminam em triângulos difusos na neblina.
O aquecimento irradia dos tubos, a chuva
acaricia os barcos parados, um homem com vara
debruça-se para retirar detritos.
Bandos de pássaros, brandos ventos, tudo pousado.
abro a blindagem do quarto e ouço
os tijolos, a tinta, as escadas, o corrimão
a sangrar.» 4
Há aqui definido um movimento reducionista do olhar: “as fachadas com os andares de três janelas, / de duas, de uma apenas”, numa gradação que conduz ao difuso da neblina. É este mesmo movimento de produção da indefinição semântica que caracteriza a passagem deste texto para a versão presente no livro Um Toldo Vermelho:
« SLOTEN

O burel antepara
o universo insubmisso.

O aquecimento irradia.
Um barqueiro e vara.

A blindagem saúda. » 5
Estamos diante de uma versão estilizada ao ponto de deturpar o ponto de partida. Aquilo que no primeiro texto se oferecia como evidente surge aqui apenas implícito ou questionado. Não é um movimento de recondução a uma qualquer verdade ou sentido essenciais, mas o processo de questionamento do texto pelo texto, de subtracção do texto a si mesmo como condição de significação. Não é o universo que se transforma de submisso em insubmisso; é o texto que assume a intrínseca insubmissão do universo: a sua natureza ameaçadora. Curiosamente, se a leitura se iniciar pela versão de 2010, aquilo que resulta diante da versão de 1993 é a sensação de apaziguamento diante de uma representação que não se faz problema: um espaço dado, não uma interpelação. Talvez seja uma noção de poesia como lugar de apaziguamento que este livro rejeita.
Desprovidas do contexto narrativo que as enquadrava, as palavras perdem a dimensão instrumental que as subordinava à realização de um sentido e ganham a ambiguidade semântica que as confronta consigo mesmas: estamos agora diante de uma escrita que encosta as palavras aos seus próprios limites.
É possível pensar que o carácter aparentemente desconexo de muitos dos textos da versão de 2010, a arritmia, a óbvia fealdade do vocabulário forçado, constituem processos conscientes de suspensão da linearidade discursiva e de problematização da relação de recepção: estes textos exigem menos uma relação de interpretação (de descodificação de um conteúdo semântico codificado enquanto poema) do que a estrita experiência das palavras.

Não se trata de um jogo de recuperação do omisso, de colmatação da falha, mas da assunção da natureza fundadora da própria falha. É nesta falha que este livro se escreve. Vem expor o que há de arbitrário (tão consciente quanto intuitivo) no processo de escrita: não há nada de essencial; não há nada que não seja susceptível de transformação; não há nada que não possa ser devolvido ao nada.


1. Joaquim Manuel Magalhães, Um Toldo Vermelho, Relógio D’Água, 2010, (198 p.), 198.
2. Joaquim Manuel Magalhães, “a prosa, um”, in António Palolo, Na Regra do Jogo, 1978, 7.
3. Idem, 7.
4. Joaquim Manuel Magalhães, A Poeira Levada Pelo Vento, Editorial Presença, 1993, 73.
5. Joaquim Manuel Magalhães, Um Toldo Vermelho, Relógio D’Água, 2010, (198 p.), 161.