segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pedro Rosa Mendes, Peregrinação de Enmanuel Jhesus



Peregrinação de Enmanuel Jhesus 1, de Pedro Rosa Mendes, é um livro que em parte escapa aos pressupostos inerentes ao exercício crítica tal com aqui é produzida: a possibilidade da proximidade inerente à análise está neste livro questionada pela distância cultural em que se inscreve o contexto do próprio objecto da crítica. Será, assuma-se, uma leitura nos limites da sua própria verosimilhança. Menos uma crítica do que um registo.
Todo o livro é um arriscadíssimo jogo de reinvenção linguística e cultural: o português aqui falado não é o português de nenhuma norma reconhecível: seco e objectivo, ao mesmo tempo que complexo e conscientemente distorcido, será, supõe-se, o cruzamento entre aquela que é a norma do português literário de Portugal e a projecção (em larga medida mais reinventada do que factual) do seu uso no interior de vozes asiáticas.
Embora cedendo àquilo que se vai tornando moda literária no romance português contemporâneo (a proliferação de vozes na primeira pessoa), a construção narrativa é congruente com essa multiplicação: não se trata de um subterfúgio, mas de uma opção capaz de se aproximar da diversidade de olhares e perspectivas. E apesar de alguma inevitável homogeneização linguística produzida pela voz do autor, é aqui perceptível uma efectiva diferenciação identitária das distintas vozes.
Peregrinação de Enmanuel Jhesus é um texto que nos faz penetrar em profundidade no interior de um tecido cultural e histórico cuja complexidade quase não cabe no espaço físico de Timor: cruzando a história e a mitologia, a fé e ficção da fé, a descrença e a ficção da descrença, o livro é o negativo da festa da independência (ou da festa da recusa da autonomia no interior do estado Indonésio).
As personagens vão, na primeira pessoa e em registo de testemunho, construindo uma narrativa que é, com Alor, quase a do romance de formação de raiz romântica: só que em vez da aprendizagem e do crescimento que deve acompanhar a descoberta, encontramos a construção de uma mitologia invertida. Alor, nem indonésio nem timorense, é corporização do negativo de uma identidade:

«O meu filho não teve pai, Beltran. Era filho do incesto, como você sabe, pois esta ilha é um confessionário. O avô de Alor satisfez-se na sua filha. Eu não lhe dei um pai. Dei-lhe uma hipótese, quando o apanhei em Matan Ruak. Ele deitou-a fora - vinte anos depois. Por causa de Alor, perdi uma colónia e não ganhei um país. O único órfão, padre, sou eu.» 2

Todo o romance é uma extensa mitologia da descrença e do abandono. É o contrário de uma mitologia, mas que reverte, enquanto projecto literário, na construção quase mitológica da própria impossibilidade de mito. O paradoxo é que esta proposta de mitologia negativa se constrói ela mesma assente sobre uma ausência: Portugal. É no paradoxo da inscrição do negativo como regime de uma cultura (Timor) que assenta sobre uma identidade ela mesma ausente (Portugal, desde sempre ausente, apesar da aparência da sua presença) que se produz alguma coisa que não é exactamente nem um negativo nem um positivo. Se a soma dos múltiplos negativos não produz um positivo, produz pelo menos a diferença: Timor surge-nos, sob este olhar desencantado, como o cruzamento de espaços culturais cuja coabitação conduz senão ao absurdo, pelo menos àquilo que não é legível à luz das estritas categorias de nenhum deles.
No plano formal, será questionável, enquanto resultado e apesar da justificação conceptual, a opção pela proliferação de vozes. Se estrategicamente tal permite dar voz a uma diferença que é, de facto, irredutível à homogeneização de registos de um único narrador, no plano da realização por vezes resulta forçada a opção do discurso na primeira pessoa de personagens que, manifestamente, não pensariam em português. Se isto é verosímil, por exemplo, no caso de David Leviatão, brasileiro (admitindo a verosimilhança linguística do discurso produzido), torna-se mais problemático no caso, por exemplo, de Que-Deus-Tem, veterano da resistência, que se pronuncia no interior de um vocabulário e construções frásicas de matriz incerta. Note-se, apesar desta objecção, a exigente criatividade que está inerente a este processo de escrita: está longe de ser evidente produzir um discurso quando está ausente aquilo que poderia constituir a sua norma linguística e cultural. Por outro lado, a multiplicação de vozes concorre para produzir um efeito de caos e de instabilidade que, mais uma vez, tem tanto de mais-valia expressiva quanto de condicionamento do objecto.

Muito para além destas objecções, Peregrinação de Enmanuel Jhesus é um livro forte o suficiente para potenciar o seu próprio contexto de recepção, pelo que seria extremamente redutor ver nele apenas a transposição romanceada de uma experiência ou de uma realidade histórica e cultural. É-o, mas não apenas. O seu principal mérito é o de ser capaz de afirmar quer a sua autonomia face a essa realidade, quer a sua capacidade de no-la mostrar transfigurada pelos seus paradoxos. Pedro Rosa Mendes vem inscrever no imaginário cultural português um objecto literário de grande força simbólica.


1. Pedro Rosa Mendes, Peregrinação de Enmanuel Jhesus, D. Quixote, 2010 (246 p.).
2. Idem, 313.