sexta-feira, 30 de abril de 2010

Margarida Vale de Gato, Mulher ao Mar



Como arte, a poesia lírica é (ou é possível que seja, ou podemos tomá-la como tal, ou podemos exigir-lhe que o seja, ou podemos construí-la como tal) o lugar de uma experiência que ao mesmo tempo concita o privado e o partilhado, o subjectivo e o supra-subjectivo. É o lugar de afirmação de uma relação de identidade a partir da enunciação de uma irredutível diferença. Se a subjectividade do produtor e do leitor mutuamente se excluem e implicam como condição da actualização dos textos, a identidade produzida é menos um ponto de chegada do que a encenação da identidade pela demarcação das suas diferenças.
O livro Mulher ao Mar 1, de Margarida Vale de Gato, adopta de um modo consciente esta relação paradoxal entre o “eu”, o condicionamento subjectivo da voz e do olhar que se projectam como texto, e um “nós” que é ao mesmo tempo condição e obstáculo dessa e a essa subjectividade. Para além da relação entre a singularidade da voz que enuncia e a pluralidade potencial das leituras, o “nós” é aqui o de uma assumida pertença de género: Eu — escrita, voz, mulher. “Nós” — mulheres.
Dizer “nós” no interior de um texto literário supõe a possibilidade de encontrar um espaço de comunidade no interior da diversidade. Não parece hoje possível produzir um discurso inclusivo na primeira pessoa do plural que assuma o “nós “ como identidade do masculino. É certo que encontramos esta assunção do “nós” em reivindicações identitárias de cariz sexual, cultural, étnicas ou outras, mas trata-se frequentemente de construir e assumir uma identidade enquanto representação face a um discurso dominante que as teria excluído.
Mas não é o caso neste livro. É surpreendente a naturalidade com esta enunciação surge, como se mostra capaz de se constituir como texto para além desta estrita reivindicação identitária. Mais do que de construir uma identidade, trata-se de a questionar, de constatar a dissociação entre um eu que se diz como nós e um nós que não cobre nem apaga a singularidade do eu:

«RESSABIADAS

Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente
os mesmos em toda a parte, mas então
necessariamente as mulheres são mais.
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos.
(…) » 2

Aquilo que aqui se encena é também o movimento ambíguo de dissociação e de redução de e a uma imagem de mulher; uma imagem definida não necessariamente no confronto com o seu outro (o masculino), mas com a própria mulher. Um livro de temática análoga, mas produzido no masculino, traria quase inevitavelmente o corpo feminino enunciado como objecto de desejo. A postura é aqui muito mais subtil, o desejo afirma-se não exactamente através da enunciação do seu objecto, mas das relações no interior das quais se produz. Realiza-se não como estado, mas como processo; não como coisa, mas como movimento. Vejam-se poemas como “Psyché a Eros”, “Émulos”, ou ainda o espantoso “Senhora do Ó”:

«SENHORA DO Ó

            Faemina circundabit virum.
                  Jer 31:32

      

Sendo Ele o objecto do anelo
e o meu colo o sujeito que anelava,
em mim logrou a forma que buscava
e logo anel formou para contê-lo.

E a roda do tempo em mim se trava,
em mim se imprime e grava o eterno selo,
pois todo o meu Amado eu desejava,
esticando minha pele para acolhê-lo;

em mim Ele se move e tem repouso
e Ele é o varão, eu a donzela,
e Ele está em mim e eu estou n’Ele

e este é o mistério mais gozoso,
ser Ele a pedra dura que por dentro
circula e mergulha no meu centro 3

Quer pelo tema, quer pelo modelo formal, este texto pode inscrever-se numa tradição de escrita no feminino que nos remete para a analogia mística entre o desejo e o amor como amor do divino. Mas seria redutor entender este poema como a simples recriação desta tradição; trata-se, sobretudo, de afirmar uma relação com a identidade e o desejo que implicam de um modo simbolicamente central a ideia de maternidade: o irredutivelmente feminino. Mas, novamente, não há nisto nem a postura empobrecedora de estrita reivindicação de uma identidade, nem nenhuma forma de menorização do próprio olhar — nem o orgulho fácil de quem reivindica uma pertença que lhe é exterior, nem a submissão a uma ordem que se pretenderia superior.
Apesar da sua centralidade, este livro não se esgota na representação do feminino. Há uma interrogação sobre a memória e o modo como esta se pode inscrever na escrita, o modo como a escrita pode, ou não pode, constituir lugar de compreensão da experiência. No mesmo plano encontramos a interrogação acerca de uma identidade (a mulher) e uma forma de a realizar enquanto representação: a poesia. A pergunta pela escrita é a pergunta pela transposição, fértil e fecunda, da experiência do eu para a experiência das palavras:

«AINDA AMOR ME ALUI, FRIÁVEL CARAPAÇA

A mim que me julgava há tanto tempo seca,
Ó, tão íntima bênção — que a não esqueça
e a conserve — após o acto claro, após
o imenso espanto exacto, me fecunde

esta miséria funda, e assim desfeita,
guardando, grata, o quanto ampla fui

Que faço só poema onde haja dentro carne
e corpos prefiro que cubram como casas
Melhor ainda tendas, asilos fugazes
um ou dois furos, ventos, humidades, dádivas » 4

Para além da nitidez temática com que a própria dúvida se constrói, aquilo que sustenta a força deste livro é a mestria de construção textual. Note-se, por exemplo, o domínio do ritmo, de que a opção pela rima em alguns textos é apenas expressão; este domínio significa aqui a percepção da dimensão física do texto, a consciência de que a poesia não pode ser entendida como simples e imediato lugar de expressão de uma subjectividade, mas materialização de uma proposta de experiência das palavras — válida tanto quanto esta o for. Se aqui ou além se encontram versos que talvez pudessem ter sido mais trabalhados (e sem perderem a força da espontaneidade, esta que é, sabemos, sempre encenada), a grande maioria destes poemas revela uma forte autonomia e exigência crítica. Mais importante, a exigência crítica não conduz à autocensura, mas permite definir opções criativas que, conscientes ou intuitivas (ou conscientes e intuitivas) escapam aos lugares comuns da poesia, no feminino ou outra. Um livro notável.



1. Margarida Vale de Gato, Mulher ao Mar, ilustr. de Luís Henrique, Mariposa Azul, 2010,(70 p.).
2. Idem, 45.
3. Idem, 26.
4. Idem, 67.