terça-feira, 20 de julho de 2010

Maria Gabriela Llansol, Causa Amante - I I



 
« (…) a cozinha é baixa, com outras janelas sobre o mar e o terreiro e, no vendaval que precede o calor, uma filha do país vem agitar as nossas recordações apresentando-se sempre para ficar. Ela própria é, por vezes, uma obra completa de beleza e, noutras, de febre. Nessas manhãs insiste connosco, sem nos deixar um instante de sossego, e ameaça ir dizer às populações vizinhas que a nossa língua não é verdadeira, que o português que falamos é uma impostura.» 1

Enquanto conceito, “a rapariga que temia a impostura da língua” é uma das personagens mais fortes da ficção portuguesa das últimas décadas. É também particularmente significativa no interior do projecto de escrita de Maria Gabriela Llansol. Ela sinaliza uma relação de confiança desconfiada com a língua e com a escrita. É uma questão subjacente e transversal aos seus textos: interrogar a língua e a escrita, afirmando ao mesmo tempo uma desconfiança e uma reserva que só a confiança sem reservas pode permitir. É na consciência da natureza inevitavelmente enganosa da língua que se define a relação de confiança com a própria língua.
A rapariga que teme a impostura da língua é a mesma que pretende e que precisa de ser aceite na língua, que dúvida da língua na mesma proporção em que sabe, conscientemente ou não, que é nela que se realiza.

Parte do sucesso crítico da obra de Maria Gabriela Llansol assenta numa consciente e deliberada resistência dos seus textos à interpretação. Mas, sobretudo e de forma paradoxal, no carácter eminentemente interpretável da sua obra. A crítica e a academia gostam da interpretação: esta assinala-lhes uma legitimidade acrescida. Num momento em que assistimos ao princípio da sacralização da autora, valerá a pena questionar não exactamente o valor da sua obra, mas os princípios que lhe estão subjacentes: a ideia de escrita, de literatura e das subjacentes relações de recepção.
A estratégia de escrita de Gabriela Llansol passa por uma sensível experimentação exploratória da língua. É neste movimento de exploração que convergem matrizes tão distintas quanto do experimentalismo de raiz modernista, o simbolismo de raiz hiper-romântica, e um imaginário de acentos surrealistas. Acresce a isto a sacralização da literatura enquanto lugar de uma experiência de profundidade que se realiza pela desconstrução das condições de escrita e da legibilidade.
O questionamento da escrita concorre para reforçar o seu valor simbólico e a sua capacidade de se constituir como elemento de transposição para alguma coisa que não cabe na linguagem. O dizer o e o não dizer implicam-se na mesma pulsão de quem pretende que o dito é sempre da esfera da resistência ao dizer. Esta é talvez a mais radical afirmação de confiança na língua e na escrita: aquela que se funda na consciência dos seus próprios limites — dos limites da linguagem e dos limites da escrita. E esta é, inevitavelmente, uma forma de sacralização da escrita. Afirmar a língua enquanto modelação matricial da realidade é antecipar a possibilidade de redução do real ao plano da escrita:

«era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz das plantes e, em terceiro
a matriz de todos os seres existentes. (…)» 2

Esta dimensão fundadora da escrita não supõe, como a tendência maior do pensamento ocidental (e que teve em Hegel o seu esplendoroso culminar), a possibilidade de reduzir o real a plano de leitura do logos, de um sentido da ordem do conceito e da razão. Supõe, ao contrário, a afirmação de uma noção de verdade e de realidade que, apesar de se realizarem na linguagem, escapam ao plano do discursivo. Esta é uma escrita que se assume como arte, ou seja, cujo valor de verdade se assume fora das exigências da argumentabilidade. Mas esta escrita que se pretende arte perde desde logo a argumentabilidade de um fio lógico. É talvez aqui se joguem os limites do projecto de Gabriela Llansol.
Naturalmente que a literatura, como qualquer forma de arte, não tem de ser argumentável. O valor dos seus enunciados não é aferível pela sua veracidade ou falsidade, pela sua congruência ou incongruência lógica. A literatura não tem de ser argumentável, mas não deve refugiar-se no segredo da sua própria construção. Independentemente da possibilidade de qualquer texto, como qualquer representação ou experiência, ser sempre susceptível de múltiplas e crescentes formas de interpretação, esta não deve ser entendida como uma relação que decorre de um processo de desencriptação. A menos que pensemos em relações de recepções profissionalizadas, nomeadamente de âmbito académico, não é simplesmente operativo que a recepção de uma obra exija do leitor (ou do espectador, ou do ouvinte, etc.) um exercício de desencriptação tal que implique que o receptor duplique o trabalho de produção. Mas, só por si, a academia não pode ser nem modelo, nem critério de recepção.
Isto não constitui uma apologia de um falso imediato (não existem imediatos, sobretudo em arte), nem o desconhecimento de que todas as relações de recepção, como todas as experiências, são por natureza gradativas. Significa apenas a consciência de que parte do trabalho de produção deve passar pela sua capacidade de antecipar as possibilidades de recepção, de lhe fornecer os elementos necessários a esse trabalho, e isso implica recusar o uso da língua como instrumento de auto-protecção do autor. Parte da honestidade intelectual do produtor passa por aqui.
O texto literário pode, e provavelmente deve, passar pela resistência à exigência de verdade que define outros modelos do uso da língua. Mas fazê-lo na manutenção da verdade com horizonte de fundamentação do texto é, inevitavelmente, remeter a literatura para o plano de uma sacralidade que, se suscita a interpretação, não suscita a própria resistência. E esta é uma aporia que define a escrita de Maria Gabriela Llansol. De um modo consciente:

«(…) No fim disse:
— Teria eu construído a minha vida sobre um primeiro pensamento verdadeiro?
Respondi-lhe antes que procurasse saber qual:
— Que a língua é uma impostura. (…)» 3




1. Maria Gabriela Llansol, Causa Amante, A Regra do Jogo, 1984, 17-18.
2. Idem, 160.
3. Idem, 19-20.