segunda-feira, 26 de abril de 2010

Paulo da Costa Domingos, A Escrita





Face à humildade das palavras caligrafadas, a fonte tipográfica parece constituir-se como uma posição de poder. A arrogância do texto tipografado assenta na pretensão à verdade. Ali onde a caligrafia afirma a dúvida e a rasura, o texto tipografado tende a produzir-se como coisa acabada, como lugar de uma palavra sem retorno, ponto de apoio para qualquer autoridade. Por isto, deve ser vista como afirmação ideológica a opção de Paulo da Costa Domingos e da & etc por reproduzir no volume A Escrita 1 os fac-similes dos textos ortografados. Não há aqui nenhuma pretensão de fundamentar os textos num valor de origem garantido pela presença fundadora do autor. Há, ao contrário, o movimento consciente de desconstrução da autoridade do autor.
A poesia de Paulo da Costa Domingos assume-se como comprometida. Comprometida desde logo com a postura crítica de um autor que, ao longo de um percurso de mais de três décadas de intervenção intelectual, faz da palavra espaço de manifestação de uma radicalidade sem compromissos.
O livro A Escrita (como toda a literatura que merece esse nome) assenta na ambivalência entre o que é dito e o que pretende dizer, entre a opacidade das palavras enquanto palavras e aquilo que é construído como encadeado semântico. Se a literatura é sempre o exercício de tirar partido criativo da opacidade, do ruído interior a cada palavra, os textos de Paulo da Costa Domingos assumem a imperfeição própria de quem rejeita que a palavra possa constituir-se como posição de poder:

«Posto Móvel

 
Os operários da escolha desesperada
em magotes entram na cidade
pela via circular, de mala aviada
e trouxas feitas no desemprego e no abandono

de vales e serras. Pilares de húmus
homens do leme do antigo arado
atravessam o meu cérebro na errada
direcção, como um vento a rasgar.

Um pintor, que não de andaime, um poeta,
que não das letras, captam esse tornado
de desfeitos lares mas ainda não sabem
uma linguagem com que fixá-los:

na eventualidade de sobreviverem. Rápida
e fugidia é aqui a vida, como pólen levada
de pedra em pedra na esquina urbana,
que se espera árdua e deseja leve.

Os operários da escolha desesperada
em longas filas aguardam uma refeição
quente, a pensão de falsa invalidez, a metadona,
vestuário usado embebido no perfume

da usurura e no grito bipolar do tédio. Assobio,
apesar de tudo, na ausência de um propósito
deste meu governo e na falta de escrúpulo
e na exigência de voluntária servidão.

Um pintor, um poeta, também eles na eventual
sobrevivência, aposta já - derradeiro trunfo
de casino - seu fracasso, sua má sorte:
palavras, sinais, sílabas caídas em saco roto.
(…)»2

Mais do que a postura da denúncia (que rapidamente redundaria na estrita subordinação do texto à função), encontramos aqui a formulação da escrita como lugar de questionamento: questionamento do olhar e dos seus pressupostos, questionamento da coisa e dos seus pressupostos, questionamento das representações e dos seus pressupostos. A simpatia explícita para com os deserdados de uma ordem que a si mesma se faz critério do seu sucesso significa aqui a possibilidade de produzir a dúvida enquanto experiência da dúvida. Não há nisto a postura salvífica de quem supusesse ser suficiente enunciar a margem para produzir a transformação.
Encontramos, no entanto, opções de escrita que por vezes parecem ameaçar a eficácia dos textos: ao movimento de recuo crítico do autor face ao real (ou, numa outra formulação, a consciente produção de um excesso de proximidade) nem sempre corresponde um correlativo movimento de distanciamento face às próprias palavras. Se o discurso é, por vezes, voluntária e conscientemente ingénuo, voluntária e conscientemente pobre, em outros momentos deparamos apenas com o facilitismo de pretender que a coisa tem de ser dita nos seus próprios termos, transpondo para o discurso do texto o regime discursivo do objecto. Tal conduz, por vezes, a sacrificar a inventividade à sem surpresa de um discurso automático.
Isto será, talvez, consequência de uma convicta opção estética: atravessa este livro a tensão entre a escrita que diz o mundo e irredutibilidade do próprio mundo — não apenas a representação não é capaz de o dizer, como dizê-lo não é sinónimo aceitação simbólica da sua ordem subjacente. Aquilo que vem antes e aquilo que vem depois coincidem, por um momento e de forma paradoxal, na consciência dos seus próprios limites, sem o cinismo dos acomodados, mas sem ilusões:

«(…)

8.
E os poetas andam por ali, seu jardim é a
aflição: universal.
São eles os últimos pássaros
nos galhos que não existem, na origem
do crime lá estão eles, por insustentável
contradição entre a lei e o desejo. Andam-andam,
oferecendo a faca, o impulso e o motivo,
inaceitável que está o mundo. A si chamam
de todas as folhas caídas, de todas as humilhações
infantis, sexuais ou rácicas: a recolha do lixo.
Onde a escrita ou a literatura
não sejam condição sine qua non.

E levam consigo a palavra,
brasa até ao desconhecido: cem anos
é ao virar a curva da estrada.
O rosto da arte num vão de lar
par’a terceira idade, terra sem amos
aquela que os espera.
Congregam a doçura, alegadamente;
uma moeda sua pode dar corda
ao realejo da vida. Mas o lençol
da urina do real tem
na lucidez do instante
seu único optimismo.»3

Enunciar o mundo ainda é enunciar aqueles que o poderiam dizer, enunciar aqueles que, dizendo-o, talvez o pudessem subverter. Mas permanece a questão:
Pode uma representação transformar aquilo que representa? Pode aquilo que é produzido no âmbito de uma linguagem fazer-se instrumento de transformação da coisa? Pode a poesia ser lugar de comprometimento? Afirmar que nos três casos a resposta é positiva não acrescenta quase nada à própria pergunta. A questão não é saber se sim ou se não, mas como: como pode a arte ser lugar de transformação?



1. Paulo da Costa Domingos, A Escrita, & etc, 2010, (54. p).
2. Idem, 23, 24.
3. Idem, “Os Mensageiros”, 54.