segunda-feira, 12 de abril de 2010

Giorgio Agamben, Defesa de Kafka contra os seus intérpretes



O que é ler um texto? Será a leitura um processo de decifração de estruturas semânticas, realizável enquanto transposição da complexidade de um encadeado frásico para o plano, igualmente complexo mas logicamente linear, de uma explicação?
Todas as entidades semânticas exigem, como condição de actualização, uma relação de interpretação; exigem um conhecimento mínimo das linguagens em que se produzem, e exigem a integração das representações propostas no interior de contextos histórico, culturais e outros. Enquanto entidades semânticas, as obras de arte não podem prescindir de relações de interpretação. Mas, diferentemente de enunciados de cariz científico, por exemplo, a realidade de um texto ou de uma imagem enquanto obra de arte não se reduz ao conteúdo de significação imediatamente produzido.
O “sentido” literário de uma narrativa ou de um poema não é redutível ao conjunto de enunciados mais ou menos expressos pelo próprio texto: qualquer que seja esse “sentido” (se este conceito ainda é operativo, de tão sobrecarregado que está de exigências hermenêuticas), ele produz-se na interacção entre a proposta do autor e a experiência subjectiva do leitor. Produz-se enquanto experiência: alguma coisa que ultrapassa a dimensão da interpretação de conteúdos semânticos, alguma coisa que pode passar pela inscrição daquilo que se faz resistência à explicação ou à interpretação como condição da própria experiência.
Privilegiar uma relação de interpretação não implica apenas uma menorização comparativa da dimensão experiência e uma sobrevalorização da dimensão semântica das obras - textos, imagens ou acontecimentos; implica, de facto, a negação ou desvalorização comparativa do próprio texto. Veja-se o registo extremamente irónico de Agamben:

«Defesa de Kafka contra os seus intérpretes

Sobre o inexplicável correm as mais diversas lendas. A mais engenhosa —encontrada pelos actuais guardiões do Templo ao remexerem nas velhas tradições— explica que, sendo inexplicável, ele permanece como tal em todas as explicações que dele foram e continuarão a ser dadas nos séculos vindouros. São precisamente essas explicações que constituem a melhor garantia da sua inexplicabilidade. O único conteúdo do inexplicável — nisto está a subtileza da doutrina — consistiria na ordem (verdadeiramente inexplicável): “Explica!” Não podemos subtrair-nos a esta ordem, porque ela não pressupõe nada de inexplicável, ela própria é o seu único pressuposto. Seja o que for que se responda ou não responda a esta ordem —mesmo o silêncio— será sempre de qualquer modo significativo, conterá de qualquer modo uma explicação.
Os nossos ilustres pais —os patriarcas—, não encontrando nada para explicar, procuraram no seu coração a maneira de explicar este mistério, e não encontraram para o inexplicável, nenhuma expressão mais adequada do que a própria explicação. A única maneira de explicar que não há nada a explicar —este o seu argumento— é dar explicações disso. Qualquer outra atitude —incluindo o silêncio— agarra o inexplicável com mãos demasiado desajeitadas: só as explicações o deixam intacto.
(…)» 1

Aquilo que se afirma como relação de interpretação conduz quer à sobrevalorização simbólica de um dado corpo literário, artístico ou outro, quer à sua implícita desvalorização, substituída ou encoberta sob a massa de discursos que sobre ela se produzem.
Ora, os limites de um texto fazem parte da identidade desse texto, as falhas de congruência lógica ou linguística fazem parte da estrutura lógica e linguística desse texto. Pretender reduzi-las ao plano da consciência implica negar parte da identidade da experiência que o texto propõe.
O que se escreve como inexplicável só o é se perspectivado pelo prisma da explicação. Só perante a exigência da produção do óbvio como nível de apreensão do mundo ou da arte se pode percepcionar a sua resistência como um negativo.
É possível pensar que a realidade das obras de arte (textos, sons, imagens, etc.) se manifesta na sua estranha capacidade para não serem apenas um termo de mediação de uma mensagem, ou de um conteúdo de significação. Aquilo que produz, por exemplo, a profundidade potencial de um poema é o movimento contraditório de uma experiência que apenas se realiza na sua estrita singularidade: o que um texto diz não é transponível para outro texto — é possível escrever outro texto acerca de um texto, mas será outro texto, e aquilo (o que quer que fosse) que o primeiro potenciava já não cabe no segundo, mesmo que este seja, enquanto experiência, potencialmente mais rico, denso ou questionante. Mesmo que a interpretação se inscreva no questionamento da interpretação, mesmo que a ironia tenha como resposta a própria ironia:

« Aquilo que não podia ser explicado está perfeitamente contido naquilo que não explica mais nada.» 2



1. Giorgio Agamben, "Defesa de Kafka contra os seus intérpretes", in Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Cotovia, 1999, p. 135-136.
2. Idem, 136.