domingo, 23 de maio de 2010

Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge



« 11 de Setembro, rue Toullier.

É então aqui que as pessoas vêm viver; eu antes diria que é aqui que se morre. Hoje saí. E vi: hospitais. Vi um homem que cambaleava e caiu. Juntaram-se pessoas em volta, e isso poupou-me o resto. Vi uma mulher grávida. Arrastava-se pesadamente ao longo de um muro alto e quente a que por vezes lançava a mão apalpando, como para se certificar de que ainda lá estava. Sim, ainda lá estava. E por trás dele? Procurei no meu plano: Maison d’Accouchement. Bem. Partejá-la-ão — é coisa que se sabe fazer. Mais adiante, rue Saint-Jacques, um grande edifício com uma cúpula. O plano indicava: Val-de-grace, Hôpital Militaire. Não precisava propriamente de o saber, mas não faz mal. A viela começou a cheirar por todos os lados. Cheirava, tanto quanto se podia distinguir, a iodofórmio, à gordura de batatas fritas, a medo. Todas as cidades cheiram no Verão. Depois vi uma casa singularmente cega, cega de gota serena; não estava registada no plano, mas por sobre a porta via-se ainda bem legível: Asyle de nuit. Ao lado de entrada estavam os preços. Li-os. Não era caro.» 1

Publicado em 1910, num século XX ainda preso ao mundo de oitocentos, este livro é o registo de um tempo que olha nos olhos o seu próprio medo e o transforma em texto e representação. Lugar de aprendizagem do olhar e da escrita, muito pouco ou quase nada daquilo que o século produzirá em termos literários conseguirá alcançar esta profundidade e esta penetração do mundo pelas palavras.
Cem anos após a sua primeira publicação em alemão, o livro revela-se na contradição íntima e constituinte entre uma modernidade que se anuncia e a nostalgia de alguma coisa que a modernidade comprometeu; na contradição íntima e constituinte entre um olhar que se constrói enquanto eu e a presença ameaçadora e inultrapassável do olhar dos outros; na contradição íntima e constituinte de uma identidade que se projecta na escrita e a consciência da irredutibilidade do mundo às palavras.
Os Cadernos de Malte Laurids Brigge coloca-nos, como poucos ao longo do século XX, diante do movimento paradoxal da simultânea construção e desconstrução da individualidade enquanto princípio de individuação. Fá-lo com uma linguagem que tem tanto de duro e de analítico, quanto de sensível e delicado; a linguagem de quem tem a consciência de que aquilo que se diz enquanto escrita nunca ultrapassa o tamanho do modo como é produzido nas palavras.
É um livro de formação, um livro do final da adolescência — já não o momento da descoberta, mas o da consciência dos limites da própria descoberta. Depois deste livro, textos como (por exemplo, e reportando-nos a uma obra com a qual partilha muitas afinidades) o Livro do Desassossego surgem de uma quase confrangedora banalidade. Espantoso exercício de afirmação de fé na escrita e nos seus limites, o romance de Rilke surge como instrumento senão de redenção, pelo menos de reconstrução da sua impossibilidade:

«Este jovem, este estrangeiro sem importância, este Brigge, terá de se sentar no seu quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e isso será o fim.» 2

Na tradução de Paulo Quintela, este é um dos mais importantes livros em língua portuguesa do século XX.





1. Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, versão portuguesa de Paulo Quintela, Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1955, p. 3. (Reedições posteriores nas edições O Oiro do Dia).
2. Idem, 24.