domingo, 27 de junho de 2010

Ernst Jünger, Eumeswil


 

«O anarca, que não reconhece nenhum governo, mas que também não se deixa levar, como o anarquista, em devaneios paradisíacos, goza por isso mesmo de perspectivas neutras de observação. O historiador que nele existe vê entrar os homens e as forças na arena como um membro do júri. O tempo corrói qualquer potentado, e os bons com mais prontidão ainda.» 1



Nenhuma ordem pública se constrói sem condicionar a acção individual. É neste conflito entre a lei e a liberdade que Ernst Jünger desenha a figura do anarca: aquele que afirma a sua liberdade não pela ou contra a lei, mas apesar da lei. Qualquer que seja a lei.
A figura do sujeito que emerge deste livro é uma afirmação da intimidade do eu como o último e único reduto de liberdade. Por isso se mostra indiferente quanto à sempre circunstancial organização do estado: não será neste ou contra este que o indivíduo se afirma, será nas suas margens, na impenetrabilidade de uma reserva sem concessões.
Se o cinismo consciente de Ernst Jünger poderá ser lido como uma tentativa de reconstruir literariamente o seu próprio percurso biográfico, ele é sobretudo manifestação de uma desconfiança quanto aos modelos de história herdados da modernidade.
Nas suas diferentes versões, a modernidade de raiz iluminista traduz uma enorme confiança no homem e na sua capacidade de manipular ou fazer corpo com o tempo para conduzir a história num projecto de emancipação. É esta confiança na natureza revolucionária da própria história que as últimas décadas do século XX vão perdendo, à medida que o projecto moderno se faz ele mesmo questão.
Há outras modernidades, para o mal ou para o bem não vinculadas a esta tradição. Mas foi à sombra desta que os dois últimos séculos se construíram, e foi por ela ou contra ela que a paisagem cultural e política do século XX de ergueu, se desmoronou e se reergueu das cinzas.
É, em parte, do meio destas cinzas que este livro nasce. Datado de 1977, quando o autor já tinha mais de oitenta anos, o romance delineia um mundo pós-histórico onde todas as formas de organização política e cultural não são mais do que ecos de um muito gasto tecido histórico. Apesar de não evitar a estetização da decadência, aquilo que e ressalta é uma implícita teoria da cultura: ao definir-se negativamente face ao que perdeu (no mínimo, a esperança), põe em relevo a espessura do tempo, da história e da civilização.
Neste esgarçado tecido cultural, a reserva interior do protagonista (historiador e barman do tirano de serviço) constitui a única forma de consciência que não cede nem à ilusão dos ideais, nem à desilusão da decadência. Isto implica, enquanto postura política, o desistir de qualquer desejo de intervenção sobre o tempo e sobre a história. Mais do que o romper do tecido histórico, algures num passado indeterminado, é o distanciamento proporcionado pela visão do historiador que fundamenta o cinismo do protagonista. De forma paradoxal, é essa clarividência histórica, o reconhecimento da inutilidade de qualquer gesto, que fundamenta a inocência de afirmar a reserva ou o retiro na floresta como a última fronteira da liberdade.
Mas nem a possibilidade da fuga, nem a intimidade da consciência, escapam à natureza social e histórica da experiência do mundo. A consciência do condicionamento é condição da sempre frágil ficção da liberdade. Quaisquer que sejam os princípios, nenhuma posição é politicamente neutra. Nenhuma postura pública é politicamente descomprometida. Nenhuma posição de poder é inocente, nem mesmo o cinismo.






 



1. Ernst Jünger, Eumeswil, trad. de Sara Seruya, Editora Ulisseia, s/d, p. 149.