domingo, 16 de maio de 2010

Hélia Correia, Adoecer



O que é que na arte há de empenhamento pessoal, o que é que nela há de condicionamento social? Por que é que se escreve? Por que é que se pinta? Várias perguntas, muitas mais respostas.
Quaisquer que estas sejam, decorrem sempre da noção de arte e de criatividade que lhes esteja implícita. Uma possibilidade de resposta (de uma resposta) seria assumir que aquilo a que chamamos arte radica numa tentativa de apropriação do mundo pela mediação simbólica da representação. Uma tentativa de apropriação que passa, em larga medida, pela construção do objecto de desejo. Pela sua construção e pela consciência da impossibilidade de apropriação.

Adoecer 1, o último romance de Hélia Correia, coloca-nos diante da biografia ficcionada de Elisabeth Siddal, modelo, pintora e poetisa, figura secundária dos Pré-Rafaelitas, cuja relação como o movimento é impulsionada pela sua relação com Dante Gabriel Rossetti, uma das suas principais figuras. É um romance sobre arte e artistas, onde as questões acima enunciadas recebem não exactamente uma resposta, mas a possibilidade de se enunciarem como interrogação.
O livro oscila entre a definição da identidade biográfica e psicológica da protagonista e a caracterização do contexto social, ideológico e artístico em que ela emerge: — É um romance sobre uma mulher, mas também sobre o lugar das mulheres na arte e na sociedade inglesa de meados do século dezanove. — É um romance sobre a artista, mas também, ou sobretudo, sobre o conjunto dos Pré-Rafaelitas. — É um romance sobre uma relação afectiva de contornos quase patológicos, mas é também um romance sobre uma estética que, herdeira do romantismo, antecipa de forma paradoxal o decadentismo da segunda vida dos Pré-Rafelitas.

Hélia Correia alcança neste livro um rigor de escrita com muito poucos, ou nenhuns, paralelos na literatura portuguesa contemporânea. Estamos diante de uma escrita clara, nítida, capaz de conciliar a sensibilidade e a espessura do texto, o rigor e a inteligência de análise.
O comprometimento do olhar em termos de questões de género ou sociais fornece a Hélia Correia uma acuidade perceptiva que põe em relevo a complexidade inerente às próprias questões. A acutilância da análise social ou psicológica permite evitar reduzir as personagens a tipos, a exemplos de um género ou de uma classe. Nada é, em momento nenhum, evidente ou linear, a constante reformulação psicológica do perfil das personagens é sintoma disso mesmo: a única possibilidade de narrar um processo (uma vida) é assumir a sua mutabilidade. Veja-se uma passagem algo secundária no livro (trata-se de definir um negativo de onde vai emergir a personagem de Elisabeth Siddal), mas que é aqui modelar quanto à forma como a autora constrói o contexto histórico e social: assumindo a humanidade de cada indivíduo:

«Não existia, por assim dizer, vida total numa criada de servir. Não era um animal. Sabia odiar e fazia-o com zelo e com astúcia, mas quase sempre sem consequência. Poucos assassinatos se conhecem. Se de chantagem, como a nossa Juliana, se alimentavam muitas, não sabemos. Naturalmente, conservava-se em segredo. Mas entravam pequenas para a casa e logo então curvavam a cabeça, contendo nessa curva o seu terror. Não se tratava de uma profissão mas de uma aparelhagem de tormento que as esperava desde que nasciam, armada por um jogo de castas sem disfarce. Por alguma razão pouco figuram na iconografia dessa época. Pelos seus corpos, quase transparentes, passavam sujidade e alimentos para ressurgirem transformados em limpeza, em refeições que fumegavam. E, se riam, ao partilharem enxergões nas caves, tendo rezado um pouco no chão gelado, era de puro espasmo adolescente.
As mulheres pobres que, ainda assim, podiam voltar todas as noites para casa e conversar à mesa de família arriscavam, com isso, corpo e alma. (…)» 2

Repare-se que a caracterização do “contexto” que frequentemente condena irremediavelmente muitos romances (pela incapacidade de transposição do plano da informação para o plano da produção narrativa da sua relevância) realiza-se aqui de um modo exemplar. Em muitas páginas parece tratar-se apenas de narrar de forma elementar aquilo que aconteceu — ora, e de um modo muito consciente, trata-se de construir uma versão daquilo que aconteceu ou pode ter acontecido, sem que em nenhum momento a escrita se esgote numa dimensão funcionalista. Este registo falsamente neutro da escrita potencia a profundidade analítica da abordagem, dado que esta se constrói sobre a própria ficção da objectividade.
Apesar de algumas quebras na linearidade cronológica, o livro cobre o nascimento dos Pré-Rafaelitas enquanto movimento artístico e a gradativa introdução de Elisabeth Siddal, primeiro como modelo, depois como aprendiz, amante e esposa de Dante Gabriel Rossetti. De um modo central, acompanha a biografia de Elisabeth desde 1850, no início da sua actividade como modelo, até à sua morte em 1862.
A personagem surge aqui com a complexidade de uma intimidade que nunca, e apesar do aparato analítico, chega a ser desvendada. Parte do mérito do romance reside nesta voluntária margem de sombra em que a personagem permanece envolta. Mas é, talvez, também aqui que ele não cumpre aquilo que promete: repetidamente secundarizada face à atenção prestada aos principais artistas do movimento, ela esbate-se, menorizada não apenas em termos artísticos, mas sobretudo psicológicos. Não há construção da densidade psicológica que a personagem exigiria. Ou antes, ela está lá, mas demasiado dispersa para que possa funcionar como catalisador da espessura narrativa. Hesitando entre centrar-se em Elisabeth Siddal e em fazer desta um pretexto para apresentar os Pré-Rafaelitas, o romance acaba por secundarizar a protagonista.

O livro, que é muito bom, poderia ser verdadeiramente excepcional. À escrita exemplar faltou um rasgo na estrutura diegética que potenciasse o pathos da própria personagem. Ao colar-se a um fio cronológico que se arrasta ao longo de mais de dez anos, a autora privou-nos quer da surpresa, quer da expectativa. Não há um sobressalto rítmico capaz de potenciar o envolvimento e a própria claridade da escrita.
Mas, sobretudo, e página após página até que já se desista de o esperar, falta uma efectiva reflexão sobre a arte e a criatividade: O que é que na arte há de empenhamento pessoal? O que é que na arte há de condicionamento social? Por que é que se escreve? Por que é que se pinta? Estas ou outras questões parecem evitadas num romance reflexivo o suficiente para as acolher. Estamos no meio de artistas, estamos diante de uma protagonista que é arrancada do quase submundo social londrino para se entregar de corpo e alma à pintura e à poesia, e no entanto não parece haver sequer a tentativa de formular um olhar aprofundado sobre a criatividade. Não se trataria de procurar explicar, mas abrir vias de compreensão. Este livro produz o cenário, não realiza o drama.
O que é que, no percurso biográfico de Elisabeth Siddal, é resultado da exclusão social ou de uma consciente limitação criativa? O que é que na arte é produto da determinação consciente, o que é que é resultado do acaso? Por que é que aquilo a que chamamos criatividade se impõe com a força de um desejo não realizado? Faltou afirmar a consciência de que a identidade do artista ou do escritor não é um dado, mas resultado do processo através do qual ele tenta construir instrumentos de apropriação do mundo, construir o mundo. Seja essa identidade de género, de classe, psicológica, ou outra.



1. Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água, 2010, (291 p.).
2. Idem, 35.