sábado, 20 de março de 2010

Nuno Júdice, Guia de Conceitos Básicos


«Sabe, disse N. do fundo de uma garrafa, sou de uma geração agressiva1

Apesar da afirmação, nunca a poesia de Nuno Júdice foi realmente agressiva. Inquieta, tensa, questionante, mas não agressiva. Ao longo dos anos tem sido perceptível um apaziguamento: o questionamento dando lugar à atenção, a tensão dando lugar a alguma coisa próxima da serenidade, a inquietação dando lugar ao auto-domínio.
O seu mais recente livro, Guia de Conceitos Básicos 2, prossegue sem aparente quebra ou descontinuidade um percurso de quase quarenta anos. É uma poesia sensível e consciente, mas frequentemente demasiado segura de si mesma para se expor ao risco e à invenção. É uma poesia extensiva. Todas as palavras estão lá, não há uma omissão, não há uma falha. Por vezes, sente-se a falta de um rasgo de inventividade, de uma sugestão de experimentação formal ou temática, alguma coisa de capaz de fazer da escrita um lugar de questionamento de si mesma.
Talvez por isso seja uma escrita nostálgica. Nostálgica mesmo daquilo que se enuncia como presente. Esta nostalgia não é lamento pela perda de qualquer estado ideal, mas pura consciência da transformação. Isto implica uma particular percepção do tempo, da sua passagem e da sua persistência enquanto memória actualizável pelas palavras. A poesia surge aqui como este espaço de actualização, não exactamente de representação ou de presentificação, mas de formulação de uma experiência que se realiza no âmbito da alusão mais do que da nomeação, da sugestão mais do que da apropriação pelo discurso. Veja-se aquele que será talvez um dos melhores textos deste livro:

«NUM BANCO DE COMBOIO

No banco da frente da carruagem de comboio
que me leva para a praia, por entre as faúlhas da
máquina e o vento, ela segurava a aba do chapéu
e olhava para o campo, deixando-me sem saber
o que pensar. Mas era isso que ela queria: que eu
não soubesse que estava sem saber o que pensar,
quando largava o chapéu e o vento o atirava
para o banco de trás, onde tinha de o ir buscar. Então,
a sua mão segurava os cabelos; e eu deixava que
o tempo passasse, entre apanhar o chapéu e devolvê-lo,
para que a sua mão lutasse contra o vento que lhe
soltava o cabelo. Mas quando o chapéu voltava ao seu lugar,
e ela me olhava, era como se os seus olhos estivessem
cheios com o brilho das faúlhas que saltavam da máquina
a vapor, e incendiavam a manhã em que eu ia para a praia,
nessa carruagem de madeira onde ela me deixou sem
saber o que pensar, até hoje, quando um vento súbito
lhe arrancou o chapéu da minha memória dela,
e os seus cabelos dançaram no ar sem
que mão alguma os segurasse3

Esta nostalgia supõe uma noção de representação que exige o distanciamento da escrita face ao leitor. A percepção do hiato entre um e os outros é condição de afirmação da legitimidade do próprio autor, mesmo que este surja encenado enquanto sujeito e enquanto discurso. Daqui resulta uma poesia que é quase indiferente a qualquer tentativa de sedução. É uma poesia que se dá com a indiferença de quem não presta atenção ao outro. É uma poética do conformismo: trata-se de uma poesia conformada consigo mesma, se não com o mundo.
Dizer conformismo será talvez uma formulação demasiado agressiva para uma escrita que não desiste de detectar indícios de uma ameaça interior, chame-se ela morte, sombra ou oxidação. Mas é adequado se pensarmos que subjaz a estes textos uma noção de poesia como espaço de observação do mundo — o olhar do poeta é mais o de espectador do que de participante. A poesia surge como registo desse olhar, de um olhar privilegiado que seria capaz de percepcionar aquilo que se oculta sob a superfície do mundo e das palavras:

«SOBRE A FORMA

Há uma questão que se coloca a quem trabalha
sobre a forma: onde está aquilo a que
se dá o nome de alma, ou espírito, quando
o que se tem pela frente não passa de
superfície, ou substância concreta,
da frase? É certo que as palavras
têm um significado preciso, e que
constituem um objecto que o homem
fabrica para comunicar, tal como faz o
pão para comer, ou o espelho para nele
se reflectir. Porém, as palavras também
alimentam, e uma frase pode reflectir
o rosto de quem escreveu, quando
o poético a envolve em sua névoa
subjectiva, É aí, com efeito, que algo
transcende a simples formulação material
das coisas. Porém, se a alma nasce
das palavras, como definir o que
habita o silêncio, o que emerge de
um instante em que só o olhar exprime
o que se tem de dizer, ou o gesto que
impede o artificio, para que os amantes
se concentrem na pura expressão do
que sentem? Por vezes, a alma é inútil;
e podemos acreditar que o corpo
basta para sabermos que estamos vivos,
para além do que se diz, das palavras,
e da beleza que elas criam quando
lhe damos a forma de um poema4

Este texto é todo um programa de uma noção de poesia e da relação desta com a própria língua. Mas há nele uma quase consciente deturpação do problema: a forma não é o suporte de uma qualquer transcendência ou profundidade, isso seria fazer dela estrito instrumento de mediação. Confundir a superfície com o superficial é reduzir o mundo ao espaço de revelação de alguma coisa que não é da ordem da experiência, é permanecer no interior de um dualismo que deturpa quer a corporeidade, quer aquilo a que o texto chama alma. Será uma opção, mas a poesia e as artes são precisamente o lugar da paradoxal coincidência entre o interior e o exterior, entre a superfície e a profundidade, pelo que a forma não é a máscara artificial sob a qual se escondem o mundo e o sentido: a forma é o espaço de realização daquilo que, não sendo formal, só existe nela e através dela.
A ambiguidade da resposta a esta questão é indício daquilo que talvez não esteja inteiramente resolvido na escrita de Nuno Júdice: a forma tende a neutralizar-se voluntariamente para se fazer suporte de um conteúdo que nem sempre é potenciado por ela. Isto produz por vezes alguma auto-complacência na aceitação de textos que, segundo os padrões de exigência definidos pelos melhores textos do próprio livro, seriam claramente prescindíveis.


1. Nuno Júdice, “A Procura da Evidência” (1972), in Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, 1991, 20.
2. Nuno Júdice, Guia de Conceitos Básicos, Publicações Dom Quixote, 2010, (135 p.).
3. Idem, 67.
4. Idem, 22.