domingo, 7 de março de 2010

Johann W. Goethe, Viagem a Itália


«Mas já a magnificência da nova paisagem que se divisa quando começamos a descer não pode ser descrita com palavras. É como um jardim com milhas e milhas de comprimento e de largura, na base de altas montanhas e rochedos escarpados que se espraia por terras planas numa ordem perfeita.» 1

A vários títulos iniciática, a longa viagem que Goethe realiza a Itália, entre os anos de 1786 e 1788, situa-se num tempo em que viajar ainda é, sobretudo, descobrir. Se há alguma dimensão de reconhecimento nessa viagem (de reconhecimento e de comparação entre a coisa objecto de experiência directa e a sua representação prévia, a construção de contornos míticos que justificou a própria viagem), este ainda é um percurso de descoberta e de surpresa. Para além do fascínio com os vestígios do mundo clássico, para além da arte, para além das observações de carácter antropológico (naquilo que ainda é o confronto com o outro, aquele que se apresenta como uma revelação, e não como objecto de reconhecimento), ressalta neste texto o confronto com um mundo por explicar: a atenção detém-se nas características geológicas dos espaços que atravessa, aventa possibilidades para elucidar questões de biologia, escala o Vesúvio em plena irrupção para estudar o vulcanismo.
O texto da obra Viagem a Itália, fixado décadas depois a partir do diário da viagem e das cartas aos amigos, é testemunho de um olhar iluminista que se cruza com a sensibilidade do romantismo emergente. Na descida do Vesúvio (visita “científica”, segundo os moldes do século XVIII), o autor traduz para o plano da sensibilidade interior a experiência recolhida:

«O regresso foi acompanhado por um reconfortante e magnífico pôr de sol e uma tarde divinal; mas senti bem como um contraste tão profundo pode confundir os sentidos. O terrível na sua relação com o belo, o belo na sua relação com o terrível, ambos se eliminam e provocam um sentimento de indiferença.» 2

Esta indiferença, que é também o resultado da saturação da sensibilidade e de um não reconhecido cansaço físico, traduz menos o conflito enunciado entre o belo, apreensível e mensurável, e a desmesura do terrível (aquilo que a estética da época identifica como o sublime), mas a habituação da proximidade: a indiferença que nasce da convivência quotidiana como a excepção, a banalização da própria excepção.
Mas, hoje, aquilo que talvez surja como mais surpreendente é a atenção prestada por Goethe à paisagem e às práticas agrícolas. O mundo das cidades italianas que o autor percorre é um mundo incrustado numa imensidão de campos agrícolas e de paisagens que se percorrem ao ritmo lento e atento dos passos dos animais. Não estamos apenas diante do espaço intermédio entre uma cidade e outra, entre uma maravilha da antiguidade e um palácio renascentista, estamos diante de lugares com autonomia e identidades próprias, estamos diante de um espaço que faz questão em si mesmo:

«Em viagem, 30 de Abril

Chegados ao vale por onde serpenteia o rio S. Paolo, demos com terra escura avermelhada e calcário com grande erosão; muitos baldios, campos extensos, um belo vale tornado mais agradável ainda pela presença do rio. O bom solo argiloso misto tem por vezes vinte pés de espessura, e é muito igual. Ao aloés rebentavam por todo o lado. O trigo estava bonito, mas nalguns lugares pouco limpo e, em comparação com a vertente sul, muito atrasado.» 3

Esta atenção às práticas agrícolas traduz uma sensibilidade que ainda não desvalorizou o campo e a natureza como objectos de atenção estética. Mas traduz também aquela que é uma constante nesta obra: o deslumbramento do homem do norte diante da natureza do sul — os frutos meridionais, a flora autóctone ou importada de climas tropicais (como os aloés), o reverdecer primaveril, o calor que propicia alterações nos comportamentos.
Transversal a todo o livro é a tendência para ler a paisagem em termos de construção humana, uma construção que tem no jardim (na natureza estilizada e estetizada) o termo de comparação privilegiado. A Itália que o autor percorre é, de facto, um jardim. Um jardim cuidado ou um jardim descuidado, um jardim íntimo ou um jardim público, um jardim dominado ou um jardim em estado bruto. Mas é também, e os mais de dois séculos de distância propiciam-nos uma nitidez de perspectiva vedada ao autor, um mundo que apesar de tudo não será, a vários níveis, muito distinto do idealizado mundo clássico.
Sobretudo, precisamente, ao nível das práticas agrícolas, aquilo que Goethe encontra na paisagem italiana (e que talvez não consiga ver, de tão naturais que parecem ser) são as reminiscências de um mundo rural que ao longo dos dois séculos seguintes irá desaparecer irremediavelmente — o trabalho não mecanizado, o uso dos animais de tracção como principal força motriz, o ritmo arrastado das estações como primeiro critério do tempo e da transformação. Uma persistência da Arcádia mitificada que de tão próxima talvez não lhe fosse, de facto, reconhecível como tal.




1. Johann W. Goethe, Viagem a Itália, trad. João Barrento, Relógio D’Água Editores, 2001, 44-45.
2. Idem, 266-267.
3. Idem, 350-351.