quinta-feira, 8 de abril de 2010

e. e. cummings, já que sentir é primeiro


Seria simplesmente a pergunta errada. A resposta errada. Errados ambos, o ponto de partida e o ponto de chegada: a enunciação do desmentido sob forma de uma outra mentira, ou a recusa da palavra através da palavra. A experiência do mundo, enquanto desejo de apropriação, é sempre a experiência dos limites da consciência para actualizar ou realizar aquilo que é percepcionado como objecto de desejo. O mundo, os outros, ou nós mesmos, permanecem sempre exteriores. A literatura não é aqui instrumento de apropriação, é mais do que isso: é lugar de realização.

«já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor: Não chores
—o melhor movimento do meu cérebro vales menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

E a morte julgo nenhum parêntesis» 1

Se a escrita não é critério do mundo, surge como paradoxal a necessidade de transpor para o plano da palavra aquilo que é enunciado como irredutível a ela. Isto, que é a inscrição na palavra de alguma coisa que não cabe na palavra, significa ainda conceder à palavra a possibilidade de realização do real. Menos real do que o sentimento, menos real do que o corpo ou o desejo, possui no entanto a capacidade paradoxal de os realizar como coisa humana.
A simples enunciação da coisa como texto supõe ou exige a sua transposição para o plano onde o corpo já não é corpo (ou ainda não o é), o sentimento já não é sentimento, o sangue já não é sangue. Ou ainda não o são. Entre o já não e o ainda não abre-se o espaço de alguma coisa que a palavra primavera mal consegue cobrir. Alguma coisa que parece ser mais do que a estrita experiência do sentimento ou do desejo. A ameaça da morte não é, aqui, dirigida ao corpo, mas às palavras. É a ameaça do silêncio.


 
1. e. e. cummings, vi, in xix poemas, trad. Jorge Fazenda Lourenço, Assírio e Alvim, p. 39.