segunda-feira, 29 de março de 2010

Jorge Luís Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”


Desconfiar das palavras o suficiente para acreditar no mundo, desconfiar do mundo o suficiente para acreditar nas palavras. Será talvez isso a literatura, um mesmo movimento de afirmação e de recusa, de crença e de dúvida. Esta relação ambígua entre as palavras e o mundo é extensível a outras formas de modelar a experiência enquanto representação. A imagem fotográfica, por exemplo, supõe uma relação com o mundo que se define por uma paradoxal e simultânea afirmação da identidade e de produção da distância — ao mesmo tempo no mundo e fora dele, com o mundo e contra ele.
Todas as formas de modelação do mundo enquanto coisa humana supõem esta ambiguidade: exigem a remissão da representação para a coisa, mas implicam com a mesma força a consciência da sua intransponível dissociação. Sobre as cinzas dos projectos totalitários da ciência de raiz iluminista, é identificável na escrita de Jorge Luís Borges a consciência da natureza paradoxal da relação de representação:

«Sobre o Rigor na Ciência

…Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava uma cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo, estes Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as gerações seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade entregaram-no às Inclemências do sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.

(Suárez Miranda: Viajes de Varones Prudentes, libro cuarto, capítulo XIV, Lérida, 1658.) » 1

O mapa que coincide com a realidade que representa encena aqui os limites da representação. Não os limites ditados pela incapacidade da palavra ou da imagem em apreender o mundo e transpô-lo para os seus discursos, mas os limites interiores das próprias representações. O sucesso absoluto da representação significaria o seu fim, condenada, de então em diante, a esboroar-se num tempo privado de representações.
Ao tom decadentista que atravessa este texto não serão alheios os ecos do projecto hegeliano de produção do saber absoluto: a completa identificação entre a representação e o real produziria necessariamente a realização da representação, a negação da sua natureza representacional — o seu fim. Fim da arte, da ciência ou da história, a redução do mundo à sua própria imagem, ou às suas próprias palavras, implicaria a supressão destas enquanto experiência autónoma ou significante. A realização da representação não traduz aqui o questionar da realidade do real, mas o questionar da convencionalidade da representação. Fazer da palavra coisa, significa anular a distância sem a qual a palavra não vive.
Naturalmente que, para além da fé cénica na representação que subjaz ao texto de Borges, a narrativa exigiria a constância do próprio mundo: o discurso só poderia cobrir em absoluto a realidade porque esta escaparia à transformação.
Distintamente, aprendemos a desconfiar no mesmo plano das palavras e da realidade, das coisas e dos seus correlatos representacionais. Não apenas as palavras não são susceptíveis de coincidir com as coisas, como estas não coincidem consigo mesmas.



1. Jorge Luís Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”, in História Universal da Infâmia, trad. de José Bento, Assírio e Alvim,1982, 117.