quinta-feira, 4 de março de 2010

Nuno Dempster, Londres


 
O cruzamento entre o prosaísmo e o prosaico parece constituir o mínimo denominador comum da poesia portuguesa contemporânea. A uma escrita voluntariamente linear tende a corresponder um imaginário voluntariamente empobrecido, porque mergulhado num quotidiano quase sem exterior. As excepções serão tantas quanto esta regra, mas tal não invalida a percepção de que alguma da mais consciente poesia portuguesa recente se auto-limita numa espécie de receio das próprias palavras.
Por isso, e apesar de algumas opções discutíveis, o livro Londres 1, de Nuno Dempster, surge como uma curiosa proposta de alargamento do espaço da poesia recente: ao vocabulário e ao imaginário colados ao imediato e à experiência urbana junta-se uma encenação retórica de raíz romântica.
Uma quase ritualista invocação da viagem, personificada no avião, marca o início do longo texto que perfaz a totalidade do livro. Apresentada como um assumido movimento de fuga ao quotidiano, a viagem a Londres, parcialmente narrada no livro, constitui ponto de partida para um percurso não apenas pelo espaço físico da cidade, mas, fazendo desta lugar de confluência do próprio mundo (e na sequência do bulímico desejo do Ocidente de se apropriar do mundo e do passado através da musealização), também pelo imaginário comum da história e da arte. Nota-se a redução da vigem aos espaços previsíveis do roteiro turístico, e nem sempre o texto, enquanto escrita, consegue ultrapassar essa previsibilidade. Estes serão os momentos menos conseguidos do livro.
Aquilo que merece verdadeira atenção é o tom de exaltação retórica que atravessa o poema. Estamos por vezes diante de formulações muito fortes, servidas embora por meios que tecnicamente parecem (mas não são) óbvios ou imediatos. Veja-se:
«(…)
E na distância que vai de Convent Garden a Piccadilly Circus
cabe o mundo todo,
e a sede que tenho dele está ali,

toda ali,

reproduzida em milhares de rostos, em cabelos loiros
que esvoaçam no fim da tarde.

Aonde ides, aonde ides,
ó raparigas celtas, ó filhas de viquingues

Onde dormirão os vossos belos corpos,
os vossos seios em descanso, respirando,

como será a tepidez da vossa cama,
de que murmúrios nasce a penumbra da vossa intimidade?
(…)» 2

Nota-se neste texto uma força rítmica capaz de sustentar e cobrir a própria cedência a um vocabulário e a um imaginário aqui e além conscientemente próximos do kitsch:

«(…)
Ó corpos gloriosos que brilham em redor de Eros,

Picadilly Circus é um lago de náiades
e alimenta-se da fonte que nasce lá atrás,
em Convent Garden.

a montante os homeless
adormecem no desvão das lojas,
(…)» 3

A oscilação e o contraste entre a exaltação retórica do imaginário mítico e a agressividade prosaica da cidade contemporânea apoiam-se aqui no uso contrastado do vocabulário e na passagem quase insensível do ritmo marcado do primeiro verso (Ó corpos gloriosos, etc.) para o encadeamento prosaico dos versos seguintes. Este contraste é também aquele que se identifica na articulação entre a experiência íntima do espaço e dos outros e a percepção desse espaço, desses outros e da poesia que os diz, como coisa comunitária. Da exaltação do espaço público à solidão do quarto de hotel vai a distância que medeia a experiência imediata do mundo e dos outros e a necessidade de a produzir como palavra e representação.
Mais do que o espaço físico da cidade, avulta aqui o olhar que o percorre, avulta o entusiasmo mitificador da poesia como produção e representação da força simbólica do desejo e da descoberta. Avulta a afirmação da escrita e da arte como efectivo lugar de realização da viagem.

 
1. Nuno Dempster, Londres, & etc, 2010, (47 p.).
2. Idem, 11-12.
3. Idem, 19.