sexta-feira, 23 de julho de 2010

Orlando Ribeiro, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico


 

«No Verão, as pressões elevadas encontram-se ao norte, nas planícies e montanhas da Europa Continental. Pelo contrário, no deserto africano, violentamente aquecido, cavam-se depressões cuja influência se prolonga por todo o mar interior. Sopram então ventos de norte, por vezes muito regulares (ventos etésios, no mar Egeu, por exemplo), que mantêm o céu límpido e impedem a queda de chuvas. Durante esta quadra do ano, a temperatura elevada e a secura do ar prolongam até à Europa condições que evocam já a aridez tropical, que constituem uma sorte de expansão.» 1

Este é um livro sobre um mundo antigo cuja perenidade atravessa a própria ideia de civilização, mas é ao mesmo tempo um livro sobre uma realidade em acelerado processo de mutação. Pensado, desde a sua primeira edição em 1945, como um retrato de uma identidade cultural e geográfica designada por Portugal, ele é hoje o registo de um mundo em vias de desaparecimento, não apenas de um país.
Se podemos ainda entender como constantes as variáveis de natureza morfológica e climática, constante ainda parte do coberto vegetal, constante o legado da história, quase tudo o mais do que é descrito neste livro foi no espaço de meio século remetido para a condição de resto ou de memória de uma forma de vida. Alterou-se a distribuição demográfica, alteraram-se modos de produção agrícola, alterou-se a paisagem na mesma medida em que se transformaram os homens que a habitam. Neste sentido, é um estranho testemunho da própria transformação. Apresentando uma imagem de um mundo de ritmos lentos, permite medir, no negativo, a identidade daquilo que surge com a mudança.
Grande parte das condições descritas talvez permaneça. Mas permanece já não exactamente como traço cultural distintivo ou tido como tal, mas sim enquanto elemento de uma paisagem física ou cultural onde se inscrevem modos de vida que, face a ele, se definem mais por uma relação de simultaneidade do que de pertença e implicação.
Obra de síntese, este é o retrato de um país construído e habitado por camponeses, modelado na modelação das paisagens rurais, nas transformações induzidas no coberto vegetal, sujeito às variações sazonais e ao peso de heranças e de aprendizagens históricas. O que resulta é quase o registo de um mundo pré-industrial e pré-moderno que perdurou no espaço do território português, e de um modo mais amplo no do sul da Europa. É isto que este livro tem de quase paradoxal: o olhar objectivante da ciência moderna debruça-se sobre uma realidade física e cultural que, nos seus traços fundamentais, pouco difere do mundo antigo. Da pastorícia à agricultura, da silvicultura às estruturas sociais, esta é uma imagem conscientemente implicada de um mundo sob a ameaça da própria história.
Talvez por isso o texto seja formalmente muito rico: não se trata apenas de fornecer um relato objectivo, de organizar dados, de compilar e transmitir informação, mas também ou sobretudo de propor um último retrato de uma organização cultural em processo de desagregação.
Apesar do rigor do olhar do geógrafo, há já algo de nostálgico na caracterização de modos de vida dependentes da terra, do clima e da capacidade para, com eles e contra eles, produzir mundo e cultura. A dedicatória do livro é só por si expressão comovente desta nostalgia:

«Aos camponeses, pastores, moleiros, almocreves, pescadores e gente de outros ofícios, pela maior parte já desaparecidos, dedico esta obra, nutrida da sabedoria dos velhos e das esperanças e anseios dos novos, aos que nunca a poderão ler: gente humilde que aceitou um destino simples, exerceu com esforço o que aprendeu dos antigos, modelando a fisionomia dos lugares e prolongando no mar a obscura energia dos homens. (…)» 2




1. Orlando Ribeiro, Portugal, O Mediterrâneo e o Atlântico, 7º edição, Livraria Sá da Costa, 1998, 3.
2. Idem, IX.