domingo, 4 de julho de 2010

Manuel de Freitas, A última Porta




A literatura e a poesia em particular implicam uma relação de confiança entre quem escreve e quem lê. Implicam uma quase exigência de crença: quem lê deve acreditar na validade da voz que escreve, mesmo se a leitura o conduza à divergência ou à simples recusa do enunciado.
Esta exigência de credibilidade da voz do autor será comum a outras formas de arte, mas é particularmente operativa na poesia e faz-se acrescida no momento em que esta se enuncia preferencialmente na primeira pessoa: seja como sujeito implícito ou como sujeito explícito, seja como ponto de partida para a afirmação do eu, seja como lugar a partir do qual se perspectiva o mundo, a poesia deve conquistar as condições da sua credibilidade.
Parte do processo de afirmação de uma autoria torna-se, por isso, um trabalho de construção da credibilidade da voz. Este processo de construção pode operar, entre outras, pela demonstração de um particular domínio da linguagem, pela construção de um universo representacional marcadamente pessoal, pela pose intra ou extra-textual, ou por uma específica capacidade para corresponder àquilo um dado contexto histórico e cultural lhe exige.
É possível que o que modernidade designou por originalidade corresponda à expressão mais forte desta exigência de construção da credibilidade da voz, pela exigência da especificidade do olhar e da língua capazes de sustentar a escrita. É esta exigência de credibilidade autoral que torna particularmente problemáticos os exercícios de “leitura cega”, ou seja, de uma leitura que desconheça por inteiro o autor do texto. Não é possível assumir o lugar do autor como fundamento da escrita e pretender que esse lugar permaneça em aberto.
Naturalmente que parte da estratégia da poesia passa por transferir para o leitor a posição perspectivística do enunciador: o eu autoral pretende-se duplicável pela consciência do leitor. Mas esta é uma duplicação que raramente ou quase nunca funciona, dado que o leitor tem sempre consciente a alteridade do sujeito que, na leitura, enuncia como eu. Por isso importa construir no texto os elementos que fundem a credibilização deste outro que na leitura se aceita ficcionar como eu.

Ao longo da última década, Manuel de Freitas soube construir as condições de credibilização da sua voz. Uma antologia como A última Porta 1 torna claro os motivos: não será exactamente pela originalidade ou por um particular domínio da linguagem, mas pela construção de um universo representacional marcadamente pessoal, onde a pose e a encenação intra-textual desempenham um papel central.
Esta antologia, cuja selecção é da responsabilidade de José Miguel Silva, começa desde logo por evitar o peso da edição consagratória de centenas de páginas que ultimamente tenta alguns autores. Aquilo que aqui temos é, nas palavras do responsável, o resultado de uma opção assumidamente subjectiva: «Sobre a selecção dos poemas, não tenho muito a dizer. Escolhi simplesmente os que me pareceram melhores, com toda a subjectividade própria duma ciência tão inexacta como é a do gosto literário2
Não efectuaremos aqui qualquer exercício de contabilização dos excluídos. Nota-se a presença de um critério constante e transversal a toda a antologia, o que produz uma visão coerente do trabalho do autor. Demasiado coerente, talvez, resultando num certo anestesiando da força conflitual dos próprios textos. Mas isto seria talvez inevitável num autor com um corpo textual já extenso e onde a informalidade da escrita opera por vezes como princípio estruturante. Por isso, excluir os momentos menos conseguidos corresponde aqui a amputar parte de um mundo que se constrói na própria proliferação.

Uma das características mais marcantes da poesia de Manuel de Freitas é o modo como ela corporiza, num mesmo registo, uma ideia de vida, de poesia e de literatura. A pose do poeta atravessa estes textos como ponto de ancoragem de toda a escrita. Não há nisto nada de negativo, é uma constatação: esta poesia constrói-se sobre e no interior de uma experiência de mundo que confere à palavra a capacidade de se constituir ela mesma como mundo, de se constituir como instrumento de penetração no real, fazendo da experiência da literatura o critério do próprio real:

