segunda-feira, 21 de junho de 2010

Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem


 
Por vezes, raramente, uma frase é suficiente. Uma frase, um verso, um encadeado de frases a formar um texto, algures no interior de outros textos. Nem sempre é claro o motivo, nem sempre sustentado por critérios argumentáveis. Este, que é quase sempre o regime da produção, e é frequentemente o regime da recepção, torna-se aqui o único critério. Fruto de uma coincidência feliz entre aquilo que alguém diz e aquilo que alguém, saiba-o ou não, espera que lhe digam, por vezes, raramente, algumas frases são suficientes:

«Solstício de verão

Amanhã e depois,
todas as tardes,
espero os grilos
que enchem ao
longe as noites
curtas, cada vez
menos curtas. » 1

Este pequeno poema, incluído no livro Curso Intensivo de Jardinagem 2, de Margarida Ferra, coloca-se no plano de escrita onde a elementaridade dos recursos, o próprio óbvio do imaginário ou das construções frásicas, se aliam para formar uma representação verbal particularmente forte. Um texto como este não faz o nome de ninguém na literatura, e no entanto demonstra que a sensibilidade e a atenção à escrita podem permitir transportar para o texto alguma coisa que na experiência ultrapassa aquilo que nela cabe.
Margarida Ferra apresenta neste livro o que se adivinha ser o resultado de um prolongado trabalho sobre a escrita e a poesia. É uma escrita madura o suficiente para ser consciente de si mesma, sem que esta auto-consciência propicie de forma clara e constante a afirmação de uma identidade. Será um ponto de chegada, mas espera-se que sobretudo um ponto de partida: são por vezes demasiado previsíveis as opções tomadas, demasiado reconhecíveis as formulações.
Não está inerente a esta observação nenhuma forma de defraudado culto pela originalidade, mas apenas a percepção de que, não sendo a literatura instrumento de afirmação da subjectividade do autor (pode sê-lo de forma operativa, da mesma forma que pode não o ser), aquilo que a justifica como experiência cultural é essa particular capacidade de produzir nas palavras uma ordem da experiência capaz de ultrapassar aquilo que, de um modo imediato, o mundo não propicia. Neste sentido, a literatura será uma forma de mediação que produz e potencia aquilo que é objecto de mediação.
Tal permite compreender a capacidade das pequenas observações do quotidiano serem, como neste livro, o lugar de fixação de um imaginário onde convergem a memória e percepção do presente. O que é dito num texto nunca ou raramente o justifica. Justifica-o o modo como aquilo que é enunciado como memória ou experiência se transpõe para as palavras, e é capaz de se afirmar como autónomo face à experiência que o suscitou. Veja-se outro poema, também ele curto, onde o imediato permite, pela sua transfiguração pela escrita, abrir um plano de leitura que ultrapassa quer o desse imediato, quer o do ponto de partida vivencial que o possa ter suscitado:

«Pause

Podiam ser versos tortos,
estas linhas, se me libertassem
de facto dos referentes
que trago na carteira,
junto ao bilhete de identidade,
lenços de papel.
Sempre que tento agarrar um deles,
meio segundo antes de conseguir olhá-lo,
um gancho (do cabelo, preto) prende-se
nas unhas,
em prejuízo de outros detalhes
esquecidos com uma nova precisão. » 3

Nota-se neste texto, como em vários outros deste livro, uma tendência para a auto-referencialidade. Esta é uma tendência persistente na poesia contemporânea das últimas décadas, que por vezes esconde ou é resultado de um debilitante encerramento sobre a própria ideia de poesia. Acontece o mesmo na arte contemporânea em geral. Mas neste poema assistimos a uma muito eficaz transfiguração dessa auto-referencialidade: o que é produzido como texto subtrai-se em parte àquilo que é literalmente enunciado. Embora todas as frases possam possuir um correlato literal, o acumular do literal permite transpor o texto para o plano que é ao mesmo tempo o da reinvenção da experiência pela escrita e o da reinvenção da escrita pela experiência.
Há neste livro mais alguns poemas que alcançam este nível de exigência, apesar de ser perceptível alguma irregularidade. Sobretudo na primeira metade do livro, há alguns textos que talvez fossem prescindíveis, outros que teriam merecido ser objecto de reescrita rigorosa. Se é um ponto de partida, é-o num plano que suporta uma exigência sem complacências — assim o afirmam os melhores poemas deste livro.


 
(Uma última nota: talvez, a este nível, não seja preciosismo ou purismo linguístico pedir que o pretérito imperfeito não seja usado como condicional.)



1. Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, & etc, 49.
2. Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, & etc, 2010, (51 p.).
3. Idem, 39.