terça-feira, 4 de maio de 2010

Herberto Helder, “Poeta Obscuro”






Na trigésima das suas “Sentences on Conceptual Art”, Sol LeWitt afirma: “Há muitos elementos envolvidos numa obra de arte. Os mais importantes são os mais óbvios.” 1 Admitamos a pertinência da observação: enquanto postura prospectiva, a criação artística não pode ignorar a força do óbvio.

Todo o trabalho criativo implica a tentativa de, através da obra (coisa ou imagem, texto ou som, etc.), condicionar a experiência do receptor — dizer-lhe o que ver e como ver, o que ler e como ler. Nessa medida, tentar antever em termos criativos as condições de recepção de um trabalho permite potenciar a proposta de experiência. E aqui o óbvio tem a força daquilo que se impõe por si mesmo.
Não se trata de fazer a apologia do óbvio como regime de criação das obras de arte, mas de reconhecer a sua importância e a sua complexidade. Como quer que ele se produza, o óbvio não é o imediato, mas o construído — é o resultado do cruzamento entre aquilo que é proposto como experiência e aquilo (raramente o mesmo) que é recebido.
Para ser evitado ou para ser potenciado, o óbvio deve, no plano criativo, ser antecipado como instrumento de condicionamento prospectivo da recepção. Mas será distinta a sua operatividade ao nível da estrita recepção. Poderá o óbvio constituir instrumento de interpretação de uma obra? A resposta é inevitavelmente afirmativa: diante de um texto, aquilo que cada receptor entende como o óbvio (e que pode não coincidir com aquilo que foi pensado pelo autor) é o primeiro plano em se produz a experiência de leitura. Mas a recepção não se esgota neste plano, para além dele, existem níveis de experiência e compreensão que devem contornar o óbvio ou pelo menos admitir a sua complexidade. Veja-se o conto “Poeta Obscuro” de Herberto Helder:



«Acerca da frase — «Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.» — julgo haver alguma coisa a explicar. Para já não sei onde a li, se a li, pois bem pode ser que ma tenham referido e uma frase referida, não lida, torna-se menos do seu autor. Tracei-a a lápis na parede em frente da cama. Estava sempre a vê-la. Isto à noite, no meio da noite, quando de súbito abria a luz e dizia para mim mesmo: — Não estou cego. — Ou quando, acordando bastante tarde, verificava com surpresa que não tinha morrido durante o sono. Sofro destes tormentos da imaginação ou da sensibilidade desordenada. Neurose. «Faz com que eu seja sempre um poeta obscuro. » (…) »2



De que obscuridade fala Herberto Helder? Da obscuridade da vida ou da obscuridade da obra? Uma obscuridade social ou uma obscuridade semântica? Exigirá a obscuridade social o não reconhecimento da obra? Exigirá esta a obscuridade semântica?
A obscuridade é o oposto da suposta evidência e previsibilidade do óbvio — a obscuridade daquilo que se ignora, a obscuridade daquilo que se furta à percepção, a obscuridade daquilo que só existe no plano do indeterminado. Mas ler um texto ou ver uma imagem é sempre procurar produzir um mínimo de determinação. Esta determinação começa pela identificação na obra dos elementos susceptíveis de serem tidos como claros e a partir dos quais é possível ancorar a recepção; ou seja, começa pelo óbvio. Ora, este pode fundar-se não na evidência, mas na indeterminação.
No caso do conto de Herberto Hélder, surge clara a impossibilidade de determinar um sentido estrito para o seu texto: numa dimensão prospectiva o percurso pessoal do autor parece justificar a interpretação da obscuridade como do âmbito da não visibilidade social; mas a mesma dimensão prospectiva terá de admitir, face à sua obra, a obscuridade como categoria semântica. Não será igualmente operativo fazer apelo a uma possível intenção do autor: qualquer que tenha sido a sua intenção inicial, ela não parece ter sido transferida de forma operativa para o texto. Pelo contrário, ao longo do conto o questionamento da figura de Deus (o grande autor, mas também o grande leitor) obriga ao questionamento da escrita como lugar de determinação do sentido e ao questionamento da leitura como reconhecimento dessa determinação.Obriga à desautorização do autor e à desautorização do leitor. Obriga à desautorização do óbvio.




1. Sol LeWitt, “Sentences on Conceptual Art”, in Harrison & Wood, Art in Theory, 1900-2000, Blackwell, p. 837-839.
2. Herberto Helder, “Poeta Obscuro”, Os Passos em Volta, Assírio e Alvim, p. 167.