domingo, 18 de julho de 2010

Maria Gabriela Llansol, Causa Amante - I



 
« o que me atrai no livro é que se abra. Que eu possa ir a todos os seus recantos, como se ele fosse um labirinto de acções, um guia em mundos que desconheço, uma sequência de imagens exactas, uma paisagem com força de existir, um velho manuscrito que fale verdade, e responda.
Cada vez que fui até ao fim do enredo, a minha energia foi e, depois de captada, se entregou.

a forma de te procurar e a forma do que procurei encontram-se quando, contigo, pude escrever o livro.» 1

Aceitar o Livro como uma metáfora do mundo, ou pretender que o mundo é uma metáfora do Livro, corresponde a admitir como central na experiência humana não apenas a linguagem lógico-verbal (e por extensão, todo o logos grego), mas também o modo particular como ela se materializa sob a disposição formal e gráfica do que actualmente reconhecemos como livro. A sacralização do livro e da palavra permite a analogia entre o sentido do mundo como mistério e o sentido do livro como enigma.
Esta é uma sacralização recorrente. Mesmos nas suas formas mais profanas, o livro surge como símbolo do saber, fundamento da autoridade, objecto cuja acumulação garante a posse simbólica daquilo supostamente neles se inscreve. A quantidade, superior às possibilidades de actualização pela leitura, surge como garante de manutenção do espaço simbólico do sagrado. A biblioteca, lugar desta sacralização, deveria colonizar a casa e expandir-se para novos territórios. O coleccionismo é a marca desta relação. Uma relação já não com as palavras (ou as imagens, ou os sons, em outras formas de arte), mas com os objectos, com a materialização do sentido. O caos dos livros acumulados seria ao mesmo tempo uma ameaça à ordem prometida e a sua condição, o garante último do espaço do segredo.
É face a esta forma de fetichização do objecto que os novos suportes do texto e imagem parecem surgir como ameaça — ameaça não propriamente à palavra, mas a um modelo de autoridade. E no entanto, sob a aparência da palavra feita texto está alguma coisa que não cabe no suporte, seja ele pedra, barro, pele, papel ou imagem digital: o som, o ritmo, a experiência interior — a pobre promessa de representação.



1. Maria Gabriela Llansol, Causa Amante, A Regra do Jogo, 1984, p. 90.