sábado, 8 de maio de 2010

Miguel-Manso, Santo Subito


Na assimetria entre o autor e o leitor, aquilo que este lê é inevitavelmente desfasado daquilo que o primeiro escreve. Tal como são, provavelmente, desfasadas as posturas subjectivas que conduzem à escrita e à leitura. Uma remete para a outra, e a escrita está dependente da leitura, mas mesmo o reconhecimento da dimensão construtiva da recepção não permite afirmar a indiferenciação dos planos: de um lado há uma relação de reconhecimento de uma proposta de mundo (a leitura), do outro há a tentativa de produzir mundo no interior de uma linguagem. Por isto se torna decisivo pensar a relação com a escrita como um problema de modelação da linguagem: produzir uma marca autoral é antes do mais definir os instrumentos operativos da própria escrita, modelar a linguagem segundo coordenadas capazes de corresponderem à subjectividade do olhar do autor.
O mais interessante do livro Santo Subito 1, de Miguel-Manso, é percepção de (e apesar dos livros anteriores) estarmos diante de um autor à procura de uma voz, tacteando a linguagem em busca de um registo adequado, experimentando as palavras, mesmo que essa experimentação passe pela apropriação de ecos mais ou menos reconhecíveis de outras vozes para neles inscrever uma diferença de uso, de tom, ou de objecto. O plano em que este trabalho se situa não é, no entanto, o de uma estrita aprendizagem, mas o de uma autonomia em construção — uma construção à qual subjaz um efectivo impulso criativo.
Esta é uma poesia da experiência. Não se reduz a ela, mas tem nela o assumido ponto de partida. Em muitos textos encontramos a estratégia comum a muita poesia contemporânea de transpor para o texto as memórias a experiência íntima: o uso predominante do pretérito imperfeito, a reconstrução de um fio narrativo apenas sugerido, a formulação de um destinatário retórico que é, ao mesmo tempo, o protagonista daquilo que é objecto de recordação. Mas predomina neste livro aquilo que poderíamos designar como um registo culturalista de tom irónico ou crítico que, nos seus melhores momentos, consegue produzir nas meia dúzia de frases de um texto de aparente superficialidade uma apreciável densidade semântica:

« KARL MARX (1818-1883) — FRIEDRICH ENGELS (1820-1895)

não pedirei que entrem, desta vez, numa
taberna soturna em Antuérpia

inundada de marinheiros e prostitutas
sentemo-nos antes em diurna e asseada casa
de chá, num bairro inocente
de Bruxelas

as personagens destes versos são os autores
de um manifesto publicado, com razoável sucesso
em mil oitocentos e quarenta e oito, em Londres
e um ilustre pirata americano de nítida
inclinação socialista

que, anos antes
terá aí conhecido e feito amizade com os dois
filósofos e pago, mais tarde, do seu erário
as despesas da primeira edição » 2

Repare-se como, no interior de uma estrutura narrativa menos do que esboçada, se inscreve a invocação simbólica dos dois autores, sem que qualquer exercício de argumentação produza, de facto, um desenvolvimento das premissas da construção narrativa.
Mas nem sempre, neste livro, o registo culturalista é tão bem conseguido. Se esta é uma poesia que nasce da experiência imediata (mesmo quando mediada pela memória), o culturalismo surge por vezes como forçado face essa mesma experiência. É certo que o espaço cultural contemporâneo é cada vez mais construído enquanto experiência de representações, pelo que a inscrição do representacional (a música, a literatura, a filosofia, a pintura, etc.) não compromete a ideia de que estamos perante uma poesia da experiência. No entanto, aquilo que é produzido é, em alguns momentos, apenas o comentário a essa experiência, sem que o correlato poético possua a força para a incorporar ou desconstruir, seja num registo crítico ou noutro. Acresce a tendência recorrente de remissão da vida para o plano da escrita e da poesia:

«NADA

desde onde o poema começa
até onde o poema termina » 3

Estamos ainda diante do mesmo caminhar em círculos da poesia que auto-reflexivamente interroga (retoricamente) a ideia de poesia. E sobretudo há, como este, alguns textos que talvez não merecessem a publicação: não porque sejam exactamente maus, mas porque não parecem suficientemente bons. Resulta daqui um livro desigual, onde a força de alguns textos se esbate diante de outros de rigor questionável ou que teriam justificado um desenvolvimento que lhes aprofundasse a espessura.



1. Miguel-Manso, Santo Subito, Edição do Autor, 2010, (136 p.).
2. Idem, 31.
3. Idem, 49.