quarta-feira, 23 de junho de 2010

Luís Quintais, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro


O problema dos detergentes com aroma de flores é que, ao fim de algum tempo, se corre o risco de que as flores comecem a cheirar a detergente. O problema da poesia que soa a poesia é que, ao fim de algum tempo, se corre o risco de não distinguir o gesto da pose.
Luís Quintais regressa com um novo livro, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro 1, que pode ser entendido, ao mesmo tempo, como um aprofundamento e uma inflexão face aos livros anteriores. Se estes, raramente brilhantes, eram seguros e qualitativamente homogéneos, o novo livro parece abismar-se a na ideia de poesia. É evidente o rigor e o controlo da escrita, mas também é perceptível a presença de um conjunto de construções verbais que está mais próximo da aplicação de uma fórmula de escrita do que da inventividade. Há uma tentativa de interrogar o olhar que olha o mundo, interrogar a escrita como forma de penetração semântica e vivencial. Há atenção, há sensibilidade (estão lá todos os topos da poesia), há desejo de desconstrução do próprio projecto de penetração semântica, mas tudo é reconduzido a uma amálgama de frases feitas e de postura poética.
O remeter da literatura para a literatura (da arte para a arte) é sintoma de um encerramento da escrita sobre um desejo de escrita. Será possível fazê-lo, conservando a criatividade, mas é raro e não é o caso. Quase nada se salva ao longo dos mais de trinta poemas deste livro. Raramente os vislumbres de inventividade não são internamente sabotados pelos versos seguintes, ou não o foram já pelos anteriores.
Comecemos pelos primeiros textos: «(…) Ficarás à porta, no largo perímetro / entre a gramática de luz e cimento, (…); «(…) e tinta indecifrável a preencher cada / espaço do incriado (…)» ; « (…) Uma vez repetida a abrasiva velocidade de um deserto. (…)» ; « (…) no esquecido mapa onde desenhas todo o movimento. (…)» ; « (…) a evidência de uma cor extrema queimando / os signos e a gramática desenhada. (…)» ; «(…) Paredes líquidas espelham medos. / Alguém toma notas, / considera a estranha museologia perene. (…)»2. Ou, na mesma sequência:

«VII

O esboço na página
profunda do que não escreverei

é aquilo a que chamam poema,
um mapa da cidade sem mapa,

da cidade irreal, da cidade cortejo de morte
e esquecimento, da cidade-fria-lâmina
acercando-se do que está no vidro da mente
como um reflectido império antigo.

para esse lugar de leveza ingrata,
transporto os impossíveis

que a biografia disse
necessários e urgentes.» 3

Seria possível prosseguir, página a página, com textos do mesmo registo. Admita-se que é legítimo a partir destes exemplos tentar demonstrar o contrário: a sensibilidade à língua, a delicadeza da escrita, o cuidado e consciente jogo de desconstrução do sentido como ocasião de questionamento da própria ideia de poesia. Mas tudo isto mal esconderia a acção de uma fórmula que actua, precisamente, pela reafirmação do território do “poético” como espaço de escrita. Sem exterior nem inventividade.
Esta é uma poesia de contornos metafísicos, mesmo quando o desejo de profundidade se encobre sob uma aparência de desconstrução. O desejo de profundidade conduz ao uso de maneirismos literários que, apesar de uma ou outra frase mais conseguida, correspondem à formulação de textos formalmente pobres e semanticamente ocos. A pretensão metafísica de profundidade resulta quase invariavelmente num acumular de banalidades em tom enfaticamente “poético”.
Neste sentido, o texto final (uma reflexão sobre a natureza da poesia) incorre no mesmo paradoxo de se tentar distanciar de uma pretensão de profundidade semântica inerente à ideia de uma poesia originária, ao mesmo tempo que reafirma a centralidade do semântico e do fundamento:

« (…) As palavras não são linguagem, e o que ofereço ao leitor é simplesmente o vestígio, a biografia. No seu melhor, o poder sobre a vida — essa reacção à devoração — é uma forma de encantamento, uma tecnologia que encanta. (…) » 4

Caiba ou não a experiência na representação, sejam elas vestígio ou alusão, a literatura e a poesia são sobretudo propostas de experiência. O que está antes ou o que vem depois esgota-se enquanto experiência, e independentemente do movimento autoral, no modo como se produz e se propõe enquanto linguagem. E é precisamente aqui que este livro falha: não é nos princípios, é na manipulação da linguagem.
Dizia-se aqui, há alguns meses atrás, que nunca ou raramente as editoras de referência ao nível da poesia publicam um livro verdadeiramente mau. Há excepções, como o prova o regresso da Cotovia à poesia após alguns meses de ausência. Um mal-entendido de uma editora de referência, um passo em falso de um autor meritório.




1. Luís Quintais, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro, Cotovia, 2010, (52 p.)
2. Idem, 9 - 14.
3. Idem, 15.
4. Idem, 52.