domingo, 14 de março de 2010

Joaquim Manuel Magalhães, Um Toldo Vermelho, II




Diferente será saber se aquilo que é válido enquanto programa conceptual possui a força estética capaz de sustentar a leitura. No caso de Um Toldo Vermelho, a resposta é provavelmente negativa.
Ao longo da segunda metade do século XX, as artes plásticas mostraram a possibilidade da dissociação entre a força conceptual de um projecto e a sua materialização enquanto experiência plástica e sensível. Isto correspondeu não apenas à menorização da dimensão formal de muitas obras, mas à definição de modelos criativos que supunham uma relação de recepção de natureza predominantemente intelectual. Aquilo que fica de fora é, frequentemente, a experiência das obras enquanto experiência dos sentidos, assim como a sua produção enquanto modelação do espaço ou da experiência visual. Talvez isto não seja possível em literatura sem comprometer irremediavelmente a sua identidade: produzir representações verbais que se pretendem do âmbito da literatura implicará uma modelação da linguagem verbal que a retira da simples produção de um projecto conceptual. O saber fazer inerente ao acto de escrita (com o correlativo domínio do medium) ainda constitui critério de qualidade.
Não que estes textos de Joaquim Manuel Magalhães traduzam de algum modo a perda do saber fazer que lhe permitiria modelar a linguagem, mas podem traduzir, como afirma Luís Miguel Queirós, uma disfunção entre o projecto estético e a linguagem que lhe permitiria corporizá-lo. Será na percepção da linguagem enquanto corpo que este projecto se compromete.
E no entanto, parece claro que nunca nos trabalhos anteriores de Joaquim Manuel Magalhães a atenção havia estado tão definidamente voltada para a linguagem — a linguagem não é aqui um instrumento de mediação para o real, mas um assumido modo de construção do real, da sua manipulação representacional. Leia-se o seguinte texto, já sem qualquer exercício de comparação com anteriores formulações:

«Cru e de bergamota.
Semblante, engulho,
a claça, ui a calça, terno tom
de alça toupeira,
cobiça.

Engoles, encantado,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
âmbito árido.
 
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.

 
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.


Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.» 1

É possível ler aqui tanto a memória quanto a sua consciente negação, tanto a assunção de uma identidade como o seu recobrir sob a capa das convenções, mas, qualquer que seja o sentido do texto (o querer dizer do autor), ele produz-se agressivamente enquanto construção de palavras. A relação do sentido enunciado e da experiência formal das palavras exige que a atenção se volte para estas, interrogando-as, como condição de significação.
Mas seria errado ver nisto apenas um exercício de desconstrução: há aqui o assumir da dimensão constitutiva da própria desconstrução, o definitivo assumir do som como parte da produção de qualquer espessura semântica, a devolução da experiência de leitura ao plano das próprias palavras. Se o real e a experiência cabem neste texto, cabem ou não cabem enquanto palavras, ou seja, enquanto mundo: “E se interpretou no aqui / um exercício de sintaxe, / uma retórica minada de prosódia, / independente de biografia, / por favor não atrapalhe.” Não se trata de reduzir a experiência à linguagem, mas de assumir que o mundo apenas se realiza nesta: com os seus limites e as suas inconsistências. A linguagem não é uma janela sobre o real, é um exercício de violência sobre alguma coisa que não lhe é nem anterior nem exterior.
Por outro lado, e contrariando aquilo que poderia constituir indício de uma acrescida consciência da natureza forçada de toda a relação entre a linguagem o real, parece permanecer ao longo do livro a pretensão de que a estrita enunciação de um termo é suficiente para convocar para o texto o correlato semântico e experiencial (para não dizer ontológico) desse conceito. É nesta ambiguidade que o projecto de estético deste livro se desenvolve como a epifania de uma incongruência.



1. Joaquim Manuel Magalhães, Um Toldo Vermelho, Relógio D’Água, 2010, (198 p.), 169.