«(…)
Estive na cama de Odette de Crécy
quando Swann espreitou
à procura da desilusão do amor.
Vesti-me de rapariga breve
em frente àquele espelho antigo
que revelou a Malte a sua androginia.
E ouvi as ondas quebrarem-se
como se a angústia chamasse
devagar pelo meu nome de água.
Senti com Fabrício a fome, a certeza
do veneno, o sol no rosto de Clélia.
(…)» 3

Um texto como este é ao mesmo tempo uma afirmação de afinidades literárias (de Proust a Rilke, de Virgínia Woolf a Stendall, de Cervantes a M. Lowry, etc.) e uma afirmação de fé na própria literatura, mesmo que, numa estratégia recorrente no autor, tal desemboque numa formulação deceptiva. Que a literatura tenha a capacidade de realizar o próprio real é o ponto de partida de toda a escrita, como de toda a arte. Aquilo que nestes textos se acrescenta é o modo assumido como a escrita acompanha a construção do sujeito, num registo que é simultaneamente o da afirmação das potencialidades salvíficas da poesia e a constante remissão para a inutilidade de qualquer gesto. Mas mesmo esta permanente construção do deceptivo deve ser entendida, por muito que tenha de existencial, como encenação: faz parte da natureza desta poesia questionar a vida com a mesma intensidade com que a afirma, questionar a poesia com a mesma intensidade com que a usa, a constrói e a encena:

«(J’ai Oublié) All My Life

para o Rui Pedro Gonçalves

Cartaxo, Hotel Luna, quarto 203:
do outro lado da rua, fica a escola
onde as primeiras namoradas se
confundem com a memória de um incêndio.
Houve quem não sobrevivesse, claro.

Pouco importa. O mau vinho
que esta noite me conduz
desconece o sono, cabe inteiro
num copo alto. Fecho Noites na Granja,
roubo feliz de um amigo, e percebo
que nenhum de nós chegou a enfrentar
aquele touro para do da infância,
imagens que julgávamos esquecidas.

Que nos bastem as evidências:
pequenas hortas entre escombros,
palmeiras encimando
adegas permanentemente demolidas.
Ou esta noite fechada, sob a capa
negar do teu livro. Embora, por vezes,
uma porta qualquer me devolva
o pano sujo do bilhar onde perdemos tudo.

Os bares — como fui estúpido em acreditar
num regresso — renderam-se a músicas
e pessoas com quem não saberíamos trocar
o mais breve dos cigarros. Há um arco
caído sobre a estrada que nos leva à Horta,
entre muros, risos soltos, alguns cardos.
Quo vadis — pergunta a sombra de ninguém
ao enforcado que todas as paredes não calaram.

Parece-nos, às vezes, que estamos a morrer.
mas não; estamos simplesmente mortos.
E já nem o entulho do passado nos comove4

Este texto (e poderia ser quase qualquer outro, dada a recorrência do universo temático representado: a memória, o álcool, a noite, a literatura, a música, a amizade, o amor, a morte) é expressivo quanto ao modelo de escrita: um registo quase prosaico que se constrói no limiar do óbvio, e talvez por isso particularmente eficaz. É a capacidade de sustentar este registo sem cair (ou só raramente caindo) na banalidade, de percorrer um espaço a vários títulos reconhecível, sem se confundir com ele, que confere a esta escrita um suplemento de especificidade. E é isso que faz a sua força. Acrescente-se a isto a legibilidade da escrita: não há a construção de paradoxos linguísticos, de enigmas hermenêuticos a suscitar a reverência do sagrado, etc. O registo de escrita é homogeneamente quase linear, demonstrando que a poesia não tem de se enredar nas próprias palavras para produzir profundidade.
De algum modo, é possível pensar que, no imaginário e na linguagem, Manuel de Freitas escreve como quase uma geração gostaria ou tenta escrever: enunciando a fé possível na poesia, na boémia e na vida — com todas as dúvidas e algum cinismo.
Evidentemente um autor central deste princípio de século.





1. Manuel de Freitas, A última Porta (Antologia), selecção e posfácio de José Miguel Silva, Assírio e Alvim, 2010, (171 p.).
2. Idem, in posfácio de José Miguel Silva, 163.
3. Idem, “Saldos”, 52.
4. Idem, 136-37.