domingo, 30 de maio de 2010

José António Almeida, Obsessão




São urbanas as representações dominantes da cultura contemporânea. É urbana a vivência predominante, é urbano o olhar lançado sobre o mundo.
Não é nova a relação entre a arte e a cidade. Como a conhecemos, a arte é por excelência um produto da cidade: implica, tal como a ciência, a concentração demográfica (e de riqueza) capaz de produzir a procura e a oferta; implica a existência de comunidades de produtores e de receptores aptos a interagirem criticamente; implica a presença de linguagens complexas, alicerçadas no desenvolvimento de tradições capazes de potenciar a emergência de representações qualitativamente exigentes.
Sem questionar a efectiva centralidade da cidade (das cidades, num movimento cada vez mais plural e mais atópico), a contemporaneidade técnica veio pela primeira vez pôr em causa a centralidade física do espaço urbano: o acesso à informação e às representações complexas não exige a presença física no espaço urbano. Permanece, no entanto, cada vez mais presente a força simbólica das representações de matriz urbana: quase não há outro olhar sobre o mundo que não seja esse.
Já há décadas que em múltiplas disciplinas a arte portuguesa tem muita dificuldade em produzir representações fortes de experiências que escapem ao imaginário urbano. A tendência é a de, perspectivando o território a partir da cidade (e, acrescidamente, a partir de Lisboa), olhar para o resto não exactamente como a paisagem, nem sequer como o seu outro, mas apenas como simbolicamente desprovido.
Existirá na contemporaneidade um imaginário de raiz não urbana?; um imaginário do interior do país que não reproduza os estereótipos do “provinciano”?

O livro Obsessão 1, de José António Almeida, não tem exactamente estas questões como centrais. A questão é, de um modo muito imediato e como em anteriores livros do autor, um imaginário de raiz homossexual. Esta temática surge contextualizada no espaço do interior do país e de uma vila do sul: seria, se a perspectivássemos a partir do privilégio da norma (a metrópole ou a heterossexualidade, enquanto vectores dominantes) um diálogo de diferenças ou de excluídos.
Ora, tematicamente, o mérito deste livro é o de evitar a vitimização ou a afirmação de uma identidade definida pela sua diferença. Qualquer destas identidades não é medida pela sua distância ou proximidade face a qualquer centro simbólico:

«A PROVÍNCIA

esse vizinho que do parapeito
da minha janela faz prateleira
da garrafa de água, do trapo sujo,

com que limpa o casco do seu bezerro
de ouro, velha traquitana que nunca
dorme na sua mas em mina porta

— eis aquela província que não muda.
Sobreviver de pedra e cal à beira
disto: diário gesto repetido

com a mesma persistência das aves
a construir o ninho no beiral.
assim trapo sujo no para peito

dessa minha janela transformada
por vontade campestre e “natural”
— como tudo, na vila, desde sempre2

Reconhecer identidades é, em qualquer caso, produzir a diferença — aquilo que em cada momento está em causa é saber qual é o termo de comparação face ao qual essa identidade é definida: defina em perda face àquilo que não é (a cidade, ou a sexualidade dominante), ou definida afirmativamente face a si mesma e na recusa de relações de domínio. Esta província, ou esta sexualidade, não é melhor nem pior do que qualquer outra coisa, nem sequer do que a sua própria imagem.
Note-se o texto seco e despojado de sobrecargas semânticas. Esta é uma escrita sintacticamente quase desprovida de marcas identitárias: a sua força reside nessa quase neutralidade linguística. A contenção não é inibidora, nem resultado de autocensura verbal, trata-se apenas de, estrategicamente, neutralizar o uso literário para potenciar aquilo que é proposto como poesia. O saber-fazer inerente a esta escrita permite a opção por um registo próximo do prosaísmo, o que lhe confere uma notável força expressiva. Leia-se aquele que será o texto central deste livro:

«RECAPITULANDO

A casa foi pintada de branco,
a vila amanhece como dantes,
nenhuma rua foi alterada:
ali fica a farmácia, acolá
no mesmo sítio de sempre está
a igreja matriz com o sino,
os seus ponteiros não atrasaram
nem adiantaram um minuto.

a casa está vestida de branco
assim bolo de noiva sem noivo,
sempre noiva sem vestido, nua
e branca, pelo noivo cuspida
no palco da vila convidada
cruel a observar a injúria
grafada a tinta azul na fachada
na noite da véspera do dia.

A casa foi pintada de branco,
por debaixo ficou aquele
encoberto fresco com “pedófilo”.» 3

A força deste texto reside na sua capacidade para construir uma imagem de estabilidade no interior da qual emerge a última palavra, quase congruente com essa estabilidade, apesar de lhe ser irredutível. Aquilo que se produz como acontecimento perdura como memória e como acontecimento, aquilo que se produz como memória perdura igualmente como acontecimento — cada um deles ao mesmo tempo antagónico e semelhante na sua diferença. Este poema, de uma secura exemplar, transporta a experiência particular (e subjectiva) para o plano daquilo que é susceptível de ser tido como experiência comum.
E é precisamente a ideia de comunidade que aqui está encenada. A vila (como o poderia ser a cidade) é o espaço da comunidade possível: aquela que põe em comum aquilo que não é susceptível de ser reduzido ao enunciado unívoco da sua própria identidade. Um livro que, mais uma vez, demonstra que a literatura portuguesa não se esgota em meia dúzia de nomes mais mediáticos.

 




1. José António Almeida, Obsessão, & etc, 2010, (56 p.).
2. Idem, 41.
3. Idem, 34.